MULHERES COM H
   

Era uma vez João,
que virou Maria


O desejo de ter uma imagem cada vez mais próxima à de uma mulher biologicamente formada começa a ser realizado aos poucos, através dos artifícios da estética e, inevitavelmente, deságua na medicina, passando pela utilização de hormônios sexuais e implante de próteses de silicone nos seios e nádegas. No entanto, esses processos muitas vezes são realizados de maneira irresponsável e perigosa e que trazem sérios riscos à vida.

Para o psicólogo Hermes Azevedo, que estudou o transexualismo em sua tese de mestrado em Psicologia Social e da Personalidade pela PUC do Rio Grande do Sul e Fafire, acontece neste momento uma reflexão importante sobre o próprio corpo. “Elas alegam que por muito tempo o corpo é propriedade do pai e da mãe e não delas. Uma das personalidades estudadas na minha tese lembra que quando tinha 15 anos e pintava as unhas, o pai batia nela.‘Por que eles se apoderam do meu corpo e não deixam que eu faça o que quero?’, questionava”.

O terapeuta atesta uma insatisfação de proporções e danos enormes à vida dessas pessoas. Um sentimento que muitas vezes chega à negação do próprio pênis. “A mesma estranheza que a gente tem em ver um pênis no corpo de uma mulher, elas também sentem. É como se o corpo não fizesse parte da idéia que elas têm delas mesmas. Uma vez, uma paciente que se submeteu à operação para mudar de sexo relatou: finalmente vou juntar meu corpo à minha alma feminina”, lembra. “O fato de se travestir e a mudança de sexo fazem parte de um processo de auto-afirmação e de apoderamento do próprio corpo como comprovação da liberdade”.

O psicólogo acrescenta que em muitos casos as mudanças vêm junto a uma reflexão de menos valia como pessoa. “Quando eles começam a feminilizar os corpos, sentem uma rejeição da sociedade. Uma vez, ouvi de uma transexual: ‘Quando era um veadinho não sentia tanto preconceito’”.

Para a cabeleireira Cinthia, de 37 anos, a “regra” não se aplica. Última das quatro pacientes já submetidas à cirurgia para mudança de sexo no Hospital das Clínicas da Universidade Federal e Pernambuco (UFPE), ela conta que percorreu o caminho inverso do preconceito desde que fez a cirurgia, em dezembro do ano passado.

“No começo não cheguei a ter o apoio que esperava da minha família, mas entendi. Eles são do interior, de Gravatá. Mas eu sei que eles gostam de mim, acharam que eu ia morrer, temeram por mim. Um dia antes da cirurgia, eu já estava internada e meus irmãos foram ao hospital pedir ao médico para não me operar. São três irmãos homens e quatro mulheres; agora comigo, acho que eles não queriam ficar em minoria”, brinca. “Na adolescência fui expulsa de casa, mas, depois da operação, graças a Deus, aconteceu o contrário do que eu imaginava. Houve uma aproximação muito grande entre a gente. Hoje eles me aceitam como mulher”, diz, tranqüila.


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Soldado | Um dos primeiros pacientes submetidos a uma cirurgia de mudança de sexo no mundo foi o soldado norte-americano George Jorgensen. Em 1952, ele se submeteu ao procedimento em Copenhague, com o cirurgião plástico Paul Fogh-Andersen, e adotou o nome de Christine Jorgensen.
No Brasil | A primeira cirurgia brasileira aconteceu em 1971. Waldir Nogueira foi operado pelo cirurgião Roberto Farina, que acabou sendo processado pelo Conselho Federal de Medicina por lesões corporais e preso. Depois, foi absolvido. Só em 1997 o Conselho “liberou eticamente os médicos para a realização da cirurgia de transgenitalização no Brasil para fins de pesquisas”, através da resolução de número 1.482/97.