Associação Cultural Japonesa mantém grupos de jogos e danças orientais no Curado, bem pertinho dos brasileiros
Do início da imigração até hoje, já se passaram 100 anos. Mas mesmo com todo esse tempo, a cultura japonesa permanece viva no Brasil e também em Pernambuco. Seja através das suas danças, jogos e músicas, como também do idioma nipônico. Por esta razão, mesmo quem nunca esteve no Japão, pode se sentir um pouquinho na terra do sol nascente ao visitar a Associação Cultural Japonesa do Recife que funciona próximo ao Terminal Integrado de Passageiros (TIP), no bairro do Curado.
Hino nacional do Japão apresentado pelo coral Haru da comunidade
japonesa e simpatizantes da cultura oriental. Imagens: Tatiana Sotero/DP/D.A Press
A entidade em si já existe desde a década de 70, mas há três anos funciona nas novas instalações. “Todas as associações que existem no Brasil foram criadas com o intuito de aumentar a integração dos imigrantes através da preservação da cultura”, explica o secretário administrativo da entidade, o nikei Frederico Yuji Ojima, de 28 anos. Ao todo, 130 famílias, incluindo japoneses e descendentes, são membros da associação, que realiza cursos de origami, língua japonesa, corte e costura, entre outras atividades. Conheça algumas delas:
Gateball
Akira conheceu o gateball no recife e hoje já conta até com título de campeão estadual no esporte
Foto: Teresa Maia /DP/D.A Press
Este é uma adaptação do golfe norte-americano, mas foi criado pelos japoneses após a Segunda Guerra Mundial. É um jogo de estratégias e atrai participantes idosos, já que não precisa de grande esforço físico, mas sim concentração e habilidade com o taco. O Gateball se realiza em uma quadra de saibro onde são espalhados três gates (barreiras) e um pino principal. As duas equipes adversárias, cada uma formada por cinco atletas, precisa acumular pontos passando a bola por esses obstáculos. Sempre que possível, é claro, tentando atrapalhar a jogada da equipe adversária, como por exemplo, tirando da quadra a bola do jogador rival.
Na associação, pelo menos 30 pessoas são freqüentadoras assíduas do gateball. Dois deles, a propósito, são apontados pelo grupo como os melhores competidores do jogo: o técnico industrial Akira Iyoda, 60 anos e a aposentada Tomiko Matsumoto. Apesar de terem nascido no Japão, ambos se familiarizaram com o esporte apenas no Recife e já “carregam” no currículo o título de campeões estaduais.
O que os atletas têm em comum também são as razões por procurarem o esporte: como forma de terapia e de manter o contato com a cultura de seu país. “Eu sempre estive muito inserido na sociedade brasileira e tinha vontade de fazer uma ponte entre os dois países. Encontrei isso através do esporte”, diz Akira. “Sinto-me muito bem por estar no meio de japoneses e falar o meu idioma aqui no Brasil”, completa ele, que se sente parte das duas nações. Da mesma opinião é Tomiko, que pratica o jogo quatro vezes por semana. “Aqui podemos não apenas falar o japonês, como aproveitar o tempo também para relaxar”, conta.
O presidente do Gateball, Takeshi Komuro, 72 anos, diz que pelo menos a cada dois meses há campeonato entre eles e um nacional a cada ano. Nos primeiros, a premiação não poderia ser mais atraente aos olhos dos japoneses. “Geralmente, os primeiros colocados ganham arroz, shoio e outros alimentos usados na culinária oriental”, conta. Takeshi informa que os brasileiros, que tenham afinidade com a cultura japonesa, também podem se inscrever para participar do Gateball na sede da associação.
Wadaiko
Este é um instrumento tocado pelos japoneses e que também já conta com adeptos no Recife. Aqui, o grupo – hoje com 15 integrantes - toca com um tambor e três canos de bambu sob a coordenação do secretário administrativo da entidade, Frederico Yuji Ojima. Segundo ele, inicialmente o instrumento foi usado na guerra com o objetivo de alertar a aproximação de inimigos.
Hoje, no Recife, o wadaiko é uma das formas de aproximar os japoneses de suas raízes. “Todo descendente tem a questão cultural muito forte dentro de si e o desejo de preservá-la”, diz a consultora de negócios nissei Sayaka Fukushima, 36 anos, que toca o instrumento desde o início do ano. Da mesma forma que aprendeu dos pais o respeito pela cultura japonesa, também pretende passá-la para os filhos, que já receberam, inclusive, nomes orientais: Manami, 16 anos e Sakyo, 6.
Apresentação de wadaiko, instrumento utilizado nas guerras medievais
para avisar a aproximação de inimigos. Imagens: Tatiana Sotero/DP/D.A Press
Seinenkai
Descendentes de japoneses ensaiam o yosakoi-soran para as festas do centenário.
Foto: Teresa Maia /DP/D.A Press
Este é o grupo de jovens descendentes de japoneses, hoje, com cerca de 20 integrantes. Na associação, eles realizam uma série de atividades durante o ano, que envolve danças e eventos comuns no Japão. Por exemplo, o undokai, uma gincana esportiva com várias brincadeiras para crianças, adultos e até idosos. Justamente esse tipo de gincana era também feita para passar o tempo dentro de alguns navios que vinham ao Brasil.
Além disso, há o Bon-odori, festival de danças orientais, que acontece nos meses de agosto no Japão. Lá, ele é feito em homenagem aos mortos. “No entanto, não é um evento triste, mas sim alegre, para lembrar a memória de pessoas queridas”, diz o vice-presidente do Seinenkai, João Marcelo Kuae. Ele destaca, ainda, que o grupo sempre organiza festividades em datas comemorativas. “Um exemplo é no São João, quando misturamos um pouquinho das duas culturas, a japonesa e a brasileira”, diz. Para as festas do centenário da imigração, o grupo se preparou para dançar o yosakoi-soran, uma dança feita por jovens e para jovens japoneses. Foi inspirada no soran-bushi, tradicional dos pescadores nipônicos. Ela é feita com muita coreografia, ritmo e com o movimento de puxar as redes.