Foto: Helder Tavares / DP / D.A.Press
Nada se cria, tudo se reinventa
É a partir das sobras da sociedade que está sendo redescoberto o sentido da arte
“Compro sucata tecnológica - R$ 1 o kg”. Essa mensagem circulou durante o Festival de Inverno de Garanhuns em julho do ano passado, sendo distribuída pelo músico, designer e artista plástico recifense Moacir Lago em um pequeno panfleto, que assim dizia: “tecnologia obsoleta e comprovadamente imprestável, computador dispensado, televisão sem ação, liquidificador queimado, casca de rádio-relógio, fonte estourada, bateria viciada…”. Tudo isso interessava a ele para construir o Tótem Obsoletechnológico, instalação feita de uma estrutura de andaime de 3,5m de altura e de peças adquiridas e retrabalhadas em apenas três dias. “Gastei cerca de R$ 350”, lembra.

Paulo Carneiro utiliza todo o tipo de refugo para criar suas pequenas obras de arte.
Foto: Helder Tavares / DP / D.A. Press |
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O totem é apenas uma das expressões do trabalho deste pernambucano de 34 anos que tem atuado na contramão do que ele chama de “idolatria da tecnologia”, dando outros significados a placas de computadores e periféricos de informática (como os mouses) e ao refugo industrial. “Cresci no Curado, um distrito industrial onde muitas empresas jogavam coisas fora, como a Philips, e onde havia um incinerador e muito resíduo industrial. Sempre fui pobre, então tinha acesso a coisas refugadas, de segunda mão, que eu gostava de desconstruir”, explica.
Na porta de seu ateliê-casa, em uma das vias mais movimentadas da Boa Vista, está colado o cartaz da Obsoletech Tecnology, nome de seu projeto de reaproveitamento de um tipo de lixo com o qual muitos nem sabem como lidar. “Não sou um ‘ecochato’, mas tenho essa consciência. Procuro separar o lixo em casa, já tive dois carros e hoje uso uma bicicleta e armazeno baterias e pilhas para encaminhar para uma coleta adequada”, pensa Moa. “Meu primeiro notebook foi feito dentro de uma mala. Hoje há uma ansiedade por novidade e tudo que é lançado em pouco tempo sai de moda, fazendo com que as pessoas comprem mais e mais”, acrescenta.
Em 2005, Moa participou do Trajetórias, programa idealizado pela Coordenadoria de Artes Plásticas da Fundação Joaquim Nabuco, com a instalação Brain Decoder Plus, uma máquina de ler pensamentos construída com peças achadas em ferro-velho. No ano passado, montou a performance Eu não mato meu rio na Ponte da Boa Vista, entregando adesivos em prol da saúde do Capibaribe, e participou da comemoração dos 100 anos do frevo com uma escultura também idealizada a partir de materiais usados.
O Tótem Obsoletechnológico criado por Moa com resíduos industriais e tecnológicos que catou pelas ruas ou mesmo comprou das pessoas. Foto: Juliana Leitão / DP / D.A. Press
Em Olinda — Moa não está sozinho nesse caminho de transformar lixo e outros refugos em arte. No ateliê de Paulo Carneiro, - nascido em Ribeirão, na Zona da Mata Sul, em 1950, mas um olindense de coração há quase três décadas -, embalagens de desodorantes, xampu e refrigerantes, caixas de leite, chaves, frascos de remédio, cuias de queijo e até mesmo palitos de fósforo já riscados também se transformam em arte. Ou melhor, em figuras humanas que simbolizam tipos regionais, como os retirantes, os animais e personagens do Carnaval de Olinda, no caso do Homem da Meia-Noite. “Desde criança fazia brinquedos com o que achava no lixo, tipo latas de refrigerantes, muito antes da conscientização que a reciclagem trouxe, de uns dez anos pra cá”, comenta o artista, um funcionário público aposentado.
Há cinco anos ele se dedica ao que chama de arte utilitária e reciclável, não sem responsabilidade: “Recebo lixo de escolas, indústrias e inclusive material não utilizado de hospitais, como seringas, luvas, tampas de remédios, e ainda brinquedos quebrados. Aqui faço uma triagem, separando os objetos. O que não for utilizado eu entrego para um catador de lixo, que vem aqui a cada quinzena. Ele acrescenta que “tudo o que for embalagem serve”. “Tá vendo aquela bonequinha ali? O corpo é de um barbeador”, diz, referindo-se a um item que custa R$ 20.
Na casa localizada em uma das ruas do Sítio Histórico, há itens que custam de R$ 7 (bonequinho composto de uma chave e tampa de garrafa pet) a R$ 200 (o presépio maior). Com a ajuda de sua mulher Deise, Paulo Carneiro cataloga os produtos à medida que recebe visita de compradores ou curiosos e continua recriando a noção coletiva do que realmente deve ser rotulado de lixo Na prática, ele e sua arte são uma manifestação daquela máxima em que nada se cria, tudo se reinventa, com mais alegria ainda quando se é erguido a partir das sobras da sociedade.
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