Formação precária e falta de interesse dos médicos no país contribui para agravar a situação dos portadores de hanseníase
Aos 21 anos, a ex-gari Ana Lúcia já tinha perdido um dedo por causa da hanseníase
Ana Lúcia Borges tem 29 anos. Parece ter mais. Os cabelos são desgrenhados. A face coberta de rugas. As roupas são vestidas de qualquer jeito. Nos pés, sandálias de borracha. Nas mãos, faltam dedos. Sobrou carinho para afagar os três filhos ainda pequenos. Ana Lúcia é o retrato do descaso com a saúde pública no Brasil. Aos 21 anos, procurou um médico em Cabrobó, no Sertão de Pernambuco, a 606 quilômetros do Recife, para mostrar uma inflamação no dedo polegar. “Ele disse que era empanadiço”, lembra.
O tal empanadiço era hanseníase. Doença que adquiriu na adolescência. Somente três anos depois de um diagnóstico errado, um médico do município informou o nome verdadeiro do mal que acometia Ana Lúcia. “Já tinha tomado minha mão direita. Com 25 anos, perdi o dedo”, conta.
Cabrobó
Tx. detecção de de Cabrobó 6,9
Tx. detecção de Pernambuco 3,3
Tx. detecção do Brasil 2,4 Fonte: Sinan - 2006/ Ministério da Saúde
A ex-gari integra uma legião de pessoas vítimas da formação precária dos médicos no país. “Certa vez, um médico que tinha concluído o curso há pouco tempo perguntou para mim se havia mesmo hanseníase em Pernambuco. Isso demonstra falhas na formação do profissional, que não vê o assunto nas bancas da universidade”, critica a enfermeira Andréa Torres, coordenadora estadual de combate à hanseníase. A falta de engajamento pode ter uma explicação simples. Segundo a chefe do Laboratório de Hanseníase da Fundação Oswaldo Cruz, Maria Eugênia Gallo, “doença de saúde pública e não dá dinheiro”.
Sem andar, Domingos Braga passa a tarde na porta da sua residência, em São Luís (MA),
contemplando o
movimento da rua
Domingos Braga, 51, já não anda, ao que tudo indica, foi vítima dessa falta de suporte médico. Passa a tarde na porta da sua residência, contemplando o movimento da rua, na periferia de São Luís, no Maranhão. Em virtude do atrofiamento dos nervos inferiores, seu Domingos perdeu quase todo o pé. Se um dos três filhos não estiver por perto, arrasta-se para conseguir pegar um objeto. Ex-metalúrgico, perdeu a sensibilidade de parte da pele e queimou-se com a ponta do cigarro. Ao longo dos anos, passou a sofrer de vitiligo e problemas psiquiátricos.
As dificuldades no combate à doença não param pelo diagnóstico malfeito. Em algumas regiões , é difícil manter médicos capacitados nos Postos de Saúde. No Sertão pernambucano, nem o salário dobrado é garantia de atendimento. Em Belém de São Francisco, o secretário de Saúde, José Pacheco Neto, oferece R$ 10 mil para um dermatologista, mas está há dois anos sem o profissional.
Por um ano a dermatologista Karla Carvalho trabalhou em Belém. “No Sertão eles pagam bem por conta das más condições. É uma terra carente, com carga de serviço grande”, lembra. Em 2006, ela localizou 30 casos entre adultos e crianças. Antes disso, o percentual era quase zero. “Todo dermatologista que chega ao interior verifica a subnotificação”, ressalta Karla.
Doença tem
tratamento e cura
O tratamento da hanseníase, apesar de simples, é considerado demorado e chega a afastar os pacientes. Quando o remédio falta nas farmácias municipais por desorganização burocrática dos governos, a situação se agrava. O contratempo ou a ausência do compromisso do paciente faz com que o tempo de consumo dos comprimidos seja estendido para garantir a cura.
Evolução da hanseníase por região
(Coeficiente de detecção de casos novos por 10 mil habitantes - Evolução 1990-2006)
1990
1995
2000
2005
2006*
Norte
5.68
7.00
7.35
6.60
6.45
Nordeste
1.96
2.58
2.90
3.90
3.36
Sudeste
1.45
1.31
1.24
1.30
1.17
Sul
0.73
0.66
0.78
0.80
0.70
Centro-oeste
4.98
6.47
6.02
6.10
6.17
Brasil
2.00
2.33
2.43
2.70
2.49
Fonte: Ministério da Saúde / Secretaria de Vigilância Sanitária
* 2006 é o ano da última estatística consolidada pelo Ministério da Saúde
O Ministério da Saúde recomenda que o tratamento de seis meses, indicado para a forma paubacilar, pode ser estendido para nove meses, caso o paciente tenha faltado três meses, consecutivos ou não. O tratamento de 12 meses, indicado para a multibacilar, é ampliado para 18 meses se o doente ficou seis meses sem medicação. Nos dois casos, o tempo de tratamento anterior à pausa é aproveitado.
Em Trindade, a 664 quilômetros do Recife no Sertão pernambucano, faltou remédio no final do ano passado. “A situação de alguns pacientes piora”, conta Ana Alencar, coordenadora municipal de epidemiologia. Em São Luís (MA), Amapá do Maranhão (MA) e no Recife (PE), há denúncias de atrasos semelhantes.
A falta da medicação é tão grave quanto o diagnóstico tardio. Autora da dissertação Controle de Endemias do Sistema Único de Saúde: A Caminho da Descentralização? O Caso Olinda/Pernambuco, a médica epidemiologista Marília Siqueira destaca que uma das conseqüências da descontinuidade dos medicamentos é o abandono do tratamento. “Isso acontece porque o paciente perde a credibilidade. O pior é que em alguns casos pode haver resistência à medicação”, alerta.
A Secretaria Estadual de Saúde de Pernambuco reconhece que faltam medicamentos em alguns municípios pernambucanos. “Pediram um quantitativo errado do blister multibacilar adulto e isso ocasionou um problema burocrático. Os municípios que pedem com mais antecedência um número extra de comprimidos não passam por isso”, alerta Andréa Torres, coordenadora estadual de combate à hanseníase.
Em Pombos, a 64 quilômetros do Recife na Mata Sul pernambucana, a resistência ao tratamento também preocupa as autoridades sanitárias. “Temos uma adolescente que não quer se tratar porque está ficando com a pele escura, conseqüência da medicação. E com essa resistência ela pode contaminar outras pessoas”, relata a enfermeira Patrícia de Lima, do Posto de Saúde da Família.