De Kobe a Pernambuco
O município de Bonito foi o único do estado a receber os imigrantes vindos direto do Japão para trabalhar em terras, na época, inexploradas

Cartaz divulgado na época que dizia: “vamos para a América do Sul
com toda família”.
Foto: Teresa Maia /DP/D.A Press |
 |
Ainda são poucos os estudos que narram a chegada dos imigrantes no Nordeste. Em alguns livros, fala-se que a vinda deles se deu mais no pós-guerra (de 1945 em diante), a maioria saindo de outras cidades brasileiras. No Recife, um dos primeiros japoneses que chegaram aqui, ainda que informalmente, foi Asanosuke Gemba e o filho Matsuichi, em 1918, ambos saídos do Peru. Aqui chegando, passaram a se dedicar a plantação de verduras no bairro do Cordeiro.
Mas o grande reconhecimento da família se deu quando Matsuichi e o outro irmão Heiji, que chegou do Japão em 1925, decidiram abrir uma sorveteria na capital pernambucana, a Sorveteria Gemba, a primeira do Nordeste em 1932. Além do sucesso entre os pernambucanos, os sorvetes de frutas tropicias também atraíam os novos imigrantes. “A partir de meados da década de 30, aumentou o número de japoneses no Recife, os quais iam pedir conselho a Heiji, que não lhes poupava auxílios. Ele ficou sendo, sem propósito, o representante deles”, narra o livro Pré-história da Imigração Japonesa em Pernambuco, de Shiro Kurematsu.
Bonito foi o único município de Pernambuco a receber os imigrantes vindos do Japão. Mais precisamente em 1958, no pós-guerra. Eles foram trazidos através de um projeto do Instituto Nacional de Imigração e Colonização (Inic) para trabalhar em terras ainda inexploradas na região. O trabalho e a mão-de-obra estrangeira seriam destinados a abastecer os mercados do Recife. As primeiras famílias foram divididas em lotes, que variavam de 12,5 a 25 hectares, de acordo com a capacidade produtiva de cada uma delas. Ao todo, eram 42 unidades, distribuídas entre brasileiros e imigrantes. “Pretendia-se usar a experiência dos colonos japoneses na agricultura e difundir entre as pessoas que moravam na região”, recorda Amaro Montenegro, engenheiro agrônomo aposentado e que, na época, foi responsável pela assistência técnica fornecida pelo Inic aos primeiros colonos. Em troca disso, diz Amaro, os imigrantes recebiam a assistência técnica e médica fornecida pelo órgão.
Na área, até hoje conhecida como colônia dos japoneses de Rio Bonito, as condições eram precárias. O acesso às terras onde os imigrantes trabalhariam era feito através de cavalo. O historiador Flávio Cabral conta que tampouco havia energia elétrica no local. “A cidade era abastecida à noite por um gerador, mas não chegava até a colônia”, diz. O fornecimento de energia só veio contemplar toda a cidade no final da década de 60.
Mesmo com as dificuldades, eles conquistaram espaço. Cabral destaca que a principal atividade econômica da região era a produção de café e fruticultura. Com os imigrantes, os plantios diversificaram. Eles se dedicavam, principalmente, a policultura, com plantações de tomate, beterraba, couve-flor e, posteriormente, a floricultura. Para escoar a produção, organizaram-se em cooperativas e passaram a vender os produtos no Cais de Santa Rita. “No início da década de 60, enchiam entre sete e dez caminhões nos dois dias que partiam para o Recife”, lembra Amaro. Hoje, o principal cultivo da colônia é o inhame, mas ainda há produção de banana, goiaba, melancia e legumes.
Histórias partilhadas
Tadatsune e Keiko se dedicam ao trabalho no campo desde quando chegaram ao município de bonito, há 47 anos.
Foto: Juliana Leitão/DP/D.A Press
Eles partiram da mesma cidade do Japão com destino ao Brasil. Mais precisamente de Nagano para o município de Bonito, a 136 quilômetros do Recife. Eram noivos, mas tinham objetivos diferentes quando toparam a aventura de viajar em alto-mar. Tadatsune Satô, hoje com 73 anos, passava dificuldades financeiras após o seu país ter sido derrotado na Segunda Guerra Mundial. Tampouco via oportunidades de emprego no Japão. E por isso mesmo, aceitou a proposta do Instituto Nacional de Imigração e Colonização (Inic) de trabalhar no interior pernambucano em 1961, quando tinha 26 anos.
