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Lixão
As montanhas acinzentadas servem de fonte de renda para milhares de catadores.
Foto: Juliana Leitão / DP / D.A.Press.


Uma novela chamada Lixão da Muribeca
Há quase 25 anos ele está lá, como sinônimo de descaso governamental das cidades do Recife e Jaboatão com o tratamento dos resíduos

Quem ainda acha que política e meio ambiente não se conectam, certamente precisa observar melhor algumas áreas “invisíveis”. A escassez de políticas públicas, aliada à falta de educação ambiental da sociedade, nos levam a aberrações que, muitas vezes, estão debaixo do nosso nariz – mesmo quando não conseguimos enxergar.

Sem saber como gerenciar o lixo que produz, há quase 25 anos Pernambuco transforma o “famoso” lixão da Muribeca em sinônimo de descaso político e danos ambientais. Na opinião de especialistas, parte do passivo ambiental herdado pelas gerações atuais chega a ser considerado irreversível.

Por dia, o Recife despeja 1.900 toneladas de dejetos no lugar
Apenas nos últimos dez anos, foram várias minutas, propostas, sugestões e até mesmo termos de compromisso assinados pelos governantes, sem resolução concreta para o aterro sanitário localizado na Estrada da Integração, sem número, em Jaboatão dos Guararapes. Oficialmente conhecido como aterro sanitário, o lixão da Muribeca é uma visão infernal com lixo a céu aberto e catadores dentro dos resíduos sem nenhum aparato de proteção, dividindo espaço com um incontável número de vermes e urubus. E já foi muito pior, diga-se de passagem. Durante anos, o descontrole era quase total e até mesmo lixo hospitalar, altamente tóxico e perigoso, era despejado no local.

Agora, um novo projeto conjunto para a criação de um aterro sanitário adequado às normas ambientais, com respaldo social, entra novamente na pauta dos políticos. E o que era para ser solução, tem se tornado outro problema, a ponto de o Ministério Público requerer um ultimato aos envolvidos no imbróglio.

Um universo cada vez maior de catadores sobrevive do lixão da Muribeca, em condições desumanas pouco conhecidas pela sociedade. No entanto, o caráter social é apenas um dos lados da questão. Sempre tão preocupados com o desenvolvimento econômico e com a arrecadação financeira, empresários e poder público parecem não levar em consideração – ainda – o crescente poder de barganha e econômico que pode ser gerado pelo lixo. Não apenas pela coleta seletiva, sempre tão sugerida, mas pouco praticada, mas, sobretudo, pela energia que o lixo pode gerar, economizando milhões e sem afetar o meio ambiente.

Não à toa, o desprezo com o lixão deu margem a um empreendimento que dificultou ainda mais o consenso entre Recife, Jaboatão e Moreno, que são os três municípios que fazem uso do aterro sanitário da Muribeca. A empresa S.A. Paulista, desde outubro do ano passado opera um outro aterro sanitário, de caráter privado, denominado CTR Candeias.

Particular – Instalado em uma área de 70 hectares na Usina Muribequinha, justamente ao lado do lixão da Muribeca, desde outubro de 2007 que o CTR passou a receber todo o lixo produzido por Jaboatão, em uma guinada polêmica do município, que depois de 23 anos parou de mandar o lixo para o aterro público. Por se localizar em território jaboatonense, durante muito tempo se imaginou que o Recife fosse refém de Jaboatão no quesito lixo, por não possuir nenhum terreno livre e adequado para receber os resíduos sólidos. Hoje, contudo, sabe-se que não é bem assim.

O rancor político dos gestores públicos de Jaboatão é notório quando se fala em dividir a culpa, mas o dado que se sobressai é a quantidade substancialmente maior de lixo gerado pelo Recife: 1900 toneladas de lixo por dia, contra algo próximo a 600 toneladas diárias de Jaboatão. Recentemente, um termo de ajustamento de conduta (TAC) foi emitido pelo Ministério Público para que seja desativado o aterro da Muribeca. O projeto para a construção de um novo aterro transita entre os gabinetes políticos e burocráticos há mais de cinco anos. Com muitas promessas, poucas ações, nenhuma solução.


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