Governo Lula concedeu em maio de 2007 pensão vitalícia
para portadores de hanseníase
Antes vaidoso, seu Janurário Marques, conhecido como Julico, ficou numa cadeira de rodas.Recebeu a pensão do governo e ganhou mais conforto
O contorno do corpo delineado no colchão denuncia a invalidez de seu Januário Marques, de 61 anos, conhecido como seu Julico. Duas vezes por dia, quando abandona os lençóis alvejados e macios que o acolhem, é amparado por uma cadeira de rodas. E nem sequer consegue encostar os pés de lavrador no apoio de ferro da parte inferior da estrutura. Tem os dedos atrofiados; no solado, uma úlcera varicosa. Reclama o dia inteiro da pressão nos olhos e pouco lembra a imagem de homem vaidoso, que fazia questão de colocar sapato social e envergar uma camisa de linho bem-engomada. Para a família de seu Julico, assim chamado nas redondezas da Rua São Mateus (São Luís, MA), o único consolo é que desde fevereiro a vida dele ganhou mais conforto. “Era o mínimo para quem foi obrigado a se afastar da cidade, dos amigos e da família. Meu pai era o esteio da casa em todos os sentidos”, diz, com a voz emotiva, a costureira Domingas, filha dele.
O governo petista foi primeiro a reconhecer direito de doentes
Seu Julico recebeu, em fevereiro, a primeira parcela da pensão mensal vitalícia paga pelo Governo Federal aos pacientes com hanseníase egressos dos regimes de isolamento compulsório. Os R$ 750 depositados em seu nome servirão para comprar os pacotes de fraldas descartáveis trocadas três vezes por dia, remédios e a mistura de leite e aveia de que ele tanto gosta. O dinheiro recebido serviu ainda para comprar uma cômoda branca com detalhes em mogno e para afixar a cerâmica na casa - até então, de cimento batido. “Que alegria”, comemorava Domingas, enquanto o móvel adentrava. De acordo com a Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República, o governo concedeu desde 2007 o total de 298 pensões, a exemplo da de seu Julico. Estima fechar este ano 2.500. O benefício é intransferível e reajustável pelos índices da previdência.
A medida provisória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de maio de 2007 (baseada num projeto do senador Tião Viana (PT/AC), representa uma das maiores conquistas da história da hanseníase no Brasil. Menos pela indenização daqueles que foram submetidos ao isolamento compulsório até 31 de dezembro de 1986; mais pela atitude simbólica. É um passo importante para se reconhecer o tratamento aos hansenianos como uma “questão de direitos humanos”, tese defendida pelo presidente Yohei Sasakawa, embaixador da Organização Mundial da Saúde (OMS). Menos de um ano após ser adotada, a Secretaria de Direitos Humanos acumula cerca de 8 mil pedidos de pensão de pessoas que se dizem vítimas da hansen. Pela demanda, em 23 de abril deste ano o governo ampliou para 12 o número de relatores que analisarão os processos e espera, dessa forma, acelerar a liberação da verba para quem se enquadra nos critérios.
A iniciativa do governo de agilizar os processos pode ser determinante para a sobrevida de muitos pacientes de hanseníase no Brasil. Pode evitar mortes, como a de seu Raimundo Pedro Costa, de 74 anos, conhecido como Raimundo Guarda na
antiga Colônia do Bonfim (MA). Ele faleceu no dia 25 de fevereiro deste ano. Havia requerido a pensão, mas seu processo não chegou a ser concluído. Com seqüelas em virtude da hansen na perna e nos dedos, seu Raimundo Guarda
(que já foi vigilante dos doentes na colônia-leprosário) sofreu preconceito até o dia de sua morte, diz a família. Foram 12 dias internado, convivendo com olhares de médicos e de
outros pacientes da Unidade de Saúde Socorrão II, em São Luís. “Ele não foi o primeiro a morrer por não ter cuidados adequados,
nem vai ser o último.
Fizemos o que pudemos,
mas somos de uma família humilde”,
conta a mulher, Maria Luiza Andrade.
Cercando o caixão de seu Raimundo Guarda estavam outros sem número de ex-pacientes da antiga colônia e familiares. Diante do questionamento da equipe de reportagem, uma voz única fazia coro: “A discriminação começa quando as pessoas sabem o endereço”. Acabar com o preconceito é o mais difícil, mas é também o maior desejo dos pacientes.
Serviço Dúvidas sobre pensões: 061 3429-9366
ou pelo e-mail: hansenniase@sedh.gov.br Endereço para requerer pensões:
Comissão Interministerial de Avaliação da Esplanada dos Ministérios, Bloco T – Ed. Sede do Ministério da Justiça – Salão Negro, CEP: 70064-900 – Brasília / DF
Para cada raça, um remédio
A Fiocruz/RJ iniciou, em março deste ano, uma pesquisa na área de genética, inédita no Brasil, para analisar o biotipo dos pacientes de hanseníase de todas as regiões do país e a eficácia do tratamento medicamentoso em cada um deles. O estudo parte do princípio que, a depender da característica étnica da pessoa, há uma metabolização maior ou menor das substâncias. Levantamento inicial levou os cientistas a acreditar que podem apostar em terapêuticas para grupos específicos. O projeto-piloto, aplicado no Recife, está sob a coordenação do biólogo farmacogenético Alberto Rezende.
Arte desperta colônia
Através de oficinas de artes, os internos da Colônia Santa Marta, em Goiás, estão jogando tintas nas telas e na própria vida. Cantam e encantam. É a forma que eles encontraram para cuidar da mente. “É importante para eles ter alguém para parar e ouvi-los tocar um instrumento musical. Temos também uma pessoa que passa 12 horas numa cadeira de rodas e que nem por isso deixou de se revelar como um artista na pintura”, diz o psicólogo Lindomar Lopes, à frente do projeto. Para ele, a arte promove a integração do psiquê. “Desperta o que tem de dor, libertando o mundo mental”.
A cesta básica como solução
A saúde por uma cesta básica. Em Ouricuri (PE), a secretária municipal de Saúde, Maria do Carmo Alves, diz ter encontrado uma solução simples para manter os pacientes no tratamento. Uma vez por mês ela distribui 22 cestas básicas para os doentes de hanseníase do município, que tem quase 60 mil habitantes. A cesta básica contém arroz, feijão, leite, biscoito e margarina. O trabalho é desenvolvido em conjunto com a Secretaria Municipal de Ação Social.
Brasil reduz grau de deformidade
O Brasil reduziu o grau de deformidade nos casos de hanseníase nos últimos cinco anos. Está próximo de atingir a meta, que é de menos de 5% de pacientes portando alguma incapacidade após contrair a doença. Segundo o Ministério da Saúde, o país ficou com 5,7%. É o percentual mais baixo já atingido. Outra conquista está na fidelização dos tratamentos. O último levantamento do Ministério (de 2006) diz que 85% dos pacientes finalizaram o tratamento.