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Tatsumi Ide tem produção de inhame em bonito e vive próximo a dois dos seus filhos, Eiko e Masatoshi e do cunhado Paulo Kaneko. Fotos: Juliana Leitão/DP/D.A Press

Vidas separadas

A vida dos imigrantes foi de muitas despedidas. Com Tatsumi Ide, da colônia de Bonito, também. Primeiro, ele deixou parte da família em Kobe e depois foi a vez de dar adeus aos filhos, que também foram buscar os seus destinos

Bonito - Encarar novos desafios para ir em busca dos seus sonhos, às vezes, implica uma série de renúncias. Foi assim com boa parte das famílias japonesas que chegaram ao Brasil. Muitas tiveram que deixar uma parte de sua vida no país de origem. Um pedaço de sua cultura, de suas raízes e até mesmo várias pessoas queridas.

Foi o que aconteceu com Tatsumi Ide, hoje com 78 anos, e há 47 vivendo na colônia japonesa de Rio Bonito. Ele veio ao Brasil com a esposa Tokie, com quatro filhos ainda crianças – Eiko, Shoko, Yuko e Masatoshi, além de dois sobrinhos. Todos vieram seguindo o desejo de Tatsumi, que queria conhecer o país que se divulgava àquela época no Japão e trabalhar na agricultura.

“Procurei um encarregado de imigração e me mostraram o mapa do Brasil. Inicialmente, meus planos eram de ir a São Paulo. Mas me falaram que já tinha muita gente no local e me apresentaram o município de Bonito”, conta ele. A escolha pela colônia no interior de Pernambuco foi simples: “gostei do nome e do rio que tinha na cidade”, recorda. De quebra, ainda conseguiria terra para trabalhar e casa para morar com a família. Era tudo que precisava para realizar seu sonho.

Quarenta e cinco dias a bordo do America Maru, a família aporta no Recife. E apesar da vontade de chegar aqui, o choque cultural foi inevitável. “Era mês de carnaval e nós não sabíamos. Quando entramos no ônibus, víamos as pessoas fantasiadas, fazendo barulho, jogando confete. Eu pensei comigo, ‘meu Deus, eu vou viver com este povo doido?’”, recorda Eiko, que à época tinha 12 anos.

A chegada a Bonito também não foi diferente. O acesso à colônia era difícil, com muito mato. No lote que o Instituto Nacional de Imigração e Colonização (Inic) prometera, havia uma casa de taipa, pequena e com o barro ainda escorrendo pelas paredes. Não tinha energia elétrica, água encanada e o banheiro ficava a alguns metros de distância da residência. “Minha esposa chorava todo dia. Eu e outros imigrantes ainda tentamos ir à sede do Inic reclamar, mas como era distante, muita gente acabou desistindo”, diz.

Aos poucos, eles foram dando o seu jeitinho. Adaptaram um tonel com tampo de madeira para fazer uma espécie de ofurô à brasileira. Enquanto isso, iam vivendo sem luxos. Longe de um futuro promissor que esperavam quando vieram do Japão. Os seus primeiros plantios não foram bem-sucedidos. Vendeu rabanete, repolho e tomate que não eram bem aceitos pelos moradores da região. Em casa, a principal refeição dos pais e crianças era sardinha com farinha.

Tatsumi demorou para acertar, mas em 1967 começou a apostar na produção do inhame. Diz ele que foi o primeiro a plantar este produto na região e vendia sua produção na Ceasa. Foi aí que começou a ajeitar a sua casa. Ele mesmo, com a ajuda de outras pessoas da região, colocou a mão na massa. Consertou o telhado e fez até a instalação elétrica quando a energia começou a chegar à região.

Rumos – E assim a família Ide foi se adaptando ao local. Sua esposa Tokie já nem pedia mais para retornar ao Japão. Tinha se acostumado com o ar de Bonito. Mas a família tinha crescido. Nasceram, no Brasil, mais três filhos: Naomi, Hiromi e Kiyomi e à medida que foram crescendo, iam buscando destinos diferentes. Alguns longe de Bonito e outros de volta à terra que ele havia deixado para trás.

