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Um mal que adoece o corpo e a alma

O preconceito deixa nos pacientes marcas que duram para sempre


Marlene Lopes deixou de sair na rua por temer discriminação no povoado de Barra de São Pedro (PE)
Existe um povoado, perdido na distante zona rural de Ouricuri (PE), a 630 quilômetros do Recife, onde ninguém quer seguir a sina de uma mulher. Lá, ninguém quer ficar como Terezinha. Na verdade, Terezinha Matias Delmondes Silva, uma ex-agricultora com 36 anos, moradora de Barra de São Pedro. Terezinha é vítima de um dos piores males que existem na humanidade: o preconceito. É a mais grave seqüela que carrega depois de ter sua vida atravessada pela hanseníase.

A ex-agricultora já não pode trabalhar porque sequer anda sozinha. Tem a coluna destroçada por anos em cima de uma cama. Carrega no corpo cicatrizes de feridas que um dia verteram pus. Teve hanseníase, mas os médicos lhe contaram tarde demais. Chegaram a pensar que se tratava de uma alergia. “Não sou mais ninguém. Não faço mais o que fazia. Trabalhava na roça. Cheguei até a trabalhar no posto de saúde”, lembra, com lágrima nos olhos.

Terezinha escapou da morte. Em certo momento, desistiu de lutar. Graças à mãe, que lhe ministrou os remédios, sobreviveu. “Perdi a fé. Achava que não ia sobreviver. Tenho sofrido tanto. O sol arde em minha pele. Tenho dormência nos pés e nas mãos”. Só não escapou do olhar enviesado das pessoas. Das piadas que machucam e adoecem a alma. A doença acabou com o corpo de Terezinha. O preconceito dos vizinhos pôs abaixo os nervos e a auto-estima dela. Há sinais de depressão.

A hanseníase se espalhou por Barra de São Pedro. Dos 370 moradores, 10 estão em tratamento. O preconceito foi a reboque. Juntos bateram à porta da agricultora Marlene Lopes da Silva, 47. Ela tem uma mancha no rosto que coça. Sinal da doença que amedronta o lugarejo. “Aqui, quem não tem a doença, tem pavor de pegar. Tenho medo de ficar igual a Terezinha”, confessa, cabisbaixa. Não há provas de que Terezinha foi o ponto de partida para o surgimento de novos casos na cidade.

Marlene é parte do que restou de uma mulher de fibra. “Gostava de me arrumar. Agora não gosto mais. Tenho vergonha de sair. O povo fica olhando, pergunta o que é. Faz piada. Tem medo de chegar perto, muda de lugar. Só saio de casa para pegar medicamento”. No fim da entrevista, Marlene chora. Se agarra à mão da repórter apertando com força. Quer acreditar que alguém toca nela sem medo. Está com a alma em frangalhos. É mais uma vítima do preconceito.

Escória - Jeziel Raimundo da Silva, 26, também virou escória em Campo Alegre do Fidalgo (PI). Os poucos moradores acreditam que ele é o culpado de a doença ter aportado por aquelas bandas, já que é o primeiro caso registrado no município. Muitos levantavam das cadeiras quando ele se aproximava. Queriam o mínimo contato. Jeziel sobreviveu com as reações que a medicação lhe trouxe. Tem a chamada face leonina, caracterizada pelo rosto inchado, perda de pelo e cabelo. Mas precisou de acompanhamento psicológico para suportar os olhares.




Seu Garré, de Amapá do Maranhão (MA), chorou ao saber que hanseníase era a antiga lepra

No princípio, já era o preconceito

A Bíblia revela que, antes de Cristo, a hanseníase já era considerada uma praga. Os doentes eram isolados, as roupas queimadas e eles rotulados de “imundos”. O temor de pegar a lepra, como era chamada na época, era ainda maior do que nos dias de hoje. O Velho Testamento da Bíblia, no livro de Levítico, capítulos 13 e 14, lista os cuidados da época para combater a doença. “As implicações sociais de impacto negativo que passaram a permear a vida dos portadores da doença foram deflagradas a partir das medidas preventivas estabelecidas por Moisés. A interpretação do acometimento, segundo os desígnios divinos, poderia atribuir-se como um castigo de Deus ao vil pecador ou um teste para avaliar a fé e a resignação das pessoas de bem”, explica a fisioterapeuta Rejane de Almeida, que desenvolve a dissertação Tendência temporal de detecção dos casos novos de hanseníase na faixa etária menor de 15 anos e de 15 anos a mais, na Universidade de Pernambuco (UPE).

O psicólogo Lindomar Lopes, que atua há 13 anos no Hospital Colônia Santa Marta, em Goiás, no Centro-Oeste, acredita que o preconceito contra o mal já faz parte do inconsciente coletivo. “Tem relação com o processo histórico da doença, com a memória de um passado que remete a 600 anos Antes de Cristo. Quem tem a hansen já se coloca num quadro diferenciado”, justifica.

O coordenador nacional do Movimento de Reintegração das Pessoas Atingidas pela Hanseníase (Morhan), Artur Moreira, critica a falta de campanhas nacionais, com veiculação na TV, promovidas pelo Governo Federal. Na opinião de Arthur, que falou com o Diario, por telefone, do Rio de Janeiro, isso dificulta a compreensão e a cura do mal e ainda promove o preconceito. No ano passado não houve campanha e este ano há promessas de acontecer ainda neste mês de maio, segundo Moreira. “O preconceito não é somente falta de informação sobre algo. Também está ligado às informações erradas. O combate à doença precisa de um esforço maior não só no número de informações, mas na qualidade educativa delas. É preciso haver prioridade”, defende.

A principal fonte de informação nacional sobre o assunto também passou por dificuldades. O Telehansen, que responde dúvidas através do número 0800262001, permaneceu fora do ar nos três primeiros meses deste ano (Agora, já está em funcionamento). “O serviço foi criado na década de 90 e parou pela primeira vez. Calculamos cerca de 11 mil ligações por ano. A maioria delas trata de denúncias de discriminação e maltratos. Muitos pedem orientação jurídica”. A iniciativa custa cerca de R$ 30 mil por mês e era custeada pelos governo brasileiro e por entidades japonesas, porém o Ministério da Saúde alegou falta de verba.



As informações sobre as quais Arhur Moreira fala poderiam ter ajudado seu Raimundo de Souza Garré, da cidade de Amapá do Maranhão (MA). Ele tem hanseníase e a doença pode ser percebida no rosto, com os sinais de uma face com pequenas deformações (esta é uma reação da hanseníase, conhecida pelos especialistas como “face leonina”). Seu Garré foi informado sobre o bacilo que o contaminou, mas não compreendia de onde vinha a doença. Nunca antes tinha ouvido falar de alguém com hanseníase, como ele. Depois de muita conversa, os enfermeiros da unidade de saúde acharam por bem explicar que se tratava de uma doença antes conhecida como “lepra”. “Minha filha, chorei muito. Fiquei sem sair e tudo”, conta. Preocupado com o preconceito que tinha de lidar dali em diante, pediu reserva na informação à equipe médica. “Nunca falei com meus vizinhos sobre isso”, diz. Os vizinhos são, para ele, como uma família, mas a vergonha impôs o silêncio.


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