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Esta página reúne as dicas de português da colunista do Diario de Pernambuco Dad Squarisi, autora da coluna Dicas de Português. A página é atualizada sempre às segundas-feiras (com o conteúdo publicado pelo Diario no domingo anterior) e às quintas-feiras (com o conteúdo da coluna da quarta-feira anterior do Correio Braziliense). Para conferir os temas e todas as colunas já publicadas (desde o mês de abril), utilize o box ao lado. E boa leitura.

Leia as últimas dicas cadastradas:



Data de publicação: 14/05/2008

Vírgula intrusa

Assunto: Vírgula

Recado

"As palavras engraçadas fazem bem à saúde."

Haul Urban

Vírgula intrusa

A capa da Veja é pra lá de atraente. Trata do preço da saúde. O assunto interessa ao governo, aos empresários e aos brasileiros — pobres, ricos ou remediados. Mas...surpresa! A edição vendeu pouco nas bancas. Editores e repórteres, preocupados com o ibope, fizeram o que sabem saber: apurar os fatos.

Pergunta daqui, investiga dali, eureca! A vilã da história é a vírgula. O vermelhão da chamada não deixa o sinalzinho passar despercebido. Lá está: "A medicina avança, e salva mais vidas, mas está cada vez mais difícil para as pessoas, as empresas e os governos pagar esse progresso".

Vírgula antes do e? A conjunção detesta excessos. Econômica, dispensa a bengalinha: Trabalho e estudo. Vou a Brasília e depois a São Paulo. Os advogados visitaram o cliente na prisão e voltaram para o escritório.

Há exceção? Só uma. O e vai de dose dupla quando:

a. liga orações com sujeitos diferentes

b. sem ele, pode haver confusão na leitura

* Lula cumprimentou Dilma e o assessor se aproximou para abraçá-los.

Percebeu? O período tem duas orações com sujeitos diferentes. Um é Lula. O outro, o assessor. Uma leitura rápida dá a impressão de que Lula cumprimentou Dilma e o assessor. A ambigüidade é pecado mortal. Como escapar das chamas do inferno? A vírgula salva:

Lula cumprimentou Dilma, e o assessor se aproximou para abraçá-los.

Não é o caso da capa da Veja:

* A medicina avança, e salva vidas.

Quem avança e quem salva vidas é a medicina. Com o mesmo sujeito e sem risco de ambigüidade, a vírgula não tem vez. Xô, intrusa!

A medicina avança e salva vidas.


Enunciado desleal

Assunto: Ortografia

Humberto Soares Lemes quer entrar no serviço público pela porta da frente. Fez o que deve ser feito. Submeteu-se a concurso para disputar uma vaga de técnico de finanças e controle da Corregedoria Geral da União aplicado pela Esaf. Na prova de português, uma questão lhe pôs as barbas de molho. Ei-la:

Exige-se acento circunflexo nas terceiras pessoas do plural do presente do indicativo e do subjuntivo dos verbos crer, dar, ler e ver e seus derivados. Qual das opções atualmente foge da regra acima?

a) Felizes os que creem.

b) Não me deem conselhos.

c) Ondas veem e vão.

d) Os jovens de hoje leem pouco.

e) Escritores releem seus escritos muitas vezes.

O gabarito apontou a letra c. Está certo?

Falha original

O erro se encontra no enunciado. A ordem diz: "Exige-se acento circunflexo nas terceiras pessoas do plural do presente do indicativo e do subjuntivo dos verbos crer, dar, ler e ver e seus derivados". Misturou alhos com bugalhos. A regra abarca os quatro verbos. Mas em modos diferentes.

A regra:

Se na 3ª pessoa do singular o verbo terminar em ê, na 3ª do plural dobra-se o e e mantém-se o acento: ele vê (eles vêem), ele lê (eles lêem), ele crê (eles crêem), ele dê (eles dêem).

Reparou? Ver, ler e crer ganham o chapéu no presente do indicativo. Dar, no presente do subjuntivo. Foi aí que o examinador pisou a bola. Ele generalizou. Disse que a 3ª pessoa do plural do indicativo e subjuntivo exibem acento. Falso.

Pontos nos ii

No presente do indicativo, só a 3ª pessoa do plural de crer, ler e ver exibe chapéu: ele crê ( eles crêem), ele lê (eles lêem), ele vê (eles vêem).

O presente do subjuntivo não tem nada com a história: que eles creiam, leiam e vejam.

O verbo dar joga em outro time. A 3ª pessoa do plural do presente do indicativo dispensa o acento (eles dão). Só o presente do subjuntivo encaixa na regra: ele dê, eles dêem

Moral da história

A generalização do enunciado confundiu os candidatos. Não vale.


