MULHERES COM H
   

O psicólogo Tony Lima é da Gestos
Foto: Jaqueline Maia/DP
  Programas de apoio
estão parados

Pelo menos dois programas foram criados para as travestis por organizações não-governamentais em Pernambuco. Os dois têm estratégias diferentes de ação, mas, em linhas gerais, lutam por causas semelhantes, como a educação sexual, a cidadania e o fim do preconceito contra as travestis.

A Gestos existe há 15 anos. É uma ONG que tem a missão de fortalecer os portadores do vírus HIV e agir na prevenção da doença. O psicólogo Tony Lima, coordenador da Gestos, explica que, no final da década de 90, a visibilidade da Aids entre os travestis passou a aumentar. “Resolvemos, então, formar grupos exclusivos para essa identidade sexual, que tem suas especificidades. Elas não são do gênero masculino e também não são mulheres. Por isso devem ser trabalhadas separadamente”, pontua.

Com o fortalecimento do trabalho, surgiu, em 2002, o projeto Oxumaré. A idéia foi reunir travestis e capacitá-las para que, nas ruas, elas pudessem orientar outras travestis sobre doenças sexualmente transmissíveis e cidadania. “Notamos que as travestis são as excluídas das excluídas. Elas enfrentam preconceitos, são taxadas nas ruas, não têm emprego. Aqui no projeto, elas se tornam educadoras sociais e ganham uma bolsa de meio salário mínimo por mês”, conta Tony.

A iniciativa do Grupo de Trabalhos em Prevenção Posithivo (GTP+) também nasceu em 2002. O projeto Mercadores de ilusão, voltado inicialmente para garotos de programa, acabou por acolher as travestis. “Notamos que, também no imaginário delas, existia o sonho de sair do Brasil para se dar bem. Mas é preciso dizer que isso acontece com uma minoria. É preciso alertar da realidade lá fora”, afirma o coordenador geral do grupo Wladimir Reis.

Sem verba - O problema é que, atualmente, os dois projetos estão praticamente parados por falta de verba – necessária para custear a compra do material educativo e a ida das educadoras às ruas. No início, tanto a Prefeitura do Recife quanto o governo do estado apoiavam a idéia da Gestos. “Nosso papel era ceder um motorista para levar o grupo aos pontos de trabalho toda sexta-feira. Mas agora estamos em busca de novos projetos. Temos toda a disponibilidade de apoiar o segmento das travestis”, diz o diretor executivo de atenção às DSTs/Aids da Prefeitura do Recife, Acioli Neto.

Já o coordenador do Programa DST/Aids da Secretaria Estadual de Saúde, François Figueirôa, explica que todos os projetos apoiados têm duração de 12 meses. “A cada ano, há uma seleção pública que aponta qual a área de intervenção é mais indicada. Podem ser escolhidos os mesmos projetos ou outros”. Segundo ele, o novo edital de seleção pública será lançado no segundo semestre deste ano.

O projeto do GTP+ recebeu, por quatro anos, financiamento de uma entidade alemã, a ASW. “Estamos sem apoio há um ano. Percebemos que os locais de pontos de travestis aumentaram e não existem programas específicos para elas. A travesti não é vista como cidadã: é sempre ela que rouba, que maltrata... ela é o agente da marginalidade”, reclama Wladimir Reis.

Os auxílios, além de levar pão à mesa, proporcionar segurança e restaurar a dignidade das travestis envolvidas, faziam com que a freqüência de programas diminuísse ou até com que elas saíssem temporariamente da rua. “Está faltando gás na minha casa. Eu vou deixar de trabalhar? Não posso. Nossa vida é complicada. É humilhante fazer um programa na beira da maré e ganhar R$ 10, R$ 20 no final”, desabafa Sathyva Pascollato.


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Natasha comenta a importância do Projeto Oxumaré para as travestis