MULHERES COM H
   

Orgulho pós-cirurgia
Foto: Acervo pessoal
  A primeira foto
de Cinthia

“Nunca tirei fotos vestida com roupas masculinas. Só tenho uma, pequena, de quando ainda era criança. Era uma coisa que não suportava. Eu vivia insatisfeita porque tinha que viver dentro daquela roupagem. Mas chamei um fotógrafo para tirar a primeira fotografia de Cinthia”.

Esse álbum de fotos não começa na maternidade, mas bem que poderia ter sido iniciado na sala de cirurgia do Hospital das Clínicas. Foi lá que nasceu, no dia 13 de dezembro de 2006, após 37 anos de “gestação”, uma nova mulher, ou uma mulher re-orientada ou re-direcionada, como defendem as organizações não-governamentais, política e corretamente falando.

Essa história começa dois anos atrás, com uma pessoa infeliz e insone, como tantas outras, diante da TV. “Tinha 35 anos e vi uma reportagem na televisão. Era umas 5h da manhã. Aquilo mexeu comigo. Foi a minha salvação. A matéria dizia que os hospitais universitários faziam a cirurgia. Naquela época, eu vivia uma depressão muito grande, eu não estava feliz na vida, estava perdendo o sentido da felicidade. Procurei o Hospital das Clínicas no outro dia”, lembra.


Dr. Roberto Faustino é psiquiatra
Foto: Inês Campelo/DP
Cinthia diz que, antes mesmo de promover a mudança de sexo, os médicos a ajudaram a desvendar a sua identidade sexual. “Só descobri que sofria de transexualidade masculina no Hospital das Clínicas, com o doutor Roberto Faustino (psiquiatra). Passei um ano nesse processo todo. Estava com depressão, fui hospitalizada várias vezes com pressão alta e problemas de circulação, tudo psicológico. Estava me acabando. Eu estava sofrendo tanto que eles anteciparam a operação, mas tudo de acordo com o diagnóstico”.

Essa confusão, como não poderia ser diferente, prejudicava toda a vida amorosa de Cinthia, que optou pela solidão. “Eu não tinha namorados. Sempre tive essa dificuldade. O órgão sexual era o atrapalho de tudo. Eu não me submetia ao sexo gay. Nunca também me relacionei com mulheres. Me sentia tão mulher quanto elas. Hoje eu posso esclarecer o que eu sou, o que eu era”.

“Vamos passar a página?”, pergunta. O diário de Cinthia, hoje, é outro. “A minha vida mudou completamente. É uma felicidade que até agora não consigo definir. Primeiro, por ter feito uma cirurgia gratuita, já que não tenho recursos para isso. Segundo, porque hoje me sinto completa, realizada, me sinto verdadeiramente mulher, livre. Hoje eu sou maravilhosa!”, diz, no salto de sua poderosa auto-estima.

De frente pro espelho – “Me acordaram ainda na sala de cirurgia. A primeira coisa que perguntei foi: ‘doutora, pelo amor de Deus, tiraram?’ Ela disse: “Cinthia, parabéns, você é uma mulher’. Nunca vou esquecer esse dia”. A descoberta do novo sexo, no entanto, só aconteceu cerca de 10 dias depois. Haja suspense! “Eu vim ver o meu corpo realmente em casa, não estava mais com os curativos. Era o que eu esperava realmente. Hoje eu adoro me ver, tomar banho, adoro meu corpo. Eu me curto.”

A sexualidade de Cinthia foi sendo descoberta aos poucos, com ajuda profissional e a dose certa de curiosidade. “É uma coisa que foi ocorrendo. Comecei entendendo aos poucos, eu não sabia o que estava acontecendo. Procurei uma ginecologista na minha cidade para entender. Na realidade eu não sabia que ia ter orgasmo, mas a minha vontade de ter a minha identidade foi importante para que essa sensibilidade viesse depois. Sinto prazer, tenho pequenas ejaculações, como mulher realmente. Curto as preliminares, a correspondência homem-mulher. Eu tenho toda a sensibilidade”, comemora.

100% mulher – Agora, ela tem em mãos uma decisão importante a tomar cada vez que se relaciona com alguém. Contar ou não? “Algumas vezes eu não contei nada, passou totalmente desapercebido e foi maravilhoso. Em outros casos, eu contei, principalmente por conta da questão da documentação. Uns não querem acreditar. Eu sei que não sou obrigada a contar”.

A abordagem , para Cinthia, já faz parte até da paquera. “Um dia, um rapaz chegou e disse: ‘Desculpe a pergunta, mas você é 100% mulher?’ Eu disse: ‘Sou’. Às vezes eles pedem ou eu mesma sugiro que passem a mão para não deixar nada em dúvida. Alguns, educados, dizem: ‘Eu confio em você’”.

Hoje, o incômodo físico se restringe à voz, mas isso não é problema: “Vou começar uma tratamento com uma fonoaudióloga. Quando o homem chega, vê aquela mulher maravilhosa, mas quando eu falo, dificulta um pouco. Uns não esperam que eu explique e vão embora logo”, conta Cinthia, que não pretende implantar silicone. “Meu corpo é perfeito como mulher. Acho que só me faltava a retirada do órgão para me completar. Hoje tomo hormônio em comprimido. A mulher sempre foi tão intensa dentro de mim que sempre tive quadris largos, não tive pelos no corpo ou no rosto”, relata.

Fortalecida, plena, essa nova mulher se vê pronta para encarar velhos sonhos da alma feminina: “Hoje meu desejo é encontrar um homem maravilhoso, casar, ter uma relação séria. Viver como marido e mulher. Sei que é difícil, mas quem sabe?”. Alguém duvida que existe algo impossível para ela?


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