Alberto conta com orgulho a história do bisavô Naoe (abaixo), um dos primeiros a chegar ao brasil.
Foto: Teresa Maia/DP/D.A Press
Lembrança para as novas gerações
O que os descendentes têm em comum é a paixão pela cultura oriental e a vontade de preservá-la. É assim com Alberto Sonoda, bisneto de imigrante vindo no Kasato Maru

Reprodução: Teresa Maia/DP/D.A Press |
 |
A ascendência japonesa lhe deu características peculiares: olhos puxados, negros e cabelo igualmente escuro. Mas a herança principal para ele foi a admiração pela cultura e história do país onde nasceram os seus ancestrais. “Não houve um motivo certo para começar a me interessar pelo Japão, acho que estava no meu sangue mesmo”, diz Alberto Sonoda, 21 anos, bisneto de imigrante. Ele lembra que pelo menos desde os 10, passou a pesquisar sobre a história, cultura e língua do Japão, além de - como não poderia deixar de ser - sobre a vida do seu bisavô Naoe Sonoda.
Ele conta orgulhoso que Naoe veio ao país no Kasato Maru, o primeiro a aportar em Santos. Ele guarda com carinho, o documento que comprova o ano de chegada do seu bisavô, bem como as fotos da época. Alberto lembra que a cada 10 anos, Naoe era homenageado nos aniversários da imigração, onde tinha a oportunidade de falar sobre a sua vida. Depois que faleceu, em 1986, aos 96 anos, coube ao bisneto a tarefa de preservar a história da família e repassá-la para as novas gerações. “É um pouco da história do Brasil também”, avalia.
Há dois anos, Alberto conheceu a Associação Cultural Japonesa do Recife e teve a oportunidade de aprender, ainda mais, sobre os costumes do país que passou a admirar. “Quando conheci pessoas iguais a mim, com os olhos puxados e que tinham a mesma afinidade com a cultura japonesa, foi uma satisfação muito grande! Senti-me como uma criança que espera o ano inteiro pelo presente de natal. Só que no meu caso, eu havia esperado por isso a vida inteira”, lembra.
Hoje, ele faz parte do seinenkai (grupo de jovens da comunidade japonesa), aprende a tocar o wadaiko e dança o yosakoi-soran, típicos do Japão (veja página 8). Também pratica karatê e planeja, no próximo semestre, estudar o idioma. O motivo? “Quero morar lá, trabalhar e constituir família”, diz ele, que quer também colocar o filho Scaro, três anos, para estudar o idioma em 2009. Enquanto o sonho de ir à terra do sol nascente nãoconcretiza, ele vai vivendo a cultura oriental à brasileira. Junto com outros jovens que passaram a valorizar tanto quanto ele as raízes de seus ancestrais.
Destino em Pernambuco
Toshio diz que centenário vai estreitar a relação entre os dois países.
Foto: Júlio Jacobina/DP/D.A Press
Inicialmente, os japoneses que chegaram ao estado tinham como principal atividade a agricultura. Viviam nos campos e, aos poucos, foram introduzindo suas técnicas e novos hábitos alimentares no estado através dos seus plantios. Mas, com o tempo, os japoneses e seus descendentes foram se diversificando. Hoje, vivem em Pernambuco aproximadamente 1,3 mil nipo-brasileiros. A grande maioria, cerca de 200 famílias, na capital, onde estão espalhadas nos mais diversos setores econômicas. São, por exemplo, médicos, empresários, professores e economistas.
Já no interior de Pernambuco, até hoje, algumas famílias ainda se dedicam ao campo. As duas principais colônias de japoneses do estado ficam em Bonito e Petrolina com cerca de 20 famílias cada, segundo o Consulado Geral do Japão no Recife. Na primeira, as suas principais produções são o inhame e as flores, como os crisântemos e as gipsofilas. Há, ainda, a produção da alface americana na propriedade de Masakatsu Morimura, que hoje é exportada para as 52 McDonald´s do Nordeste. “Como japonês, sinto-me na obrigação de contribuir para o desenvolvimento da região”, diz ele, que também trabalha com a produção de inhame e banana comprida.
Já em Petrolina, cuja ocupação se deu no final da década de 50 por japoneses e descendentes que viviam em outras cidades brasileiras, o principal cultivo é de frutas. Principalmente, uvas e mangas. As primeiras abastecem os mercados do Sudeste e europeu. Já as uvas, cerca de 90% são para exportação, também à Europa, segundo o vice-presidente da Associação Cultural e Esportiva do Médio São Francisco (Acenibra), Mauro Ishibashi. Em Petrolina, a empresa Niagro de sucos industrializados também contribui para o desenvolvimento econômico da região.
O cônsul geral do Japão no Recife, Toshio Watanabe, acredita que com a comemoração do centenário, será possível estreitar ainda mais a relação entre os dois países. “Já existem várias empresas japonesas querendo investir no Brasil e agora é um bom momento para intensificar esses negócios”, afirma. “Pensamos que o centenário será algo duradouro. Um futuro que começa agora”, completa.
Watanabe destaca, ainda, que esta será uma oportunidade também de a comunidade japonesa expressar o seu agradecimento com os brasileiros. “Fomos muito bem recebidos por esta sociedade. Além disso, o Brasil tem a maior colônia de japoneses fora do Japão e, por isso, ela é considerada um patrimônio para nós”, frisa. No país, a maior comunidade nipônica vive em São Paulo, com mais de 1 milhão de pessoas.