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Adenilson, de Amapá do Maranhão, com 12 anos, já tem seqüelas da hanseníase

Um drama antes dos 15 anos


Os casos da hansen em crianças e adolescentes se repetem Brasil afora. Representam 8 % do total de pacientes que contraíram a doença em 2006


Maria Vitória, 4 anos, foi infectada com a doença quando ainda era um bebê
Deitado na cama gélida do Hospital Presidente Dutra, Adenilson Silveira pensava em tudo de que mais gostava. No futebol com os amigos nas ruas de barro seco da cidade do Amapá do Maranhão, na sala de aula que tivera de abandonar, nos passos de forró que aprendera a dançar. Antes de dormir com a mãe segurando-lhe a mão direita, lembrava dos bois que “tocava” com varetas nas mãos e gritos de alegria. E, então, Adenilson chorava. Imobilizado no quarto da unidade de saúde de São Luís (MA), estava distante 500 quilômetros de Amapá do Maranhão, onde convive com 11 irmãos e os pais. Aos 12 anos, o menino saiu da pequena cidade de 6 mil habitantes para a capital e fez uma delicada cirurgia para distensionar os nervos enrijecidos. Tentava se livrar das conseqüências mais incômodas da hanseníase. Primeiro, apareceram as manchas. Em seguida, os inchaços, a febre e as dores insuportáveis nas juntas. O menino teve um diagnóstico tardio. Por isso, sofreu logo após descobrir como era bom ser boiadeiro.

Crianças contaminadas são a prova de que a doença está ativa em uma área
“Foi muito traumático. Ele está até melhor de saúde porque não tem mais dor. De todo jeito”, disse o pai Ataíde Silveira, “a mãe continua dando atenção dobrada pra ele. Faz sopinha concentrada e salsichinha porque é muito magrinho”. Seu Ataíde, um magarefe que abate boi diariamente, olha com ternura para o filho e acredita - “agora sim, meu filho vai ter uma vida boa e normal”. Apesar do dedo indicador da mão direita atrofiado e com aparência de decepado na primeira falange, as dores de Adenilson sumiram. Ele voltou a jogar bola e a sorrir. “Quero ser doutor”, sonha. Exibe-se para a família reunida sob o alpendre da casa e para a enfermeira Sheyla Azevedo, que em um final de tarde o viu sem camisa na rua e suspeitou da doença.



O sorriso de dentes estreitos de Adenilson é quase um grito de alerta. No Brasil, o Nordeste concentra o maior número de casos de doentes por região, inclusive entre menores de 15 anos. Adenilson terminou com seqüelas. “Essa não é uma doença da infância. É de adulto jovem. Pelas características e pelo tempo de incubação”, explica a chefe do Departamento de Hanseníase da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz-RJ), a doutora em Medicina Tropical Maria Eugênia Gallo, que estuda a hansen há mais de 30 anos e falou para o Diario em visita ao Recife. O bacilo da doença, mostram estudos em todo o mundo, tem incubação que dura entre dois e sete anos, em média. A contaminação com o micróbio depende de cada organismo.

Editoria de arte/DP

FONTE: Sinan/ SUS/ Ministério da Saúde
Glossário: Detecção - É o número de casos novos identificados por local, a cada 10 mil pessoas Prevalência - É o número de casos em tratamento por residência, por 10 mil pessoas
Quando Maria Vitória, de 4 anos, foi infectada, ela mal sabia andar. Mora com os pais e duas irmãs numa casa de taipa, num dos bairros mais miseráveis de Belém de São Francisco, a 480 quilômetros do Recife (PE). A doença chegou na forma de uma mancha nas costas. Parecia uma impinge. “Foi há nove meses”, lembra a mãe, a dona de casa Fabiana da Silva, 23. “Não sei com quem ela pegou. Na minha família não tem ninguém doente”, lembra a mãe.

Notificações como a de Adenilson, do Amapá do Maranhão (município com a maior taxa de novos casos em menores de 15 anos do estado) e de Maria Vitória, de Belém, devem servir para se intensificar os programas de prevenção e tratamento da hanseníase. Os casos em crianças e adolescentes representam 8% do total de pacientes que contraíram a doença em 2006, ano da última pesquisa divulgada pelo Ministério da Saúde. Esses casos, diz a pesquisadora, são preocupantes porque estão ligados a fatores sociais, que escapam do controle médico. Envolvem problemas socio-econômicos e culturais, como a mudança de hábito. “As crianças estão em contato com o bacilo mais precocemente. Há 20 anos, as mulheres não trabalhavam. Hoje a criança vai para uma creche comunitária, onde está a população menos favorecida”, explica Maria Eugênia.



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