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Centro de Estudos Nipo Brasileiro/Reprodução

Um desconhecido chamado Brasil


Há 100 anos, o primeiro navio japonês, Kasato Maru, aportava em Santos com a primeira leva de imigrantes que chegaram ao Brasil. Todos estavam em busca das árvores dos frutos de ouro e de uma vida promissora no país distante

Sair do seu país de origem e passar 52 dias a bordo de um navio em alto-mar era mais do que uma aventura para algumas famílias japonesas. Era uma necessidade. Em 1908, o Japão vivia os últimos anos da Era Meiji, quando o país abria mão de suas atividades rurais para se modernizar e industrializar. E por isso mesmo, as famílias do campo estavam sem emprego, passavam necessidades e a solução encontrada foi ceder aos apelos das campanhas publicitárias que surgiam naquele período. Falavam de um país promissor chamado Brasil.

Lá, ao contrário do que acontecia no Japão, havia terra de sobra e não faltava emprego. Nesse país, os japoneses teriam trabalho bem remunerado nos cafezais. Houve, inclusive, quem chegasse a pensar que era possível extrair ouro das árvores brasileiras. Enquanto não chegavam notícias mais concretas, 167 famílias toparam o desafio de se aventurar no mundo novo. Nessa primeira leva de imigrantes, foram 781 pessoas. O grupo passou cerca de 40 dias no Centro de Imigração, em Kobe – a 429 quilômetros da capital Tóquio – tomando “algumas lições” sobre o Brasil, aprendendo cumprimentos em português e dicas sobre a agricultura.

Na fase preparatória para a viagem, eram feitos, ainda, exames médicos. “Na época, houve um surto de traucoma no Japão, uma doença no globo ocular, que impediu muitas pessoas de viajarem ao Brasil”, afirma Célia Sakurai, socióloga, mestre em ciência política, doutora em ciências sociais e autora de quatro livros sobre o Japão. Os que receberam o visto para entrar no Brasil partiram do porto de Kobe, a bordo do navio Kasato Maru, em 28 de abril de 1908, sem saber o que viria pela frente e, principalmente, sem saber que fariam história. Despediram-se da sua pátria com a canção Hotaru no Hikari (À luz dos vagalumes) e o Hino do Japão. Para muitos, aquela seria a última vez que estariam em sua terra natal.

Ao todo, foram 51 dias de viagem sem muito conforto. “O Kasato Maru era um navio de cargas. Na ida, levava passageiros e, na volta, trazia alimentos”, destaca Kimio Kuroda, diretor executivo do comitê da Associação Japão-Brasil. Banhos com água doce eram restritos a duas vezes por semana e as dormidas eram sempre em esteiras colocadas no chão do navio, fossem para homens, mulheres, idosos ou crianças.

A chegada – Em 17 de junho, o navio japonês chega aos mares brasileiros, mas era preciso amanhecer para atracar no porto de Santos. O autor Tomoo Handa narra em seu livro O imigrante japonês que os tripulantes se alvoroçaram ao receber a notícia da tripulação que: “ao raiar o dia, os senhores avistarão as montanhas do continente sul-americano”. E, ainda assim, alguns demonstravam um ar de tristeza por estarem se separando do navio de sua pátria.

Os japoneses desceram do Kasato Maru com bandeiras do Japão e do Brasil feitas em seda oriental em uma forma gentil de cumprimentar os que se aproximavam do navio. De lá, seguiram de trem para Hospedaria do Imigrante, sempre com as bandeiras erguidas. Seria naquele local onde permaneceriam entre 27 de junho e 6 de julho, quando seguiriam para as fazendas de café, em busca das tais “árvores dos frutos de ouro”. Aos poucos, o Brasil deixava de ser uma imagem montada e idealizada na cabeça dos japoneses para se transformar em uma realidade, onde ainda viveriam por muitos e muitos anos.

A difícil tarefa de lidar com as diferenças


Trabalho nos cafezais, a primeira atividade realizada pelos imigrantes.
Centro de estudos Nipo Brasileiro/Reproducão/O Imigrate Japonês


A curiosidade e estranhamento eram inevitáveis. Fossem para os japoneses que tentavam se acostumar com o português, com a alimentação e os costumes locais. Ou, então, para os brasileiros, que se aglomeravam para ver os imigrantes passando pelas ruas. Admiravam-se pela forma como andavam - com passos curtos - pelos olhos puxados e as roupas utilizadas, no melhor estilo europeu. Sim, muitos compraram roupas ocidentais antes da chegada ao Brasil.

Também chamaram atenção a cortesia e educação dos japoneses, que chegaram a ser, inclusive, tema de matéria do jornal Correio Paulistano. “São muito dóceis e sociáveis (..). No refeitório da Hospedagem do Imigrante, não deixam cair um grão de arroz ou uma colher de caldo”, dizia uma passagem do texto citado no livro de Tomoo Honda, O Imigrante Japonês.

Para os imigrantes, não só as pessoas e costumes eram diferentes, como também a imagem que tinham sobre o Brasil. Mas foi apenas quando chegaram às fazendas de café, no interior de São Paulo, que perceberam as discrepâncias. “Inicialmente, quem tinha vindo ao Brasil eram os governantes japoneses que passaram poucos dias no Rio de Janeiro e São Paulo e não tinham noção de como seria o trabalho nos cafezais”, relata a socióloga Célia Sakurai.

Nas fazendas, tinham uma rotina puxada. Acordavam cedo e trabalhavam sob os gritos de fiscais que analisavam o trabalho. Esse cenário ainda se agravava com o clima quente da região e pelo fato de não terem se adaptado, de início, aos alimentos brasileiros: gordurosos e com poucos vegetais. Muitas vezes, trabalhavam com fome e sem energia suficiente para agüentar o sol quente dos cafezais.

Ao contrário de acumular riquezas, juntaram decepção. “Eles assinaram contrato para trabalhar pelo menos dois anos nos cafezais para pagar as despesas que os fazendeiros tiveram no custeio da passagem deles para o Brasil, mas muitos fugiram”, frisa Célia. Em São Paulo, àquela época, as terras ao redor das obras das estradas de ferro eram vendidas a preços baixos ou arrendadas. Assim, os japoneses compraram várias delas e prepararam as terras virgens para produzir no local. “Nessa época, eles introduziram a policultura, que ainda não era explorada no Brasil”, diz. Dedicaram-se aos plantios de algodão, amendoim, batata, legumes e depois à criação de aves para produção de ovos. Somente do começo da década de 30, as famílias passaram a se organizar em cooperativas, levando as produções de caminhão à capital paulista.

Cinco anos mais tarde, muitos se dirigiram à capital preocupados com a educação dos filhos. Lá, trabalhavam como donos de quitanda, de estabelecimentos comerciais e serralheiros.


Rumo à hospedagem dos imigrantes, japonesese erguiam bandeiras dos 2 países.
Tatiana Sotero/DP/D.A Press


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