
Pinho: técnica própria de cirurgia
Foto: Inês Campelo/DP |
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Saindo do casulo |
As primeiras vaginoplastias em pessoas do sexo masculino
começaram a ser realizadas nos anos 50, nos Estados
Unidos. As cirurgias experimentais construíam
vaginas utilizando a pele das coxas ou nádegas
das pacientes. Os métodos se aperfeiçoaram
e, com uma técnica própria, o médico
Sabino Pinho, chefe do serviço de ginecologia
do Hospital das Clínicas da UFPE, é o
único a realizar o procedimento em todo o Nordeste,
já tendo executado quatro cirurgias em indivíduos
do sexo masculino, desde 2001 (outros dois estão
à espera do bisturi). A cirurgia, estimada em
R$ 50 mil, é feita gratuitamente no Hospital
das Clínicas.
“É uma técnica autodidata, que chamamos
de neo-vaginoplastia. Nós tiramos o pênis
e os testículos, invertemos a pele do pênis
e deixamos um acúmulo de gordura que se transforma
em clitóris e fazemos uma sutura lateralizada
que vai dar forma aos grandes lábios. Pegamos
um molde, que pode ser uma prótese destas que
são encontradas em sex shops e revestimos com
o próprio tecido do pênis ou com uma membrana
de placenta previamente preparada contra hepatite e
HIV. Cria-se, então, um túnel entre a
bexiga e o reto. A uretra é re-implantada. È
uma questão de
feeling. Nunca lesamos
a bexiga ou o reto”, comemora.
Todo o procedimento dura em torno de três horas.
A paciente continua com o molde e com uma sonda urinária
e faz uma dieta para não evacuar nos sete dias
seguintes. Quem mora perto do hospital pode ter alta
após o segundo ou terceiro dia. “A gratificação
que você tem é imensa. A aparência
da vulva é realmente muito boa. Um médico
do hospital não acreditou no que viu e pediu
para fazer um toque. Ficou ainda mais surpreso”,
lembra Sabino.
O procedimento não depende apenas da ação
do cirurgião. Uma equipe multidisciplinar, formada
por ginecologista, psiquiatra, psicólogo e urologista,
atende a paciente para que sejam cumpridas todas as
determinações do Conselho Federal de Medicina,
que trata desse tipo de cirurgia na
resolução
de número 1.652, de seis de novembro de 2002.
De acordo com a legislação em vigor, devem
ser obedecidos critérios mínimos para
a realização da neo-vaginoplastia. Primeiro,
a paciente deve demonstrar um desconforto no “sexo
anatômico natural”. Para doutor Sabino,
isso é facilmente percebido: “Eles não
conseguem sequer chamar o nome pênis ou um nome
similar. Se referem ao órgão muitas vezes
como
essa coisa”. O psiquiatra da equipe,
Roberto Faustino, acrescenta que é preciso que
a pessoa expresse o desejo pela eliminação
dos genitais. “Além disso, é necessário
se comprovar a permanência de um distúrbio
de forma por pelo menos dois anos, ou seja, o indivíduo
psicologicamente não se sente como homem, mas
como mulher”, alega, com cópia da resolução
em mãos.
Ser ativo ou passivo não é critério
de diagnóstico de exclusão. “Alguns
passaram um período se vestindo de forma masculina,
por exemplo, por pressão dos pais. Existe um
período de transição que deve ser
considerado. Mas deve ficar claro que a cirurgia não
é voltada para quem apenas se traveste por ofício
e não por opção sexual. O psiquiatra
lembra ainda que é exigida a idade superior aos
21 anos e ausência de transtorno mental. A pessoa
também deve escrever de próprio punho
e assinar o chamado
consentimento livre e esclarecido,
que atesta as responsabilidades sobre a mudança
irreversível de seu órgão sexual.
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