Criança doente, sistema falido
A doença mais antiga da humanidade ameaça uma nova geração de crianças e jovens brasileiros. Traiçoeira, chega sem alardear. Instala-se no corpo com lentidão. Atinge a pele e os nervos. Pode deixar fortes seqüelas físicas e emocionais. O perigo tem nome bíblico: lepra. Ou Mal de Hansen ou hanseníase, como é definida no país desde 1976. A hansen é um grave problema de saúde pública. Uma endemia que parece invisível e sem controle. Em 2006, 46 mil pessoas foram contaminadas por ela - cerca de 4 mil com idade inferior a 15 anos. Quatro mil notificados; outros milhares ignorados. A estatística infanto-juvenil representa o dado epidemiológico mais importante. Mede o grau de expansão da doença, confirma a existência de pacientes sem tratamento e indica a gestação de uma tragédia: o garoto de hoje tende a tornar-se o adulto indesejável, discriminado ou abandonado de amanhã. Já existe tratamento e cura para a hanseníase; para o preconceito contra ela, não.
Casos novos (Américas)

| País |
Casos novos |
Menores de 15 anos |
| Brasil |
44.436 |
3.513 |
| Argentina |
412 |
4 |
| Paraguai |
404 |
11 |
| Colômbia |
398 |
14 |
| México |
243 |
2 |
| Cuba |
183 |
1 |
| TOTAL* |
47.612 |
3.655 |
| *Este quadro inclue os seis países com maior incidência em casos absolutos na região das Américas. São no total 26 países |
Fonte: Organização Mundial da Saúde (OMS)/2006 |
|
O Brasil ocupa o segundo lugar no ranking geral de casos descobertos anualmente - uma média de 49 mil na última década. Só perde para a Índia, país asiático com densidade populacional 15 vezes maior e duas vezes mais pobre. E até a Índia cumpriu a meta definida pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para a eliminação da hanseníase. Das 193 nações do globo, apenas quatro não reduziram as taxas à média aceitável de um caso a cada 10 mil habitantes - Brasil, Nepal, Moçambique e Congo. A posição do país deve ser motivo de vergonha. Não dos vitimados. Dos governantes. Presidentes, governadores e prefeitos das últimas cinco décadas.

Cinco pessoas da
família Santos, do
Sertão de Pernambuco,
tiveram hanseníase |
 |
Este caderno especial mostra a gravidade da endemia no Brasil, enfoca com ineditismo a situação infanto-juvenil e dá voz aos pacientes. É corajoso. Além de massificar informações sobre a cura e os avanços, busca extirpar um preconceito entranhado na imprensa. Pela primeira vez, uma reportagem dedica-se exclusivamente ao drama de quase 500 mil pessoas infectadas nos últimos dez anos e suas famílias. É o resultado de uma criteriosa investigação jornalística, que buscou o caráter documental e consumiu dois meses de pesquisa. Três profissionais percorreram 8.200 quilômetros com um objetivo: ouvir relatos de quem sofreu ou sofre com a hanseníase.
As narrativas revelam a perseverança de uma equipe formada pelas repórteres Silvia Bessa e Marcionila Teixeira e pela fotógrafa Alcione Ferreira. Elas tiram essas pessoas da penumbra. Revelam como os pacientes vivem silenciosamente nas esquinas do Brasil. Contam como a hansen impõe a muitos pacientes humilhações, medos, angústias e limitações em virtude de uma sociedade mal-informada. Os personagens são cidadãos comuns que, muitas vezes, anseiam por um simples aperto de mão para se sentirem comuns.
Lagoa Grande

