O lixo que sobra do consumismo
Vivemos a era do comprar, comprar, comprar. Bem mais do que precisamos. O planeta paga por esse excesso
Qual foi o acontecimento mais importante da sua vida? Pare e pense. A pergunta costuma vir acompanhada de respostas como o nascimento de um filho, o dia do casamento ou uma viagem. Às vezes, um momento basta. Mesmo quando a compra de um carro é citada, a lembrança se justifica pelos sentimentos que o ato desperta: liberdade, segurança. Sensações que perderam o significado e se misturaram com os verbos querer, comprar, ter. Diante da valorização dessas ações, o coração se cala. A alma se anula. Permite que as sociedades entrem no labirinto do consumo. Um caminho em que se acredita ser necessário querer mais do que se precisa.
Como chegamos a ser denominados de sociedade de consumo é uma longa história. Capitalismo, publicidade, individualismo… Em 2007, a população mundial utilizou 30% a mais de recursos naturais do que a natureza é capaz de repor. Isso significa que a “poupança” do planeta foi utilizada e a reserva não será capaz de cobrir os juros. Faltará água, terra, energia e alimento para atender aos padrões de produção e consumo dos países desenvolvidos e em desenvolvimento.
Os cálculos são da ONG internacional Global Footprint Network (GFN), que criou a Pegada Ecológica, usada para avaliar a quantidade de hectares necessária para sustentar o atual estilo de vida. Se esse ritmo continuar, serão necessários dois planetas terra em 2050. Previsão reforçada pela Organização das Nações Unidas (ONU) e pelo Worldwatch Institute. Ambos concluem que o consumismo é a principal ameaça à humanidade.
Os riscos vêm de um modelo que perpetua um estilo de vida, que deixa para trás um rastro de lixo. Do que existe de mais concreto das sobras da sociedade, gerando problemas de saúde e estruturais. Faz você querer mais. As conseqüências são trágicas. Reais em partes do mundo onde a população já sofre com secas, inundações e fome. Restam, segundo a GFN, menos de 42 anos para o consumidor mudar. Para buscar a resposta que palpita em cada um. Seguir os valores mais sinceros e perceber que, às vezes, “menos” é “mais”.

O menino mora em uma comunidade em Olinda e falta a aula quando chove. Foto: Jaqueline Maia / DP / D.A.Press |
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O sonho de Erick
“Ser dono de um caminhão de lixo”. Simples e surpreendente é o desejo de Erick Melo, 11 anos. Alguns “meninos” podem compreendê-lo pela aparente aventura, por assim dizer, que vivem os motoristas de um veículo tão imponente. Talvez, em algum momento, tenham até compartilhado a idéia. Mas a vontade desse pernambucano vai além. Seus planos são solidários. Ele quer ser responsável pela coleta do lixo para evitar que outras crianças da comunidade do Maclarem, em Olinda, continuem a ter as casas invadidas pelos resíduos quando chove. E, por isso, faltem à escola.
Com um sorriso sempre aberto, como se vivesse distante dessa realidade, Erick conta que o lixo despejado pelos moradores nas vielas e no mangue que corta a comunidade, em Rio Doce, retorna para as casas nos dias de maré alta ou chuva. “A água sobe e precisamos abrir valas. Senão é pior para a gente, vem doença como dengue e a do rato”, explica. Nos dias de “limpeza” e quando aparecem os sintomas de alguma doença, todos precisam ajudar e as aulas ficam para trás. No caderno, as poucas páginas preenchidas com a letra cuidadosa de quem aprendeu a escrever há um ano denunciam a freqüência com que isso acontece.
“Um aluno não pode faltar porque não tem coleta de lixo na comunidade. Isso acontece porque o problema ambiental não é visto como prioridade. Não é um problema isolado de educação ou de saúde”, defende a professora Rivani Nasario. Foi ela quem ensinou Erick a ler no ano passado, na 3ª série do ensino fundamental. Em sua sala, também passaram outros dos sete irmãos do garoto. Mas ele foi o mais dedicado. Incansável, a pedagoga continua: “A favela agride o meio ambiente, mas é pela ausência do governo. Seja em educação ou habitação e, em primeiro lugar, na coleta de lixo”, argumenta.
Os moradores sabem que o lixo não recebe o tratamento correto. Tentam resolver: tocam fogo, despejam na maré, levam para longe de casa. Ele insiste em voltar. “Por isso, quando tiver o meu caminhão, não vou deixar nada por aí”, assegura Erick, com a mesma segurança com que cita o dia em que aprendeu a ler e a contar como o mais importante da sua vida.
Afinal, é assim que negocia o pagamento pelo trabalho na feira do bairro e ajuda a sustentar a casa. Com o sorriso iluminando o rosto, ele se destaca e segue. Leva parte do sonho alcançado se a história dele servir de exemplo e fizer diferença.

De classe média alta, a jovem é consumista assumida, mas promete refletir. Foto: Jaqueline Maia / DP / D.A.Press |
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A fantasia de Marina
Marina Guimarães está em seu quinto celular, fez três viagens internacionais, tem no quarto um computador e um telefone. O histórico de bens poderia indicar uma adulta ou uma jovem “de sorte”. Marina tem 12 anos. Longe de ser vilã, ela é o retrato da sociedade de consumo representada por 17 milhões de brasileiros. Mas também vítima. São consumidores que aceleram o esgotamento das matérias-primas e a produção de lixo, revelando indiferença a problemas que já interferem no dia-a-dia: mudanças climáticas, aumento dos preços, alagamentos urbanos...
Aluna da 4ª série de um colégio particular de Boa Viagem, um dos bairros com maior concentração de renda do Recife, Marina já ouviu que o mundo enfrenta uma crise ambiental. Sabe a importância de economizar água e tratar o lixo, mas demonstra surpresa ao descobrir a relação entre os problemas do planeta e seus hábitos.
“Nunca pensei que andar de avião poluía ou no que acontece quando jogamos uma coisa fora”, conta.
O comportamento da adolescente não surpreende. As propagandas de um computador mais moderno e de uma roupa da moda não alertam sobre o impacto provocado pela produção e descarte desses bens. Um aparelho celular, por exemplo, é composto por materiais plásticos e tóxicos. As roupas são feitas com produtos químicos e, mesmo as de algodão, ocupam vários hectares de terra. A fabricação de ambos utiliza água, energia e outras matérias-primas.
A gerente de conteúdo do Instituto Akatu, Andréa Wolffenbuttel, acredita que o consumidor não faz essa relação por não se considerar parte do meio ambiente. “Toda ação humana usa o planeta e tem impacto sobre o solo, a água e os seres vivos. É preciso pensar na produção e minimizar os impactos, reduzindo o consumo e optando por materiais mais ecológicos”, defende.
Ela lembra que as mudanças ainda podem ser uma escolha. Em breve, serão obrigações, restrições. “No fundo, sabemos o que valorizamos e precisamos seguir isso. Às vezes, as pessoas desistem por desconhecer o impacto da ação individual”, destaca Andréa.
Marina pode dar o exemplo e começar ouvindo os conselhos do pai de que nem tudo é descartável. Assim, terá a certeza de que poderá vivenciar em outros passeios momentos tão marcantes como os registrados nas viagens que já fez.