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| Vítimas ou agressores? | Diogo Carvalho |
Volta às aulas é sempre assim. Entusiasmo para uns, desespero para outros que são vítimas
de abusos psicológicos sutis
ou violentos.
Imagine se a cada manhã você acordasse pensando que ao chegar na escola deveria cantar Eu sei que vou te amar para algum brutamonte e que, mesmo depois desse mico, ainda teria a chance de ser jogado de cabeça numa cesta de lixo ou num vaso sanitário imundo. Pense no riso debochado de todos os seus colegas naquele momento, sem que você pudesse ter qualquer tipo de reação. Agora, imagine se isso se repetisse todos os dias. Pois foi essa a rotina vivida durante longos quatro anos pelo estudante de administração T.B., hoje com 20 anos. Tanto sofrimento, só porque ele era tímido e se sentava na frente da sala.
Já o estudante D.M., 19 anos, lembra que houve uma época em que ele tinha pânico de voltar às aulas, com medo de entrar na classe e todos os colegas o chamarem de “bichinha” ou “mulherzinha”. Certo ano, quase foi reprovado por faltas por querer evitar o contato com a turma. “Não tinha coragem de contar para o meu pai, pois sabia que ele ia mandar eu agir como um homem e revidar. Conversava muito com a psicóloga do colégio, ela suspendia quem me abusava, mas os abusos não paravam. Chegou uma hora que não agüentei e acertei uma pedra na cabeça de um valentão, que desmaiou. A partir daí, todos passaram a me respeitar”, conta D.M.
Para todo ato de violência existe, claro, um agressor (nesse caso, o bully). O Fanzine correu atrás do assunto e foi difícil encontrar alguém que assumisse essa culpa. Leandro Barbosa, 16 anos, foi um desses. Ele admite que uma vez já colocou um prego na banca de um colega, que se machucou. “Procuro não tirar onda com ninguém, mas isso se ninguém mexer comigo”, defende-se.
Vale lembrar que não é preciso haver uma grave agressão para que o bullying ocorra. Ele pode acontecer com bastante sutileza, seja ao falar de altura ou tipo de cabelo, mas de maneira repetitiva. Basta o jovem ser um pouco diferente para se tornar um alvo.
“Às vezes, a pessoa que sofreu a agressão na adolescência, quando sua auto-estima ganhava forma, pode levar marcas para o resto da vida. Assim acontece com o agressor, que continua praticando atos violentos”, comenta o médico terapeuta e expert em atendimento a jovens, Lauro Monteiro, que também é editor do site Observatório da Infância. Por mais humilhante que possa parecer, a vítima deve sempre falar com a família. “Não existe uma fórmula mágica para acabar com a falta de respeito e discriminação. Uma solução é trocar de colégio, mas se ele não conseguir se ressocializar é melhor procurar uma ajuda psicológica”, aconselha.
* Colaborou Caroline Albuquerque
Anote aí:
www.observatoriodainfancia.com.br
observatorioinfancia@terra.com.br
Saiba mais | Bullying é uma situação que ocorre sobretudo, mas não apenas, nas escolas. É caracterizada por atos agressivos, repetitivos e deliberados de alguns alunos contra um ou mais colegas. As atitudes mais comuns são de ofensas verbais, humilhações, exclusão, discriminação, mas também podem envolver agressões físicas e sexuais. Apelidos ofensivos são a principal queixa dos alunos-alvo. Duas situações freqüentes nas pesquisas européias ainda são pouco citadas entre nós: a homofobia e o cobrar pedágio, extorquindo dinheiro do lanche, por exemplo.
O bullying também pode ganhar força no universo virtual, através de blogs e comunidades criados para falar mal de um colega ou mesmo começando a difamar alguém num bate-papo do MSN. A esses atos, chamamos cyberbulling.
Denuncie | Se você for uma vítima de qualquer tipo de perseguição física ou psicológica, fale com seus pais e informe à direção da escola, que deve tomar uma providência imediata. Mas saiba que você também pode denunciar, procurando o Conselho Tutelar mais próximo. Você também pode mover um processo junto à Justiça, cobrando do agressor a reparação por dano moral ou físico.
Alguns conselhos do Recife:
Boa Vista - (81) 3421-5080
Encruzilhada - (81) 3242-7184
Casa Amarela - (81) 3267-2419
Madalena - (81) 3287-2771
Imbiribeira - (81) 3302-8320
Muitos casos, pouca informação
![]() Leandro diz que só mexe com os colegas se também for alvo de brincadeiras |
Em Pernambuco, faltam estatísticas oficiais sobre bullying, embora muitos alunos e educadores comentem que seja evidente o aumento do número de agressões e atos de discriminação e humilhação em ambiente escolar. O Fanzine conversou com o professor Genilson Marinho, gerente de políticas de educação em direitos humanos e cidadania da Secretaria de Educação do estado, e ele comenta que diante da maior incidência de casos, algumas poucas escolas locais desenvolvem, isoladamente, trabalhos de orientação sobre o assunto, apesar de muitos colégios particulares não assumirem a existência do problema.
“Os próprios professores têm conhecimento muito superficial em relação ao bullying. O fenômeno está ligado ao preconceito. O agressor sabe qual o ponto fraco da vítima e ataca bem ali, causando constrangimento”, comenta. Uma boa saída seria exercitar o protagonismo do jovem, para ele mesmo poder prevenir esse tipo de violência. Para isso, está programada para este semestre do projeto Agentes Jovens em Direitos Humanos, através do qual vários adolescentes da rede pública discutirão direitos humanos, traçando um diagnóstico do problema e atuar como multiplicadores em vários centros de ensino. Informe-se na sua escola.
Superação
![]() Daniele sofreu bullying durante anos e hoje aconselha jovens em seu blog . |
Com 22 anos, Daniele Vuoto é um exemplo de superação. Sofreu bullying durante vários anos em diferentes escolas, teve uma depressão profunda mal diagnosticada que resultou em internação psiquiátrica e quase custou sua vida. Mas ela resistiu. Hoje, é estudante de pedagogia e ajuda milhares de jovens que sofrem as mesmas agressões que ela viveu através do blog nomorebullying.blig.ig.com.br.
“Não é porque superei que vou fechar os olhos para algo que acontece cada vez mais nas escolas. Não é vergonha ser alvo de bullying e pedir ajuda é o diferencial entre acabar com a vida mais cedo ou garantir a possibilidade de construir um futuro feliz”, diz Daniele. Ela fala que, na escola, é importante observar se existem mais alunos sozinhos, excluídos. Provavelmente, são vítimas também.
Enquanto isso, ela recomenda que você treine sua confiança novamente, pensando de maneira diferente: “Olha o que ele tem que fazer para se sentir o poderoso, só sendo muito inseguro. Eu sei o que tenho de bom e não é por insegurança dele que vou deixar de acreditar nisso”, observa Daniele.