Shukuko faz 1 mil tsurus por ano e entrega aos vizinhos com a ressalva de não rasgá-los e nem jogá-los fora. Fotos: Juliana Leitão/DP/D.A Press
Paz em forma de origami
Shukuko Morimura
espalha a tradição de seu país de origem através das dobraduras de papel, que transmitem desejos positivos para as pessoas do município de Bonito
Mesmo vivendo em um país tão distante há 52 anos, a dona-de-casa Shukuko Morimura, 90 anos, mantém acesa a tradição de suas raízes e, sem perceber, ajuda a transmitir um pouquinho da cultura oriental para os brasileiros que vivem com ela. Residente em Bonito, interior pernambucano, há cinco anos, entre junho e dezembro, ela se dedica à confecção de 1 mil pássaros em origami, chamados de tsuru ou grow.
A tradição tem uma razão especial de ser para os japoneses. “Este é o pássaro da felicidade. Temos o costume de fazê-lo para desejar sorte, paz, saúde e muitas coisas boas para as pessoas e nossa família”, explica Shukuko, que com toda prática e habilidade prepara em questão de segundos os origamis feitos em papéis coloridos.
Ela confecciona entre 20 e 30 grows por dia. “Enquanto produzo, vou fazendo um pensamento positivo para que se tenha paz no mundo e proteção na terra contra os terremotos”, conta ela. E Shukuko acredita que sejam os seus grows também os responsáveis pela sua saúde, da sua família e pela energia que tem até hoje.
Em sua casa, podem se ver vários deles enfileirados por uma corda e preso em vários cabides. Assim que as mil unidades são confeccionadas, ela passa a entregar às pessoas da região. Podem ser usados para enfeitar palhoças ou simplesmente deixar em casa. Quem sempre recebe já entende um pouco desta tradição e os desejos positivos que os pássaros em dobraduras de papel querem transmitir. “Só não podem ser rasgados e nem jogados fora”, faz a ressalva Shukuko.
Chegada - Mesmo com o coração japonês, é aqui no Brasil, no município de Bonito, onde Shukuko pretende continuar vivendo. Afinal, foi nesse país onde construiu a sua história e criou os seus três filhos Kasuko, Masakatsu e Masataka. Ela chegou ao interior pernambucano em 1966, depois de ter passado 10 anos na colônia japonesa do Rio Grande do Norte.
Veio ao estado com o saudoso marido Shoji Morimura e os três filhos. “Viemos para um lote na colônia de Rio Bonito. Assim que chegamos lá, a casa não tinha nada. Faltava água encanada e até energia elétrica”, conta ela. “Lembro que na primeira noite tivemos que dormir em cima das malas”, completa. A moradia foi sendo construída aos poucos pelo próprio marido e ambos passaram a se dedicar à agricultura. Ela conta orgulhosa que foi uma das primeiras a produzir o melão no Nordeste e em Bonito (hoje conhecido como melão japonês). Mas revela que a identidade da fruta é mais norte-americana do que japonesa. “Ao paramos no Porto de Los Angeles, quando estávamos vindo ao Brasil, comemos o melão. Então, trouxemos as sementes para plantar aqui”, recorda.
Em Bonito, ainda vivem próximos a ela a sua filha Kasuko, hoje com 60 anos e Masakatsu Morimura, com 67. Masataka, 65, vive no país nipônico e Roberto, 50, que nasceu no Brasil, no Recife. “Acho muito bonita a paisagem do Japão, mas quero viver aqui. Eu gosto do clima, das pessoas... Enfim, eu adoro o Brasil!!”, conclui.
Japonês à moda
de Bonito

Akemi (acima) e Alcione aprendem o idioma para um dia viver no japão, terra do seu avô e pai, respectivamente. |
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Eles partiram da mesma cidade do Japão com destino ao Brasil. Mais precisamente de Nagano para o município de Bonito, a 136 quilômetros do Recife. Eram noivos, mas tinham objetivos diferentes quando toparam a aventura de viajar em alto-mar. Tadatsune Satô, hoje com 73 anos, passava dificuldades financeiras após o seu país ter sido derrotado na Segunda Guerra Mundial. Tampouco via oportunidades de emprego no Japão. E por isso mesmo, aceitou a proposta do Instituto Nacional de Imigração e Colonização (Inic) de trabalhar no interior pernambucano em 1961, quando tinha 26 anos.
