Alcione Ferreira, Silvia Bessa e o motorista Antônio em viagem de barco de São Luiz (MA) para Itaúna
As grandes reportagens são feitas com histórias de gente. E essas histórias nem sempre são óbvias ou estão próximas, prontas para serem reveladas. Precisam ser buscadas, muitas vezes, a quilômetros de distância. No Sertão, no Agreste, na Mata Sul nordestina ou em estados vizinhos como o Piauí. Lugares onde nem sempre as pessoas ávidas por contarem suas vivências têm oportunidade de serem ouvidas. Muito menos pela grande imprensa. Talvez por isso elas sejam as melhores histórias.
Quando a fotógrafa Alcione Ferreira, minha companheira de trabalho há dez anos no Diario de Pernambuco, propôs uma reportagem sobre hanseníase, acreditei que poderíamos fazer um bom trabalho. Primeiro porque Alcione é de uma sensibilidade incomparável. Segundo porque o assunto é dos mais humanos, uma área onde trabalho com o maior prazer.
Nos juntamos a Sílvia Bessa, cujo cuidado na apuração impressiona, e concluímos o caderno especial sobre hanseníase. Torço para que dentro dos próximos dez anos o trabalho sirva apenas como um marco histórico de uma época em que a doença deixava seqüelas físicas e cicatrizes psicológicas em adultos e crianças brasileiros. Torço para que histórias como a de Marilene Lopes, de Ouricuri, não se repitam. Que o Brasil não derrame mais lágrimas pelas dores trazidas com a hanseníase.
Marcionila Teixeira
Ao final dessa longa reportagem, redescobri o óbvio que muitas vezes a gente esquece. Descobri que a gente vive aprendendo – a cada minuto, com cada pessoa. Produzir o caderno especial foi uma jornada difícil, na qual me dei conta de que não importa se temos internet, curso superior, se trabalhamos como jornalista e somos especialistas em generalidades. A gente sabe menos do que deveria. Eu, Marcionila Teixeira e Alcione Ferreira começamos a falar da hanseníase como uma equipe no final do ano passado. A apuração não começou naquela época, mas a devoção ao tema, sim.
Confesso, confesso que as dúvidas que permearam meu pensamento foram iguais às da maioria das pessoas com quem convivo no jornal ou no meu no ciclo de amizades. ‘Essa doença pega com facilidade?’, ‘Serei eu uma futura vítima?’. Ignorância. Eu sabia pouco sobre a hansen. As meninas, creio, sentiam receio parecido. Mas nem eu nem elas expressávamos abertamente tal sentimento. Felizmente, o silêncio que nos unia com relação ao temor era o mesmo que unia nosso desejo de tornar público o sofrimento dos pacientes, ex-pacientes e familiares dos doentes de hansen. Nós três sabíamos que precisávamos quebrar o medo e ir frente. Precisávamos mudar padrões e mostrar o feio, a dor, o perigo para a nova geração de brasileiros. Precisávamos usar nossa sensibilidade ao tema e estampa-lo no jornal. Com destaque, num domingo, em páginas coloridas.
Marcionila foi a primeira a viajar e deparar-se com os pacientes de hansen das pequenas cidades. Ela voltou me falando da necessidade que as pessoas tinham de abraçar. Pensamos juntas: era a ânsia por um contato, muitas vezes repelido por aqueles que não sabem que, iniciado o tratamento, os doentes de hansen não transmitem mais a doença. Conversamos com especialistas de todo o mundo e foi minha vez de ir para a estrada. Eu e Alcione chegamos a São Luís, no Maranhão, dispostas a falar com o maior número de pessoas. Alcione cuidava da trilha sonora do carro – era cuidadosa ao escolher um som leve e introspectivo. Adorava os clássicos do filme “O Fabuloso destino de Amelie Pollan”. Antes de escrever, Marcionila e eu tentávamos lembrar dessas músicas. Elas nos remetiam a tantos cidadãos fortes que encontramos e que lutam, quase invisíveis, para se liberarem da marca de um estigma tão cruel quanto histórico.
Fui a São Luís, ao município de Amapá do Maranhão (já pertinho do Pará), voltei a Pernambuco e visitei outros pacientes da Região Metropolitana do Recife. Mães, pais, crianças. Gente como a gente, que tinham boas históricas. Fortes histórias - e a grande maioria começava essas histórias com as datas exatas do dia do diagnóstico. Foram essas pessoas que – pouco a pouco – me tiraram o medo. Com o receio do início da reportagem ou o desprendimento do final, apertei a mão de todos com o forte desejo de dias melhores. O caderno, quem sabe, ajudará para isso.
Sílvia Bessa
Na estrada de Campo Alegre (PI), o motorista Clécio Bunzen, Marcionila Teixeira e Alcione Ferreira
A primeira coisa que me chamou atenção durante a produção do caderno foi que muitos achavam que já não havia mais pessoas com seqüelas decorrentes da hanseníase. Esse pensamento é exatamente o retrato do abandono ao qual os portadores de hansen estão submetidos. Talvez por conta disso, as seqüelas não se resumem só à dor física, mas também à dor emocional.
A hanseníase vai muito além da pele. Ela traz ao indivíduo o peso da vergonha que só quem tem a doença sabe. Por isso, alguns adultos choravam enquanto eram retratados. Já as crianças estavam mais interessadas na máquina fotográfica, como se estivessem protegidas da carga do preconceito, provavelmente pela inocência infantil.
Através do silêncio do retrato, muitos dos personagens passaram o seu recado. Por isso, a idéia do projeto foi de fazer retratos, pela necessidade de provar que essas pessoas existem.
Pessoas como dona Domingas, seu Anselmo, dona Marlene, seu Julico, os pequeninos Maria Vitória e Adenilson, entre tantos outros, não são personagens de ficção, mas gente de carne, osso e emoção.