A administração do
complexo não sabe quantificar o total de lixo exportado
Foto: Juliana Leitão / DP / D.A.Press
Resíduo “tipo exportação” que sai de Suape
O porto, que é a menina dos olhos do governo do estado, manda seus resíduos para a Bahia e Alagoas
“Queridinho” da nova economia pernambucana, o Complexo Industrial Portuário de Suape, contudo, mesmo entrando quase na sua quarta década com anúncios de mega investimentos, como o Estaleiro Atlântico Sul e a Refinaria Abreu e Lima, fez pouco pelo meio ambiente, apesar de ter como “cláusula pétrea”, a preservação de 50% da mata nativa da região. Seu passivo ambiental já beira os R$ 16 milhões. E ainda há problemas importantes a serem resolvidos, como a destinação final de seus resíduos sólidos.
Por incrível que pareça, Suape não faz o tratamento e a transformação de seu lixo em seu próprio território. Esses resíduos sólidos são “exportados” através de duas empresas contratadas pelas companhias: a alagoana Cinal (Companhia Alagoas Industrial) e a baiana Cetrel, essa última, uma ex-estatal.
Não há um levantamento preciso de quanto desse lixo especial sai de Suape mensalmente nem o valor gasto pelas empresas para mandar esses resíduos para fora dos limites do estado. O fato é que sai caro, e além de ser um problema ecológico, torna menos competitivo o complexo. A Cetrel, por exemplo, que tem boa parte dos contratos (as empresas são obrigadas pela legislação ambiental brasileira a dar fim a esse material) é um bom exemplo de como poderia ser, caso houvesse alguma coisa nesse sentido dentro do próprio porto.
A empresa da Bahia faz parte de um “velho colega” de Suape, o Complexo de Camaçari, que teve seu desenvolvimento em um período anterior ao boom econômico que hoje ronda Pernambuco. Estando lá dentro, o lixo industrial atravessa poucos quilômetros até chegar ao centro de transformação da companhia. Os resíduos líquidos, (que em Suape, com exceção de produtos tóxicos especiais, é tratado e despejado no mar) vão direto para a Cetrel por tubulações ligadas às empresas, tornando esse tratamento obrigatório, além de mais barato, bem mais “lógico”.
“Realmente, não faz sentido não ter isso ainda hoje em Suape. Não há porque mandarmos esse lixo para tão longe”, admitiu o gerente ambiental do complexo de Ipojuca, Ricardo Padilha, que afirmou, porém, que Suape lançará, até o segundo semestre deste ano, um edital para trazer uma empresa transformadora de resíduos para Pernambuco.
Tanto a Cinal quanto a Cetrel (que já demonstrou interesse anteriormente de vir para Suape) são fortes candidatas. O negócio é bom: além da venda e transformação de produtos recicláveis, as duas companhias citadas também trabalham com a transformação de lixo orgânico em gases e até cloro.

O riacho está assoreado por detritos.
Foto: Juliana Leitão / DP / D. A. Press |
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Riacho algodoais corre risco
Além de baratear o ”custo Suape” e gerar mais empregos para o porto pernambucano (sobretudo de um tipo de profissional que ainda não há tanto no mercado local), a vinda de uma companhia desse tipo pode resolver também a questão dos resíduos líquidos, que, entre outros problemas, vem assoreando o riacho Algodoais. Esse curso atravessa Suape passando por três grandes empresas: Coca-Cola, Suape Têxtil e Rexam. Tanto o complexo quanto essas companhias assinam termos de conduta com o Ministério Público desde 2002, e vão ter de começar a cumpri-los.
O riacho vem perdendo, ao longo dos últimos anos, vazão de água, enquanto a quantidade de detritos aumentou, o que está provocando seu assoreamento. De acordo com o gerente ambiental do complexo de Suape, Ricardo Padilha, a recuperação do Algodoais é prioritária para zerar o passivo ambiental de Suape. “Queremos resolver isso até 2010”, disse.
Para começar esse processo, o complexo conta, desde o início deste ano, com recursos extras: 50% do dinheiro arrecadado com a venda de novos terrenos vão para um fundo ambiental. “Isso não havia antes, e pode fazer a diferença daqui pra frente”, afirmou o gestor.
CPRH contratará 600 pessoas
Com exigências mais severas, do ponto de vista ambiental, a Agência Estadual de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (CPRH) vê-se, atualmente, numa boa “cilada”: junto com o desenvolvimento industrial de Pernambuco, cresceu também a demanda por licenciamentos. Para se ter uma idéia, em 2006, a agência licenciou 3.216 projetos. Em 2007, foram 5.316. A expectativa para este ano é de licenciar 8.500 empreendimentos, com um prazo médio de 127 dias por projeto, metade do estipulado em lei.
Para resolver o problema, o diretor do órgão, Mário Gurgel, disse que, desde o ano passado, a CPRH conta com uma verba extra: metade dos recursos arrecadados pela taxa de controle ambiental, paga por empresas “potencialmente poluidoras”. Até 2006, todo esse dinheiro ia para a União. “Com isso, pretendemos ainda construir nossa primeira sede própria”, afirmou Gurgel. Além disso, ainda este ano, deverá ser realizado um concursos público para o preenchimento de 600 vagas, em vários níveis. “Isso se somará à política de valorização profissional que tentamos implantar desde 2007, quando alguns salários foram reajustados em até 100%”, declarou.

Leandro Ferreira virou instrutor.
Foto: Helder Tavares / DP / D.A. Press |
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Senai prepara para a área
O profissional que poderia trabalhar na futura empresa de transformação de resíduos em Suape pode ainda não existir em grande escala no estado, mas não por muito tempo. O Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial de Pernambuco (Senai-PE) oferece disciplina Segurança, Meio Ambiente e Saúde (que eles chamam só de SMS), desde o ano passado, quando se tornou mais evidente a demanda por profissionais especializados para os novos investimentos de Suape.
Aliás, tanto o Estaleiro Atlântico Sul quanto a Refinaria Abreu e Lima exigiram que essa matéria fosse ensinada. Tudo isso gera expectativa em pessoas como Leandro Ferreira, de 28 anos. Ex-vendedor, ele terminou há pouco o curso de segurança no trabalho no Senai-PE e agora virou instrutor de meio ambiente de outros trabalhadores que já estão em Suape. “Meio ambiente para mim, antes, era só o básico: árvore, passarinho, essas coisas. Hoje, sei que tudo é mais complexo”, disse. Empolgado com as oportunidades na área, Ferreira pensa até mesmo em virar engenheiro ambiental. “Não só em Suape. Também olho muito para o interior, que está crescendo”, explicou.