A substituta de Deus

Assunto: Verbo

Recado
"Mãe é mãe. Genitora é a tua. Progenitora é a vó."
Carlos Lacerda

A substituta de Deus

Deus criou o céu e a Terra. Tudo pronto, povoou o planeta de homens, mulheres e crianças. Deu asas à imaginação. Variou a cor da pele, dos olhos e do cabelo. Não coincidiu altura nem peso. Personalidades também tiveram a marca da diferença. Introvertidos, extrovertidos, carrancudos, sorridentes, sérios, bem-humorados, mal-humorados — todos ganharam vez. O mundo se cobriu de cores, vozes e movimentos múltiplos e harmoniosos.

Ufa! No sétimo dia, o Senhor descansou. No oitavo, deu uma espiadinha no andar de baixo. Viu, então, o tamanho da obra. Sentiu medo. Como cuidar de tantos filhos? Pensou. Pensou. Pensou. A luz se fez. Ele inventou a mãe. A criatura desempenharia o papel divino. Estaria nos lugares onde o Criador não podia estar.

Ela superou as expectativas celestes. Tem o coração dessssssssssssssssste tamanho. Nele sempre cabe mais um, mais dois, mais mil. Zelosa, ela fica de olho nos rebentos. Emociona-se com o carinho dos outros. Quem lhe beija o filho lhe adoça a boca. A moçada corresponde. "Só existem duas opiniões", dizem os gratos, "a da mãe e a errada."

Mãe coruja

Para a mãezona, os garotões são os mais lindos, os mais perfeitos e os mais inteligentes do mundo. Por isso a chamam de mãe coruja. A designação vem da fábula A águia e a coruja, de La Fontaine. Conhece? As duas aves celebraram um tratado de paz. A primeira prometeu não devorar os filhotes da segunda. Como não os conhecia, pediu uma descrição segura:

— Nada mais fácil que identificá-los, disse a coruja. Basta prestar atenção na beleza. São os filhotes mais lindos, mais encantadores, mais elegantes, mais cheios de sedução entre os bichos de penas existentes na Terra.

Dias depois, a águia viu uns mostrengos no ninho. Não poderiam ser os filhos da outra, claro. Devorou-os. A coruja, desconsolada, foi tomar satisfação.

— Não culpe senão a você, respondeu a comilona. Aqueles feiosos assustavam. Longe estavam da descrição feita por você.

Moral da história: o belo, para o sapo, é a sapa.

Fiat lux

"Parirás com dor", disse o Todo-Poderoso. Antes de falar, pensou duas vezes. Tinha ouvido falar nas manhas do verbo parir. Queria respeitá-las. Puxou da memória. Fiat lux! Tudo ficou claro. Parir, embora não pareça, tem todas as pessoas. Mas algumas são bem esquisitas.

O xis da questão é o presente do indicativo. A primeira pessoa é "eu pairo". Já imaginou? Confunde-se com o verbo pairar. Uma grávida voando pode dar confusão. Saída: só se usam as formas em que o r é seguido de i: parimos, paris, pari, pariram, paria, paríamos, parirei, pariria, parisse, parirmos. E por aí vai.

Bem-vindo, bebê

Nasceu o filho? Viva! A festa rola. Não faltam flores, presentes, comidas gostosas. Câmeras clicam sem parar. Sorrisos se oferecem pra dar e vender. Mas sobra pra língua. Aqui e ali dizem "a mãe deu à luz a um menino". Nem pensar. O a sobra. A forma abençoada é "dar à luz um filho". Significa trazer ao mundo um garotão.

Um ou dois

Gêmeo é palavra que vale por duas. Pode dar nome às crianças nascidas do mesmo parto. Pode, também, designar cada uma delas: Cristiane Torloni teve gêmeos. Anos depois, um dos gêmeos morreu atropelado.

Mais de dois

Nasceram mais de dois bebês? Bem-vindos! E mãos à obra. Multipliquem as fraldas, as mamadeiras, os berços. E relembrem as palavras que nomeiam a meninada: trigêmeos (três), quadrigêmeos (quatro), quíntuplos (cinco), sêxtuplos (seis), sétuplos (sete), óctuplos (oito), nônuplos (nove), décuplos (dez).

Ufa!

Traço cultural

Para os orientais, os filhos são bênçãos do Senhor. A mulher é bem-vinda. O homem é superbem-vindo. Por quê? Na cultura oriental, a obrigação de cuidar dos pais na velhice recai sobre o filho. A filha toma conta dos sogros.





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