Já Keiko Satô, hoje aos 67, veio acompanhada da família. “Meu pai, Ruki Fujiwara, sempre quis morar em outro país. Naquela época, tinha um amigo que já estava em Bonito e dizia que aqui era um lugar bom. Então, resolvemos fazer esta aventura”, recorda ela, que quando chegou ao Brasil, tinha 19 anos. Ambos vieram a bordo do navio America Maru, juntamente com outras 458 pessoas que seguiriam rumos diferentes. “Alguns iriam descer no Rio de Janeiro, São Paulo e outros em Buenos Aires”, recorda.
Quarenta e dois dias após, eles chegam ao Porto do Recife, de onde seguiriam de ônibus até a colônia do Rio Bonito. A comunicação deveria ser a mínima possível já que ambos tinham quase nenhum conhecimento de português. “Quando precisava me comunicar, usava gestos, apontava e cumprimentava as pessoas com a cabeça. Isso é igual em todo lugar do mundo”, brinca Tadatsune.
Já ela estranhou o costume dos moradores de Bonito. Nas ruas, encontrava pessoas descalças e, até mesmo, algumas sem roupa. “Mas nós também causamos estranheza para eles. Eu usava calça jeans e as mulheres daqui, naquela época, não tinham esse costume. Então, sempre me olhavam pelas ruas. Às vezes paravam e ficavam apontando para mim”, recorda. As sandálias que calçavam também foram um sucesso à parte. Os imigrantes usavam calçados de borracha, estilo havaiana, e por vezes recebiam propostas nas ruas para vendê-los.
Foi só após um ano de ter chegado à colônia que Tadatsune e Keiko se casaram. Eles contam orgulhosos que realizaram as primeiras bodas na colônia. Ela de quimono e ele de paletó, seguindo a tradição do país de origem. O casal teve a cerimônia prestigiada por curiosos e até pela televisão, que transmitiu a união dos imigrantes japoneses.
Desde então, mudaram-se para um lote maior, de número 16, onde vivem até hoje. Foi lá onde aprenderam juntos a lidar com as adversidades encontradas no mundo novo. “Aprendemos o português com algumas pessoas da região. Por isso, falamos com sotaque caipira”, brinca Keiko.
Plantio – Com as cinco famílias japonesas que viviam no local, Keiko e Tadatsune aprenderam a plantar tomate, melancia e cenoura, que eram vendidos na capital pernambucana. Também se dedicaram ao cultivo de pepino, berinjela e melão amarelo. Mas os produtos eram pouco comercializados entre os recifenses, que não tinham o hábito de consumir tais alimentos. Chegaram a passar dificuldades financeiras, já que parte de sua produção ia para o lixo.
Ao mesmo tempo, a família começava a crescer. Tiveram dois filhos, uma garota Yukari e o menino Takuya, e precisavam garantir uma vida boa para eles. “Além disso, quando as crianças adoeciam, tínhamos dificuldade de explicar ao médico o que elas sentiam”, conta Keiko. “Nesse momento, pensamos em voltar ao Japão, mas é ruim para o agricultor mudar de terra e uma característica dos japoneses é persistir”, revela. Foi quando o casal resolveu apostar na floricultura há 15 anos. Na época, Keiko acredita que apenas 20 famílias em Pernambuco trabalhavam com esse plantio. Mas, aos poucos, a concorrência foi aumentando e diminuindo os lucros do casal.
Hoje, eles se dedicam à produção de gipsofilas e fazem parte de uma cooperativa que vende as plantas para o Recife, Maceió e Natal. Eles contam com apoio de três funcionários que trabalham no fundo de sua casa juntamente com o casal, que até hoje aduba, arranca o mato e colhe as gipsofilas. “Não temos os mesmos lucros, mas não pensamos em voltar ao Japão”, diz Tadatsune. É o mesmo que pensa sua esposa: “O clima daqui é melhor, já estamos adaptados”, conta ela, que lamenta apenas a violência na região.
Nas horas vagas, aproveita para escrever poesias. Apesar de ser nos ideogramas japoneses, o pano de fundo é o Brasil, sobre a sua história de vida e os acontecimentos que vê pela televisão. Justamente nesse Brasil que ela escolheu para ser a sua segunda pátria. Hoje, o filho do casal, Takuya tem 40 anos e vive no Recife. Já a filha Yukari faleceu em um acidente de carro há 10 anos.