Tx. detecção de Lagoa Grande 12,0
Tx. detecção de Pernambuco 3,3
Tx. detecção do Brasil 2,4
Fonte: Sinan - 2006/ Ministério da Saúde |
“A lepra é uma questão de direitos humanos”, defende o embaixador mundial para a Eliminação da Hanseníase da Organização Mundial da Saúde (OMS), Yohei Sasakawa. Maior autoridade para a doença no mundo, Sasakawa preside a Nipon Foundation, de Tóquio (Japão), de onde falou para o Diario. O embaixador está entre os 15 especialistas entrevistados. São estudiosos de Brasília, Rio de Janeiro, São Paulo, Maranhão, Pernambuco e Minas Gerais. Eles qualificam os dados; as pessoas confirmam: a doença está mais viva do que nunca.
Situação no brasil
PERNAMBUCO
É considerado hiperendêmico entre menores de 15 anos e tem taxas muito altas, quase hiperendêmicas, no quadro geral dos pacientes de todas as idades. O Recife lidera o ranking das capitais com maior taxa de pacientes por residência. Está ainda no topo da lista das capitais com o maior número absoluto de casos novos entre menores de quinze anos (a taxa de pacientes por habitantes também é alta). O município de Lagoa Grande (Sertão) tem a maior taxa de novos casos registrados por ano: média de 12 por grupos de 10 mil pessoas. A média do Brasil não chega a três casos. Os índices são altos em municípios pobres e ricos, como Ipojuca - da praia de Porto de Galinhas
MARANHÃO
Enfrenta uma hiperendemia em todas as idades. Destaca-se como o estado do Nordeste com maior número de casos registrados em 2006, ano da última estatística consolidada pelo Ministério da Saúde. Foram 4.540. Ao lado do Recife, a capital do Maranhão, São Luís, tem a maior taxa de doentes por grupos de 10 mil habitantes, se considerado o ranking entre doentes menores de 15 anos das capitais (1.76). Essa é a chamada taxa de prevalência da doença. No Nordeste, fica em segundo quando considerada a taxa de doentes por habitantes de todas as idades. No interior, Amapá do Maranhão destaca-se pela alta incidência proporcional à quantidade de habitantes
PIAUÍ
Está classificado como hiperendêmico em todas as idades - no quadro geral e entre menores de 15 anos. No quadro geral, o Piauí tem a segunda maior taxa de detecção de casos novos no Nordeste (4.5 por cada 10 mil habitantes, em 2006). Em números absolutos, significa que o Piauí registrou aproximadamente 1.300 novos casos, sendo 144 entre menores de 15 anos. Tanto na capital, Teresina, como nas cidades do interior, pode-se acompanhar o drama dos doentes.
TOCANTINS
Está na segunda colocação no ranking brasileiro de estados com taxa mais alta de detecção de novos casos por ano. Em 2006, foram 10.3 casos descobertos a cada 10 mil habitantes. Em números absolutos corresponde a 1.382 pessoas diagnosticadas. No Norte, o Tocantins lidera o ranking de pessoas infectadas anualmente, seguido pelos estados de Roraima e Rondônia
PARÁ
Possui uma grande quantidade de pacientes e, por este motivo, tem situação preocupante, considerada hiperendêmica. No Pará, foram descobertos mais de 4.900 casos novos em 2006. Comparando a taxa de casos novos por habitantes de 1990 e a última taxa consolidada, a de 2006, vê-se que houve um aumento de mais de dois pontos percentuais (de 4.55 passou para 6.97)
SÃO PAULO
É o estado mais populoso do Brasil, no entanto, tem números elogiáveis quando se fala em hanseníase. Em 2006, o coeficiente de detecção de casos novos foi de apenas 0.51 - quatro vezes menos a média nacional. São Paulo tem a menor taxa do Sudeste (a maior é do Espírito Santo, 3.75 por 10 mil )
MATO GROSSO
Tem a mais alta taxa de novos casos de hansen por 10 mil habitantes no Brasil. Foram 14.8, enquanto a média do Brasil foi 2.4 em 2006. Em números absolutos, foram mais de 4 mil novos casos registrados no Mato Grosso
RIO GRANDE DO SUL
Tem a menor taxa de infectados por ano, conforme mostram as séries históricas. Em 2006, ficou com taxa de detecção, ou seja, de casos novos, igual a 0.18 em grupo de 10 mil habitantes. O Brasil, ressalta-se, teve no mesmo ano 2.49. O percentual de pacientes com idade inferior a 15 anos é irrelevante (equivalente a menos de 0)
Fonte: Secretaria de Vigilância Sanitária/ Ministério da Saúde