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Carros
Fotos: Juliana Leitão / DP / D.A. Press

Sonhos de consumo também viram sucatas
Mercado automotivo cresce e novos automóveis invadem as ruas do país. Mas onde vão parar os carros velhos?

Respire antes de ler esta matéria. Aproveite e olhe em volta. Comece a observar. Tudo tem um tempo de vida útil. Uma prova é a quantidade de veículos que uma única pessoa tem no período de 50 anos. Nunca se viu tantos carros. Nunca se poluiu tanto. Nunca se produziu tanto lixo. E como todo bem durável, o automóvel pode até demorar, mas um dia acabará inutilizado.

Carros sem produção atual (fora de linha) acumulam-se nos galpões das revendedoras. Enquanto diversos modelos 0km sequer desfilaram pelas ruas, estacionados nas fábricas, esquecidos pelo consumidor. O empresário Antônio Selva que há mais de 15 anos trabalha no mercado de veículos usados do Recife é taxativo: “Não compro mais nenhum carro fora de linha. Eles empacam no estoque”, afirma Selva.

A justificativa do empresário embasa a teoria dos especialistas em meio ambiente. Se o carro não serve para o consumidor, com a demanda de novidades, é automaticamente descartado. Transforma-se em lixo. “A população precisa se educar em relação ao consumo. A quantidade de carros cresce absurdamente, sem que ninguém pense nos danos. E não adianta impor medidas como o rodízio que, em São Paulo, por exemplo, gerou um acréscimo de 30% da frota”, pontua o diretor de meio ambiente do Recife, Mauro Buarque.

Maverick
Os carros antigos estão ficando entulhados nas revendedoras do Recife. Ao lado, um Maverick 74 que está “encalhado” há 10 anos numa agência de veículos
Circulando na Região Metropolitana do Recife (RMR) é possível encontrar uma quantidade considerável de revendas de automóveis. Em uma delas, a reportagem do Diario localizou uma verdadeira relíquia para os admiradores de antigos, um Maverick 74, da Ford. Há mais de 10 anos, o emblemático veículo está na loja. Um lixo, com todo o respeito, para alguns consumidores que preferem investir em modelos mais populares, convencionais. “Só quem está disposto a pagar por um Maverick é um colecionador. O ideal é o carro ser vendido em 60 dias”, revela o consultor de vendas Carlos André Cavalcante.

De dono em dono, um carro vai chegando à inutilidade. É dispensado na oficina mais próxima até ser silenciado nos ferros-velhos. Em poucas horas, um mecânico separa as peças reutilizáveis do restante. Pneus, caixas de direção, câmbio, carburadores, injeção eletrônica, pedal, tudo tem um destino diferente. O comerciante Marcelo Gomes repete a mesma rotina há 23 anos. Participa de leilões das seguradoras, Detran e outros órgãos do governo, para comprar carros sucateados. As unidades vêm com chassi cortado, placa retirada, pronto para serem desmontadas. “Fazemos um comércio de peças usadas. Restauramos bancos, isolamos carburadores, e entregamos garantia e nota fiscal. Sempre com preços mais baixos que as autopeças”, conta Marcelo, proprietário de um ferro-velho na Avenida Abdias de Carvalho, no Recife.

Marcelo nem sabe o quanto contribui com o meio ambiente e a própria sociedade. Ao comprar uma “carcaça” (por R$2.500, em média) renova peças que o mercado dispensa por uma questão de comodidade, recicla ferro e alumínio, minimizando os impactos ambientais. O saldo do comércio é positivo para as empresas leiloeiras, além da indústria do aço e alumínio, por exemplo. Em média, os ferros-velhos recebem R$ 0,03 por quilo do ferro e R$ 2,50 pelo quilo do alumínio. Três carcaças (parte externa do carro) valem cerca de R$ 50.

Montadora - Do outro lado, onde tudo se inicia, as fábricas começam a olhar para esse nicho e investem em tecnologias voltadas ao reaproveitamento. Sutilmente, em pequenas iniciativas, tentam diminuir o prejuízo da produção demasiada de veículos. Há 12 anos, a Fiat começou a identificar as peças plásticas em seus carros. A intenção é facilitar o processo de renovação. “O conceito da Fiat é produzir o carro com os olhos para quando este for desmontado. As peças podem ser reutilizadas”, resume o diretor de produção da montadora italiana, Carlos Eugênio.

Já a Ford, no complexo industrial do Nordeste, implantou um sistema auto-sustentável de tratamento de todos os resíduos e efluentes. “É importante entender que política ambiental não se resume a plantar árvores. Temos que pensar no macro, começar a avaliar desde a questão da natalidade até a discussão do transporte coletivo”, pontua Mauro Buarque.


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