
| Essencialmente humano, Linha de Passe faz com que o público saia do cinema com a sensação de ter conhecido pessoalmente cada personagem Independentemente de contextos sociais ou de experiências de estilo, Linha de passe é um filme essencialmente humano. É na caracterização dos sentimentos dos personagens que os cineastas Walter Salles e Daniela Thomas demonstram mais aprofundamento artesanal. Acima de alegorias visuais ou recursos cinematográficos, o filme mostra sua força nos rostos e olhares. Sandra Corveloni ganhou o prêmio de melhor atriz em Cannes pelo papel da personagem Cleuza. Sua interpretação pode comover a cada minuto, mesmo nos silêncios dramáticos (graças também a um trabalho coletivo envolvendo maquiagem, direção e fotografia). Suas emoções começam na pele e nos olhos. Ela e seus filhos são pessoas de verdade, como se não fossem ficcionais. O público deve sair do cinema com a sensação de ter conhecido pessoalmente cada um dos irmãos. A freternidade entre eles é verdadeira. O afeto é real. Cleuza, grávida de oito meses, mãe solteira, vive com quatro filhos de idades diferentes. O mais jovem é Reginaldo (Kaique Jesus Santos), uma crianca que sonha em conhecer o pai e passa os dias andando de ônibus, tentando encontrá-lo, pois sabe que ele era motorista. Dario (Vinícius de Oliveira) quer se tornar jogador de futebol profissional, mas enfrenta dificuldades porque tem mais de 18 anos, idade avançada demais para se iniciar uma carreira no esporte. Dênis (João Baldasserini) trabalha como motoboy e quer ter uma vida digna, só que as tentações da ilegalidade o cercam. Dinho (José Geraldo Rodrigues) é frentista de um posto de gasolina e procura paz na vida ao ingressar em uma igreja evangélica, mas está sempre em crise de valores. Tudo no filme tem abertura para significados amplos. A família tem sonhos, mas nada garante que eles podem ser realizados. A vida se mostra difícil e está sempre no limite, na beira de um colapso. De certa forma, a história é uma metáfora para uma sociedade que quer se transformar, mas depende do futuro, pois o presente não ajuda. Estruturalmente, Linha de passe não chega a ser linear, pois tem cinco personagens principais que seguem trilhas independentes e se cruzam em pontos-chave de interseção. De uma maneira geral, o resultado é comunicativo (porém esquemático demais nas cenas finais e sem abertura para o caos, a contemplação e os respiros ao longo da narrativa), como se Salles e Thomas procurassem um cinema clássico, de aceitação ampla, com desafios artísticos mais manifestados nos aspectos psicológicos.
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