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Barreiros
Cenário paradisíaco de Barreiros mudará com a construção de um hotel de R$ 1 bilhão.
Foto: Newman Homrich/Divulgação


Mega resorts invadem litoral olhando para o futuro
Investimentos de R$3,3 bi impulsionam a economia, mas deixam uma questão: quais os impactos ambientais dessas obras?

De dois anos para cá, Pernambuco recebeu a promessa de R$ 3,3 bilhões em investimentos na construção de complexos hoteleiros. O maior, anunciado no início de 2007, é o do grupo espanhol Qualta, que planeja um resort em Barreiros, no valor de R$ 1 bilhão. Há ainda investimentos dos portugueses Pestana e Teixeira Duarte (esse último, R$ 620 milhões, na área conhecida como Casa do Governador). Já no Cabo de Santo Agostinho, uma dobradinha nordestina: os baianos da Odebrecht e os pernambucanos do grupo Brennand, juntos na primeira parceria público-privada do estado.

Com tantas construções em áreas quase intocadas do litoral, a pergunta é imediata: que impactos causarão no meio ambiente essas obras e, depois, a vinda de tantos turistas? O projeto do Qualta, por exemplo, preocupa ambientalistas da APA de Guadalupe, área de conservação da região de Tamandaré. Iara Sommer, gestora dessa APA, acredita que é preciso fiscalizar o projeto antes, durante e depois. “A idéia é interessante para a região, mas é preciso fazer modificações para preservar ao máximo aquela área de mata nativa, pois será erguido ali uma ‘cidade’ de quase 22 mil pessoas”, disse.

O grupo defende-se com seu próprio conceito: o Reef Club será um “ecoresort”, ou seja, um empreendimento ecologicamente responsável. Até mesmo por pressões de mercado: o público-alvo dos espanhóis é a Europa, e o Velho Continente é, possivelmente, a região do mundo que mais pressiona e fiscaliza ações desse tipo. “Não é só para vender o negócio: essa é uma preocupação dos investidores. Mas é claro que nossos clientes preferem estar num lugar correto do ponto de vista ambiental”, afirmou o presidente do Qualta no Brasil, Rodrigo Lowdnes.

O Qualta já conseguiu uma licença prévia da CPRH, mas ainda corre para preencher as solicitações de laudos de outras doze entidades. A CPRH aprovou na íntegra o projeto dos espanhóis, que prevê a preservação das áreas de mata nativa, presentes em 100 hectares dos 500 comprados pelos europeus, além de projetos de educação ambiental dos moradores da região e até dos turistas (sem falar na nulidades de detritos ao mar; todo o lixo será retirado do local). Lowdes disse que apesar das novas exigências, o atraso não será grande. “Já retomamos parte do cronograma inicial”, garantiu ele, que reclamou da burocracia do licenciamento ambiental. “Realmente demora”.

Aliás, preocupação com a burocracia na concessão do licenciamento é tanta que, assim que assumiu, o governador Eduardo Campos mandou rever o projeto de construção de um complexo turístico na área da Casa do Governador, entre Porto de Galinhas e Maracaípe (licitação vencida em dezembro de 2006 pelo grupo Teixeira Duarte, de Portugal). Do jeito que estava, era consenso de que não passaria.




Resort do Cabo faz tratamento completo da água, do lixo e dos resíduos orgânicos, aproveitando tudo. Foto: Juliana leitão / DP / D.A. Press
Projeto do Cabo como exemplo

Desde 2006, o turismo em Pernambuco já tem um modelo a ser seguido do ponto de vista de sustentabilidade ambiental. Ao assumir de vez a direção do Eco Resort do Cabo (que antes estava sob a bandeira do Caesar Park), a Fundação dos Economiários Federais (Funcef) deu nova cara ao complexo. O modelo deu tão certo que foi “exportado” para os outros hotéis da fundação, em Brasília e em Angra dos Reis (RJ).

A começar pelo tratamento do lixo. Toda a água é reutilizada, na irrigação e hortas ou nas lavagens de banheiros, por exemplo, após tratamento em tanques especiais. Além disso, o lixo é separado e também reutilizado em sua maior parte. O que for reciclável é vendido a uma empresa próxima. Os resíduos orgânicos viram adubo (em técnica trazida por um especialista americano, que ensina os funcionários do hotel). Só vai para o caminhão do lixo, o que não tiver mesmo chance de ser reaproveitado, como absorventes íntimos e coisas do tipo.

Ao contrário do resort do Qualta, que será voltado para o já consciente público europeu, o foco do complexo de Cabo de Santo Agostinho é mesmo a clientela brasileira, mais espeficicamente os nordestinos. “Tem melhorado, mas o brasileiro ainda não tem muita consciência ecológica. Muitos acham bom estarem num hotel com perfil ecológico, mas poucos querem pagar a mais por isso”, disse o gerente geral do resort, Luiz Lobo, para quem empreendimentos como o Eco Resort do Cabo estão “construindo seu próprio público”. “Não estamos atendendo a uma demanda, e sim fazendo nossa própria demanda”, disse.

O compromisso do Eco Resort do Cabo com a proteção ao meio ambiente acompanha a Política de Sustentabilidade para o Setor Hoteleiro adotada pela Fundação dos Economiários Federais (Funcef), aprovada em 2006, que tem como objetivo o uso sustentável dos recursos do ambiente, de modo a atender, simultaneamente, às necessidades do empreendimento, aos limites ecológicos do uso desses recursos e à qualidade do atendimento.

Essa política se orienta pela Norma Nacional para Meios de Hospedagem – Requisitos para a Sustentabilidade (NIH-54/2004) e pelos princípios estabelecidos pelo Conselho Brasileiro para o Turismo Sustentável. A partir dessas orientações foi desenhado um sistema próprio de gestão, que se aplica a cada uma e a todas as áreas do empreendimento, com a participação de todo o corpo de funcionários, preparados, através de atividades de sensibilização e capacitação, para mudanças de atitude e adoção de novas práticas. Dentro dessa política, o compromisso do hotel estende-se também para as comunidades e ambientes vizinhos.


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