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Pesquisadora Eunice Akemi diz que o japão acreditava que os dekasseguis se adaptariam fácil ao país, mas, na prática, as diferenças culturais atrapalharam. Fotos: Tatiana Sotero/DP/D.A Press

O caminho de volta

Hamamatsu - Primeiro, foram os imigrantes japoneses que confiaram numa vida mais próspera no Brasil. Depois, chegou a hora de alguns deles e seus descendentes fazerem o caminho inverso, mais precisamente na década de 90. Foi quando o Japão estava à procura de mão-de-obra para trabalhar nas indústrias, que surgiam a passos largos no país. A solução encontrada foi estimular a imigração e os brasileiros foram os principais beneficiados com a medida.

Com a reforma da Lei de Entrada de Estrangeiros e Refugiados no Japão, ficou mais fácil os descendentes de japoneses nascidos no Brasil conseguirem o visto para morar no país como dekasseguis (quem deixa a sua terra para trabalhar). Assim como os imigrantes que chegaram aqui, eles queriam apenas juntar dinheiro e retornar ao país de origem. Mas também fincaram raízes.

Hoje, a comunidade brasileira no Japão está em torno de 320 mil pessoas. A grande maioria trabalha em fábricas espalhadas pelo país. A cidade que conta com a maior população brasileira é Hamamatsu, com quase 20 mil pessoas residindo no local. Ela é um pólo da indústria automotiva e de instrumentos musical, sediando empresas como Yamaha, Kawai, Suzuki e Honda. “São nesses locais onde se concentra boa parte dos brasileiros. Por isso eles têm uma grande importância para a cidade, já que contribuem para a nossa economia com a sua força de trabalho”, diz o prefeito Yasutomo Suzuki.

Não à toa Hamamatsu tem a cara do nosso país. O brasileiro que circula alguns dias pelo Japão, sente-se um pouco em casa quando chega à cidade. Lá, é possível ver vários anúncios em português, bandeiras do Brasil pelas ruas e, até mesmo, restaurante com a típica comida brasileira, que atraiu o paladar dos orientais. É o Servitu, do paulista João Toshiei Masuko, 57 anos, que já conta com o estabelecimento há 15 anos. “Temos muitos clientes brasileiros, que vêm aqui para matar a saudade da comida de seu país, como também estrangeiros e japoneses”, diz.


Restaurante brasileiro servitu agradou o paladar dos orientais e estrangeiros que visitam a cidade de Hamamatsu
Convivência - Por causa da presença brasileira em Hamamatsu, a prefeitura da cidade vem trabalhando com a questão de convivência entre eles e os japoneses. Pesquisas realizadas pelo órgão mostram que ainda há um certo preconceito entre a população com esses estrangeiros. As principais queixas são que os brasileiros costumam fazer festa e colocam o som alto até a madrugada, não separam o lixo nos dias corretos e estacionam o carro na garagem do vizinho. “O brasileiro pensa: quando o dono chegar, eu vou lá e tiro o meu veículo. Mas japonês não faz isso. Há um choque cultural muito grande”, diz o consultor de multiculturalismo e integração internacional da prefeitura, Hisao Yasui.

O órgão pretende criar um centro de coexistência multicultural para integrar cada vez mais esses povos. “Qualquer problema que algum deles venha a ter, deve nos procurar para tentarmos garantir uma convivência cada vez mais harmônica”, enfatiza Yasui.

Cultura – Um outro problema é apontado pela pesquisadora Eunice Akemi, da Universidade de Arte e Cultura de Shizuoka, que pesquisa há 15 anos a adaptação de brasileiros no Japão. Ela diz que quando houve o estímulo para a vinda desses estrangeiros ao país, acreditava-se que seriam bem recebidos por terem o biotipo dos orientais e conhecerem a cultura através dos seus ascendentes. “No entanto, quando chegaram aqui, a realidade foi diferente. Apesar de conhecerem a cultura, eles são brasileiros e, por isso, têm costumes e hábitos diferentes”, completa. A pesquisadora diz que quando os japoneses viam que eram fisicamente parecidos com os dekasseguis, eram mais abertos. No entanto, quando falavam o idioma, percebiam que eles eram bastante diferentes. “E isso causou um pouco de preconceito”, diz.

