Esta página reúne as dicas de português
da colunista do Diario de Pernambuco Dad Squarisi, autora
da coluna
Dicas de Português. A página
é atualizada sempre às segundas-feiras
(com o conteúdo publicado pelo Diario no domingo
anterior) e às quintas-feiras (com o conteúdo
da coluna da quarta-feira anterior do Correio Braziliense).
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Data de publicação: 01/07/2009
De volta ao passado
Assunto:
Verbo
Recado
"Buscar informação na internet é como beber água num hidrante do Corpo de Bombeiros."
Mitchell Kapor
De volta ao passado
Valha-nos, Deus! Domingo o continente americano acordou no passado. Militares hondurenhos deram golpe de Estado. Tiraram o presidente da cama e, sem esperar que ele trocasse de roupa, levaram-no ao aeroporto. De pijama, o ex-todo-poderoso desembarcou na Costa Rica. Lá obrigaram-no a assinar carta de renúncia. Quando se viu livre, a desamparada criatura pôs a boca no mundo: "Fui vítima de sequestro brutal, sem nenhuma justificativa".
A detenção e o exílio de Manuel Zelaya fizeram dois estragos. Um: lembraram tristes episódios do século 20. No período, contavam-se nos dedos os países da América Latina que escaparam de regimes de força. Graças ao sopro de democracia que varreu o continente, quartelaços pareciam página virada. Pareciam. Não são. O outro: puseram à prova a conjugação do verbo depor.
Depor é filhote de pôr. A coisa pega no subjuntivo. Muitos dizem "se eu pôr, se eu depor". Nada feito. O futuro do subjuntivo se forma do pretérito perfeito do indicativo. Mais precisamente: da 3ª pessoa do plural menos o -am final. Veja:
Pretérito perfeito: eu depus, ele depôs, nós depusemos, eles depuser(am)
Futuro do subjuntivo: se eu depuser, ele depuser, nós depusemos, eles depuseram
Como pôr, depor & familiares não têm z no radical, as formas em que o z soa se escrevem com s (pus, depus; pôs, depôs; se eu puser, depuser; se eu pusesse, depusesse).
Moral da opereta: Pisar a democracia pega tão mal quanto pisar a língua. Xô, satanás!
O primeirão
Assunto:
Ortografia
Hoje começa julho. Olho vivo! O primeiro dia do mês tem privilégio. É o único que se escreve em numeral ordinal (1º de janeiro, 1º de fevereiro, 1º de março, 1º de julho). Os outros jogam no time dos cardinais: 2 de fevereiro, 7 de setembro, 25 de dezembro.
Nome enganoso
A gripe suína matou um brasileiro. Ele passou uma semana em Buenos Aires e voltou doente. Demorou a procurar socorro. Resultado: deu adeus à vida. Os familiares precisaram ficar em quarentena domiciliar. Embora o nome fale em 40, o período de recolhimento é de 7 dias.
Injustiça
"A gripe suína fez uma vítima fatal", anunciou Ana Paula Padrão no Jornal da Record de segunda. Bobeou. Fatal significa "que mata". A gripe é fatal. O falecido, coitado, é vítima que perdeu a vida. Não roubou a vida de ninguém.
Leitor pergunta
Tenho dificuldade na interpretação de texto. Gostaria que me desse uma dica capaz de me ajudar a me sair melhor nos concursos. Observo que a gramática é quase sempre relacionada aos textos.
Soraia Cristina Silva, Formosa
Soraia, a prova de interpretação de textos testa a compreensão. O examinador quer saber se o candidato entente o que lê. Aparece, por exemplo, a frase "A tempestade chegou furiosa, antecedida pelo vento frio da noite". Você precisa assinalar a afirmação certa sobre o texto lido:
O vento veio antes da tempestade.
O vento veio depois da tempestade
O vento e a tempestade chegaram juntos.
Vento e tempestade não têm relação.
A palavra-chave da resposta é antecedida. Pra acertar a questão, o candidato tem de saber que antecedida signfica "que vem antes". Aí, é mole. A letra a merece nota 10.
Ops!
Assunto:
Verbo
"O governo aumentou o prazo para que os descontos possam vigir até o fim do ano", anunciou o Jornal das Dez, da GloboNews. Nada feito. Viger pertence à segunda conjugação. Preguiçoso, não tem as formas em que o gê soa guê (vigo, viga): Os descontos vigem até hoje. Prazo para que os descontos possam viger até o fim do ano.