Hoje, viúvo, Tatsumi vive próximo aos filhos Eiko, 53 anos, e Masatoshi, 48 na colônia de Bonito. Naomi, 46, e Shoko vivem no Recife. Kiyomi,45, e Hiromi,43, em Londrina e Uberlândia, respectivamente. Já Yuko, 49, em Tóquio, no Japão. “Gostaria de juntar a família toda novamente, mas sei que hoje é muito difícil”, diz. “Eu fui atrás do que queria e também tive que deixar parte da minha família para trás. Minha mãe ficou chorando quando eu parti. Então, não posso pedir para que os meus filhos façam diferente”, pondera. Mas mesmo com a distância, poucas vezes a família toda ainda se encontra. “No ano-novo, esta casa fica pequena quando nos reunimos”, diz ele, com um sorriso saudoso no rosto. Mas no coração e na memória de todos eles, existe muito de Brasil, de Japão e, é claro, da colônia do Rio Bonito, onde todos viveram juntos e aprenderam a se adaptar neste mundo novo.

O retorno para casa


Yuko guarda as recordações do tempo em que todos viveram juntos em bonito.
Foto: Tatiana Sotero/DP/D.A. Press
Tóquio - No outro lado do mundo, na terra do sol nascente, vive Yuko Akimoto, 49 anos. Filha do “seu” Tatsumi Ide da Colônia de Rio Bonito. Ela veio ao Brasil com apenas dois anos e viveu aqui até os 28. Mas como a maioria dos descendentes, foi percebendo que as condições de vida aqui eram diferentes. “Comecei a trabalhar em um banco, mas o dinheiro que ganhava era muito pouco”, recorda.

Foi quando, no final da década de 80, soube que o Japão estava abrindo as portas e oferecendo oportunidade de empregos para os japoneses que viviam no Brasil e seus descendentes. “Alguns amigos me falavam que era possível trabalhar lá, juntar dinheiro e voltar para o Brasil”, diz. E, por esta razão, ela resolveu fazer o caminho de volta ao seu país de origem.

Já foi ao Japão com emprego garantido em uma fábrica de peças de automóveis. Também passou a viver em um alojamento oferecido pela própria empresa. “Apesar de estar voltando para o lugar que nasci, aqui era diferente do que eu estava acostumada. Para mim, o mundo era Bonito”, diz ela, que se impressionou com a limpeza das ruas e a ausência de pedintes, o que naquela época já era bem comum no Brasil.

Mas os seus planos eram retornar ao encontro do pai e dos dois filhos Hideo e Kaori, hoje com 24 e 22 anos, respectivamente. Mas nem tudo aconteceu como planejado. Yuko se casou com Kasuo Akimoto, 59 anos e levou os filhos ao Japão. “Mas não abri mão de voltar ao Brasil. Quando o meu marido se aposentar, quero voltar para lá”, diz ela. Saudades? Ela tem muitas. “Gosto do Japão, mas acho que o meu coração é brasileiro”, afirma. E também sente falta do convívio com os irmãos e da presença do pai. “Queria puder estar ao lado dele e fazer a comidinha japonesa de que ele gosta. Também gostaria de ajudar as minhas irmãs a cuidar dele”, diz emocionada.

Infância – Para Yuko, Bonito é sempre uma recordação saudosa. Ela lembra das dificuldades que teve para se adaptar à nova terra. Como a família falava japonês, acabou sendo este também o seu primeiro idioma. Mas à medida que foi crescendo, teve a necessidade de se comunicar com outras pessoas da região. “Eu brincava com as outras crianças, mas não falávamos nada. Somente brincávamos”, lembra.

Nas primeiras idas à escola, a diferença da língua passou a ser o seu maior problema. Chegou a ficar vários dias de castigo, até o final da tarde, porque não conseguia ler a lição em português. “Eu ficava chorando muito e me dava um pânico na cabeça. Pensava que eu nunca iria conseguir aprender esse idioma”, lembra. Mas conseguiu transpor mais está barreira quando chegou à segunda série do ensino fundamental.

Foi lá em Bonito que ganhou o prêmio da mais bela Cenecista, concurso de beleza da escola CNC de Bonito, onde estudava aos 14 anos. Guarda com carinho a foto do desfile, na cidade onde cresceu, viveu e que fará sempre parte de sua memória e da sua história.


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