Um outro fator preocupante diz respeito às questões de saúde e educação. Pelo menos 30% dos dekasseguis não têm assistência médica e 66,4% nunca freqüentaram escola no Japão. “Muitos deles dizem que vão voltar ao Brasil e, por isso, não querem ter despesa com esses dois itens que são essenciais”, diz Hisao Yasui. Mas na prática, não é isso que acontece. As famílias de dekasseguis vão crescendo e a tendência é se prolongarem mais no país. “Por isso, trabalhamos para estimulá-los a ter esses itens básicos e facilitar a coexistência dos brasileiros com os japoneses em Hamamatsu”, diz Yasui.

A busca do aprendizado


Rafael vive no japão desde um ano de idade e passou a conhecer a língua e cultura do seu país de origem na escola de Hamamatsu.

As placas escritas em português, em Hamamatsu, já atraem os olhares dos brasileiros que circulam pela cidade. É sempre inusitado encontrar o alfabeto ocidental depois de passar dias em contato com os ideogramas japoneses. Mas uma dessas placas desperta um interesse especial por se tratar de uma escola infantil. Fica bem na frente de sua entrada, escrita em letras pretas com o fundo amarelo: Colégio Mundo de Alegria.

Lá, crianças filhas de dekasseguis aprendem as primeiras letras em português e dão continuidade aos estudos do ensino fundamental com temas e metodologia brasileiras. Também faz parte do conteúdo programático, o estudo das culturas do Brasil e Japão, além do idioma nipônico. Com isso, as crianças passam a entender que hoje fazem parte de duas nações. Mas uma delas, o Brasil, elas conhecem mais através dos livros. Assim como acontece com o pequeno Rafael Yuri Kaiya, 11 anos. Ele reside desde um ano em Hamamatsu quando os pais Maristela e Wilson vieram trabalhar na cidade.

Natural de Presidente Prudente, em São Paulo, ele tem poucas lembranças do Brasil quando esteve no país há dois anos. “Lembro da casa da minha avó e do meu cachorro Toby. Mas já estudei muito sobre os animais brasileiros e o clima, que é mais quente e diferente do Japão”, diz ele. Ele sabe bem o que o levou até um país tão distante de onde nasceu. “Aqui temos uma vida melhor. Meus pais ganham mais e podemos comprar o que queremos”, acredita.

A preocupação com o aprendizado das crianças estrangeiras, em Hamamatsu, surgiu da japonesa Masami Matsumoto, hoje diretora do Colégio Mundo de Alegria. Ela diz que desde o início da vinda dos dekasseguis ao Japão, os trabalhadores deixavam a educação dos seus filhos em segundo plano, já que pretendiam retornar ao Brasil. Mas como isso não acontecia, as crianças cresciam e ficavam sem grandes perspectivas no país. “Acabavam indo trabalhar em fábricas como os seus pais. Não que seja um trabalho ruim, mas é muito pesado e com uma carga horária puxada”, enfatiza.

Ou então, havia dekasseguis que matriculavam os filhos em escolas japonesas. “No entanto, os pais não poderiam acompanhar o desempenho das crianças porque não entendiam bem o idioma. Por outro lado, elas tinham dificuldades de aprender porque em casa não praticavam e não tinham apoio dos pais”, afirma.

Além disso, segundo ela, os mais novos iam esquecendo a língua pátria, dificultando até mesmo a comunicação com os pais. Tudo isso causou uma defasagem escolar enorme entre os filhos de estrangeiros e os japoneses”, afirma.

Ela conta que na década de 90 trabalhava na fábrica da Suzuki e levava os brasileiros que chegavam ao país para trabalhar. “Percebi que com o passar do tempo, eles traziam as suas famílias ou, então, começavam a ter filhos por aqui. Com isso, foram deixando de lado a idéia de voltar ao país”, conta. Daí, a necessidade de pensar no futuro dessas crianças. Em 2002, ela abriu a escola para descendentes de peruanos, argentinos e bolivianos com ensino em espanhol. Em 2005, ampliou para os alunos brasileiros com aulas em português.

Hoje, estudam no Colégio Mundo de Alegria 113 alunos, sendo 60% deles brasileiros. Alunos entres os 4 e 15 anos de idade, que vivenciam um pouco da cultura dos dois países. “Comemoramos as datas festivas do Brasil como, por exemplo, o Dia Índio e do livro”, diz a diretora. “É muito importante esse contato, principalmente através do idioma dos seus pais. Afinal, por trás da língua existem sempre uma cultura e uma tradição que devem ser preservadas”, frisa.

A diretora também se prepara para atender às exigências do Ministério da Educação do Brasil e, em breve, receber o reconhecimento do órgão.


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