Cruz-credo
E o Senado, hein? Está num atoleiro só. As denúncias não têm fim. A cada dia aparece uma mais cabeluda que a outra. Nenhuma excelência escapa. Basta procurar. Nem a língua é poupada. Vale o exemplo de Heráclito Fortes. "Alguns atos geraram despesas ao erário público", disse o primeiro-secretário da Casa com todas as letras. Baita pleonasmo, não? Erário público joga no time de subir pra cima, descer pra baixo, hábitat natural. Todo erário é público, toda subida é pra cima, toda descida é pra baixo, todo hábitat é natural. Bata erário, hábitat, subir e descer.
Plural pra lá de traiçoeiro
Assunto:
Plural
Recado
"Livro não é apenas presente. É passado e futuro."
Anúncio de livraria
Um dos melhores programas da tevê? É o GloboNews Painel. Três especialistas debatem o assunto do momento. O entrevistador, William Waack, conduz a discussão com habilidade, conhecimento e firmeza. Mas, no final, tropeça. Invariavelmente diz:
— Agradecemos as participações de fulano, fulano e fulano.
Eis a armadilha na qual muitos caaaaaaaaaaaaaaaaaaaaem. Ela dá as caras quando uma propriedade se refere a mais de um termo da oração. Na frase de William Waack, o número não varia. Por quê? Há a participação de cada uma das três pessoas.
Confuso? Outros exemplos ajudam a entender o sofisticado conceito. Um deles é do mestre de cerimônias. Corpo ereto e voz empostada, ele anuncia "as presenças" de personalidades presentes ao evento. Nada feito. Cada pessoa tem uma presença. O jornal informa: "O Real Madrid confirmou as contratações de Kaká e Cristiano Ronaldo". Xô, plural. Houve a contratação dos dois jogadores. Em bom português: contratou-se cada um dos atletas.
A coisa não para aí. Quer ver? A universidade divulgou o nome dos aprovados (não: os nomes). A polícia investiga a identidade dos assaltantes (não: identidades). Chamou a atenção a ausência do presidente e do vice (não: ausências). Dunga confirmou a escalação de Robinho, Ramires e Kaká (não: escalações). Cerca de 40 mil pessoas vão perder o emprego com a proibição de importar pneus usados (não: empregos).
Crime desvendado
Ufa! Finalmente a família de Patrícia Franco teve uma resposta. Há um ano, o carro da engenheira foi encontrado submerso na água. Vazio. O corpo da moça não foi localizado. Mas investigações confirmaram as suspeitas — o envolvimento de quatro PMs. "As balas são compatíveis com o calibre do revólver de um dos policiais que estavam na barreira". A frase deu nó nos miolos dos leitores. Não seria "estava na barreira"?
A expressão um dos que é flexível como arbusto. Topa o singular e o plural. "Não sou um dos que traem", poderia ter dito o governador da Carolina do Norte. "Não sou um dos que trai" seria a outra forma. Ambas estão gramaticalmente certas. Mas o sentido muda um pouco. Ao usar o singular, o autor diz que a ação se refere a um só indivíduo. O plural, ao contrário, a todos.
Vai outro exemplo. Lula é um dos presidentes que sorri muito. No caso, dá-se realce a um. Daí o singular. Lula é um dos presidentes que sorriem muito. Tradução: Lula é um dos tantos presidentes hienas. Por isso o emprego do plural.
Cuidado! Muito cuidado! A generalização é burra. Às vezes, o verbo se refere a um só indivíduo. No caso, precisa ficar no singular. Quer ver? O Tietê é um dos rios da capital paulista que deságua no Paraná. (Ora, só o rio Tietê deságua no Paraná. Aí, não há saída. O singular é obrigatório.) Macbeth é uma das peças de Shakespeare em cartaz no CCBB. (Está claro? Só uma das tantas peças de Shakespeare está em exibição no CCBB.)
É isso. Afora casos singulares como o do rio Tietê e da peça Macbeth, um dos que é expressão-gilete. Corta dos dois lados. Ao usar o plural, a frase deu ênfase aos "policiais". Se fosse singular, o destaque cairia no "um".