Fotos: Juliana Leitão / DP / D.A. Press
Anticidadania 1 x 0 consciência
Os clubes de futebol e os seus torcedores perdem (e feio!) no jogo contra o lixo
Descartável era para ser apenas o copo plástico. Não a consciência e a responsabilidade. Postura dos torcedores e dirigentes do futebol pernambucano, despreocupados com o impacto ambiental provocado pelo lixo produzido e “administrado” por eles. A atitude é tão condenável que não há - por vergonha, muito provavelmente - como assumir o erro. Melhor transferir a culpa para a outra parte e deixar esquecidas soluções simples para reduzir os estragos.
A anticidadania praticada no futebol pernambucano fica expressa no momento pós-jogo. As marcas aparecem com o estádio vazio. Garrafas e copos plásticos, latas, embalagens de salgadinho, papel, pontas de cigarro, tudo depositado em grande quantidade em todos os setores do estádio, arquibancada, geral e cadeiras. A limpeza demora dois ou três dias e o resultado são quatro, cinco e até doze papa-metralhas cheias de lixo sem qualquer tratamento prévio que serão depositados nos aterros sanitários.
Devido à diversidade de materiais encontrados e a sua variação de peso, seria incoerente estimar em quilos - ou toneladas - a quantidade de entulho despejada pelos clubes de futebol nos aterros sanitários. A quantidade de papa-metralhas no ano, porém, é um indicativo da sujeira gerada nos estádios. Nos Aflitos, a média de lixo recolhido por partida é de cinco papa-metralhas. Neste ano, o Náutico já disputou 15 jogos e tem mais 17 pela frente em casa. São 32, que, no final, representarão 160 papa-metralhas. No Sport, a média é de oito por jogo. Como a equipe vai fazer 36 jogos na Ilha, a estimativa da quantidade de papa-metralhas retiradas é de 288.
A falta de perspectiva de mudança aumenta a gravidade do problema. Os torcedores entrevistados em dias de jogo garantem: jogam o lixo no chão porque não há coletores nos estádios, somente próximos aos bares. Nenhum deles, porém, cogitou a possibilidade de juntar o seu próprio lixo em sacolas e depositá-lo na saída do estádio (iniciativa bastante fomentada na Copa do Mundo da Coréia/Japão). Melhor responsabilizar a omissão do clube.
“Freqüento a Ilha do Retiro há mais de 15 anos e nunca vi lixeiras na arquibancada. Se tivesse, com certeza o volume de lixo iria diminuir. Não iria acabar, claro”, alega o contador rubro-negro Marcelo Rodrigo Santos, 27 anos. Há quem até ensaie dar o exemplo. “Eu me levanto e vou até os bares jogar a lata e o palito do espetinho. Mas antes do jogo. Depois do início, acabo jogando no chão. Não tem como”, destaca o empresário José Orlando Duarte, 50 anos. “Ajudaria muito se hovesse um local nas arquibancadas para jogar o lixo”, completa.
A versão encontra amparo em declarações dos responsáveis dos clubes, mas também há elementos que condenam a educação do torcedor. Gerente de logística do Náutico, Pedro Tibúrcio da Silva coordena a limpeza dos Aflitos há mais de 20 anos. Segundo ele, houve, nesse tempo, uma iniciativa para tratar o lixo produzido nas partidas.
“O clube fez uma parceria com uma empresa de reciclagem. Foram disponibilizados tonéis nos corredores do estádio para que o torcedor colocasse todo o lixo reciclável. A parceria durou apenas seis jogos. A empresa desistiu porque ninguém utilizava os tonéis”, afirma. A falta de divulgação da campanha também contribuiu para o fracasso.
No Sport, onde chegam a ser recolhido até dez papa-metralhas após um jogo, a situação é semelhante. O bom exemplo até existe. De acordo com o vice-presidente de patrimônio do clube, Otávio Coutinho, há um convênio com uma empresa para o aproveitamento das latas. “Nós temos compradores permanentes”, assegura. A boa atitude, no entanto, acaba sendo “jogada no lixo” logo em seguida, numa frase que sintetiza bem como é encarada a questão. Ao ser perguntado sobre o restante do material que é recolhido por uma empresa especializada e lançado no aterro sanitário, o dirigente responde sem qualquer constrangimento: “Aí não é mais problema nosso”.
Hora de escalar os catadores
Junto com o copo descartável e outros artigos, torcedores e dirigentes do futebol estadual despejam no lixo também a oportunidade de promover a inclusão social. Entre as soluções para o problema, a mais viável é a realização de parcerias com associações de catadores de lixo. Além de reduzir a quantidade de entulho que sai dos estádios para ser despejada nos aterros sanitários, eles estariam gerando oportunidades de trabalho.
A receita não é inédita e é até utilizada em outros setores. Além de diminuir o impacto ambiental, pouparia alguns trocados para os clubes. “Existe até a compensação financeira. O clube não iria gastar nem 20% do que gasta hoje para limpar o estádio”, destaca o presidente da Associação Meio-Ambiente Preservar e Educar (Amape), Sérgio Nascimento.
Ele tem argumentos também para os casos em que o clube consegue lucrar com o lixo comercializando as latas. “Essa quantia é ínfima e nada representa para os times. Para os catadores, porém, o lixo significa muito. É uma oportunidade de renda. Além disso, seria um grande exemplo que o clube estaria dando para a sociedade, já que é uma importante entidade formadora de opinião. Isso poderia motivar até os torcedores a realizar a coleta seletiva em casa”, afirma.
Catadores - Existe no Brasil aproximadamente um milhão de pessoas que sobrevivem do lixo. Em Pernambuco, são oito mil catadores, sendo a maioria, cinco mil, concentrada na Região Metropolitana do Recife.