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Galvez-Kovacic
Galvez-Kovacic mostra as janelas reaproveitadas da sua casa. Foto: Juliana Leitão / DP / D.A. Press

Os catadores de luxo
O exemplo de pessoas que levam o lixo deixado nas ruas para dentro de casa e ensinam o Brasil a combater o desperdício

Amsterdam, sábado, 15h. No descolado Albert Cuyp Market (uma feira livre gigantesca com mais de 200 anos), uma multidão está reunida para jogar conversa fora e recolher as sobras de legumes e frutas empilhadas, da maneira mais organizada possível, pelos vendedores. Universitários, profissionais liberais e artistas transformam esse excedente em feira semanal. Detalhe: não há necessidade de pagar nada para abastecer a despensa. Na Europa, sobretudo, e nos Estados Unidos, essa forma de ir à feira sem gastar um único centavo passou a ser conhecida como “freeganismo” - a mistura das palavras free (de graça) e vegan (uma corruptela de vegetariano). Os adeptos do movimento alimentam-se, vestem-se e decoram a casa com aquilo que encontram pelas ruas. Em bom estado, claro. Assim, conseguem exercer a política do consumo consciente e desacelarar a fúria por novidades que, a cada ano, colabora para jogar no planeta uma infinidade de objetos sem prazo para desintegrar.

No Brasil, 26 milhões de toneladas de comida são desperdiçadas por ano
Mas, de volta à Holanda, em meio à animada turma que enche as sacolas com as frutas que os ambulantes do Albert Cuyp não conseguiram vender está o professor universitário e sanitarista Cláudio Galvez-Kovacic, um croata-chileno (como se define) que, hoje, mora no Recife. “Nos fins-de-semana, sempre saía passeando pela rua do mercado com a minha bolsa de palha que uso há uns 20 anos para pegar os vegetais”, lembra. Ao seu lado, um exército de ambientalistas espera sua vez na fila carregando as eco-bags da moda, da marca Dirk (bolsas próprias para ir ao mercado, que dispensam o uso das sacolas de plástico).

Catadores - Ao contrário do que acontece no Brasil, ninguém aparenta qualquer vestígio de vergonha por catar o que iria para o lixo. “Há um orgulho por estar fazendo a coisa certa pelo meio ambiente. Desperdício, em alguns países europeus, é a violência causada à natureza. E duas grandes guerras diluíram o constrangimento de usar coisas já utilizadas por outras pessoas”, argumenta Cláudio. Toda a sua casa, no centro de Amsterdam, era montada com objetos de design e móveis achados nas ruas. “No Recife, só os muito pobres agem assim. Há algumas semanas, peguei uma estrurura de bar, colocada no lixo, diantedo meu prédio, e o porteiro ficou horrorizado”, conta, achando estranha a atitude do rapaz.

Para um estrangeiro é difícil entender como alguém pode fazer cara feia para a iniciativa de reciclagem. E mais ainda, para os números do desperdício em um país emergente como o Brasil. Enquanto a economia cresce por volta de 10% ao ano - um índice próximo ao Chinês - as donas-de-casa de Carpina, Mata Norte de Pernambuco, à Canela, na Serra Gaúcha, desperdiçam mais de 20% daquilo que pagam no supermercado. Segundo uma pesquisa recente da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). A contabilidade assusta: 26 milhões de toneladas de comida no lixo. Caso o mundo inteiro juntasse essas migalhas poderia alimentar duas vezes a população de famintos em todo o globo.




Moldura saiu do lixo para casa de Rejane.
Foto: Juliana Leitão / DP / D.A. Press
Eles aprenderam que tudo se transforma

No próximo fim de semana, a empresária Rejane Silva viaja para o sertão pernambucano. No baú de seu carro utilitário, ela leva um carga preciosa, reunida durante meses no depósito de seu restaurante. Vasilhas plásticas de cinco e dez litros. Originalmente, foram fabricadas para guardar molho de soja. Mas logo vão se transformar em reservatório para água potável de várias famílias.

Os seus funcionários também aprendem que é necessário dar valor àquilo que fica jogado nas ruas. Segundo o sanitarista Claúdio Galvez-Kovacic, a maneira mais eficaz de pôr em prática as idéias de preservação ambiental é treinar a família e os empregados domésticos para disseminar essa filosofia.

Desde a faxineira até o marceneiro que trabalham para ele, todos estão empenhados em não deixar de usar nada que pode ser reciclado. “Ricardo, que construiu as portas e recuperou as janelas originais da casa onde estou montando o Instituto Sois, lançou mão de todas as ripas e sobras que encontrávamos. O resultado ficou incrível”, adianta, mostrando as portas para as fotos.

Na casa em frente, de dentro do veículo, Rejane retira molduras de ar-condicionado que também estavam largadas no lixo de um prédio. “Basta pintar e instalar na minha casa”, avisa. O próprio carro é outro instrumento da sua consciência ambiental. A família e os amigos mais próximos podem usá-lo para que não fique parado no estacionamento o dia inteiro. “É impensável que apenas uma pessoa use um veículo onde cabem cinco. Poderíamos diminuir bastante a emissão de gases poluentes e o trânsito cada vez mais caótico do Recife”, observa Rejane.


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