Já Keiko Satô, hoje aos 67, veio acompanhada da família. “Meu pai, Ruki Fujiwara, sempre quis morar em outro país. Naquela época, tinha um amigo que já estava em Bonito e dizia que aqui era um lugar bom. Então, resolvemos fazer esta aventura”, recorda ela, que quando chegou ao Brasil, tinha 19 anos. Ambos vieram a bordo do navio America Maru, juntamente com outras 458 pessoas que seguiriam rumos diferentes. “Alguns iriam descer no Rio de Janeiro, São Paulo e outros em Buenos Aires”, recorda.
Quarenta e dois dias após, eles chegam ao Porto do Recife, de onde seguiriam de ônibus até a colônia do Rio Bonito. A comunicação deveria ser a mínima possível já que ambos tinham quase nenhum conhecimento de português. “Quando precisava me comunicar, usava gestos, apontava e cumprimentava as pessoas com a cabeça. Isso é igual em todo lugar do mundo”, brinca Tadatsune.
Já ela estranhou o costume dos moradores de Bonito. Nas ruas, encontrava pessoas descalças e, até mesmo, algumas sem roupa. “Mas nós também causamos estranheza para eles. Eu usava calça jeans e as mulheres daqui, naquela época, não tinham esse costume. Então, sempre me olhavam pelas ruas. Às vezes paravam e ficavam apontando para mim”, recorda. As sandálias que calçavam também foram um sucesso à parte. Os imigrantes usavam calçados de borracha, estilo havaiana, e por vezes recebiam propostas nas ruas para vendê-los.
Foi só após um ano de ter chegado à colônia que Tadatsune e Keiko se casaram. Eles contam orgulhosos que realizaram as primeiras bodas na colônia. Ela de quimono e ele de paletó, seguindo a tradição do país de origem. O casal teve a cerimônia prestigiada por curiosos e até pela televisão, que transmitiu a união dos imigrantes japoneses.
Desde então, mudaram-se para um lote maior, de número 16, onde vivem até hoje. Foi lá onde aprenderam juntos a lidar com as adversidades encontradas no mundo novo. “Aprendemos o português com algumas pessoas da região. Por isso, falamos com sotaque caipira”, brinca Keiko.
Plantio – Com as cinco famílias japonesas que viviam no local, Keiko e Tadatsune aprenderam a plantar tomate, melancia e cenoura, que eram vendidos na capital pernambucana. Também se dedicaram ao cultivo de pepino, berinjela e melão amarelo. Mas os produtos eram pouco comercializados entre os recifenses, que não tinham o hábito de consumir tais alimentos. Chegaram a passar dificuldades financeiras, já que parte de sua produção ia para o lixo.
Ao mesmo tempo, a família começava a crescer. Tiveram dois filhos, uma garota Yukari e o menino Takuya, e precisavam garantir uma vida boa para eles. “Além disso, quando as crianças adoeciam, tínhamos dificuldade de explicar ao médico o que elas sentiam”, conta Keiko. “Nesse momento, pensamos em voltar ao Japão, mas é ruim para o agricultor mudar de terra e uma característica dos japoneses é persistir”, revela. Foi quando o casal resolveu apostar na floricultura há 15 anos. Na época, Keiko acredita que apenas 20 famílias em Pernambuco trabalhavam com esse plantio. Mas, aos poucos, a concorrência foi aumentando e diminuindo os lucros do casal.
Hoje, eles se dedicam à produção de gipsofilas e fazem parte de uma cooperativa que vende as plantas para o Recife, Maceió e Natal. Eles contam com apoio de três funcionários que trabalham no fundo de sua casa juntamente com o casal, que até hoje aduba, arranca o mato e colhe as gipsofilas. “Não temos os mesmos lucros, mas não pensamos em voltar ao Japão”, diz Tadatsune. É o mesmo que pensa sua esposa: “O clima daqui é melhor, já estamos adaptados”, conta ela, que lamenta apenas a violência na região.
Nas horas vagas, aproveita para escrever poesias. Apesar de ser nos ideogramas japoneses, o pano de fundo é o Brasil, sobre a sua história de vida e os acontecimentos que vê pela televisão. Justamente nesse Brasil que ela escolheu para ser a sua segunda pátria. Hoje, o filho do casal, Takuya tem 40 anos e vive no Recife. Já a filha Yukari faleceu em um acidente de carro há 10 anos.