Talvez seja porque os sócios-fundadores sejam cinéfilos, cineastas e irmãos. Ou porque exista um nicho no Brasil a ser ocupado por uma distribuidora disposta a uma ruptura com as toneladas de filmes comerciais lançados no mercado nacional e a uma convergência com o cinema de autor, independente e marginal porque fora da hegemonia. O certo é que a VideoFilmes, produtora fundada na década de 80 e distribuidora de DVDs desde 2004, se sobressai justo por investir em títulos diferenciados, pertençam eles ou não ao acervo de produção da casa. Cinco filmes recentes, dois deles da novata Coleção VF, atestam o zelo da empresa e incidem luz em temas que não enfraquecem.
Caso, por exemplo, da questão do exílio, ou o desterro, como prefere Walter Salles, o diretor de Terra estrangeira ao lado de Daniela Thomas. "Quisemos revisitar a data, porque são dez anos de estréia do filme e também porque a questão de que o filme trata, sentir-se em casa ou não no Brasil, e todas as formas de exílio e desterro, guardou uma atualidade que nem nós esperávamos", comenta Walter em conversa por telefone. "Fizemos uma telecinagem especial, mixagem em Dolby Stereo, um documentário que a Daniela fez sobre o filme que na verdade não é um 'making of' e sim um 'pensando em on', sobre o processo em que o filme foi construído", acrescenta o diretor, que comanda a VideoFilmes ao lado do irmão João Moreira Salles.
Em Notícias de uma guerra particular, de João e Katia Lund, há uma faixa de áudio, assim como em Terra estrangeira. "Diários de motocicleta, por exemplo, não tem faixa. É difícil olhar um filme que se acaba de realizar, é preciso distanciamento histórico para fazer um comentário. Já voltar a um filme dez anos depois é exercício extremamente interessante", pondera Walter. Sobre a iniciativa da distribuidora, ele fala numa confluência de interesses, totalmente positiva "para quem gosta de um cinema que entretém e também faz pensar". "Tínhamos o desejo de não só fazer com que os longas e documentários produzidos por nós chegassem ao público através de DVDs caprichados, mas também de abrir possibilidade de trazer filmes que apreciamos, como Memórias do desenvolvimento, de Tomaz Gutierrez Alea, e Iracema, de Jorge Bodanzky". explica.
TERRA ESTRANGEIRA
O casal abraçado numa praia, um navio encalhado no horizonte... o emaranhado de concreto de um dos cartões-postais de São Paulo... um carro se perdendo numa estrada, com Vapor barato ao fundo. As reminiscências de Terra estrangeira são inúmeras, com o preto & branco da fotografia de Walter Carvalho as robustecendo. Sem dúvida, é uma das obras que definem o período da retomada do cinema nacional, com inúmeras lembranças afetivas ligadas a ela. Por essa e outras, seus dez anos de lançamento (1995-2005) são celebrados num DVD duplo imperdível. Há uma faixa de comentários em áudio com os diretores Walter Salles e Daniela Thomas e o crítico Carlos Alberto Mattos (recurso ainda pouco explorado por aqui), o documentário De volta a Terra estrangeira e o teste de Fernando Alves Pinto para ganhar o papel de Paco, o jovem que sai do Brasil em 1990 e migra para Portugal, onde conhece Alex (Fernanda Torres). Road movie de amor, instantâneo, mas não refém, de um episódio nebuloso - Collor e o confiscodas poupanças - e filme sem amarras estéticas, este é para integrar qualquer coleção.
Terra estrangeira (Brasil, 1995). De Walter Salles. Fernanda Torres, Fernando Alves Pinto. 100 min. R$ 46,90.
SEPARAÇÕES
O filme de Domingos de Oliveira já havia sido disponibilizado em DVD, porém não com esse requinte. Domingos é, por vezes, descrito como o "Robert Altman" ou o "Woody Allen" brasileiro, mas sua obra, desde Todas as mulheres do mundo, aponta para um jeito único de pensar o cinema, sem muita fronteira com o trabalho exercido na ribalta. Separações, por exemplo, deriva-se da peça homônima, mantém uma estrutura parecida com a teatral mas ao mesmo tempo consolida-se como um filme de cadência própria. A trama tem Domingos como Cabral, um diretor teatral casado, mas envolvido com uma atriz mais nova (Maria Ribeiro). Sua esposa (Priscila Rozenbaum, sempre ela, a musa e mulher do diretor), resolve então procurar outras pessoas, o que deixa o protagonista na dúvida. Os extras contemplam a montagem teatral, uma conversa com os atores e explanações de Domingos acerca dos dois suportes por ele utilizados para contar uma mesma história.
Separações ( 2002). De Domingos de Oliveira. Priscila Rozenbaum, FábioJunqueira. 116 min. R$ 42,90
NOTÍCIAS DE UMA GUERRA PARTICULAR
Há no Brasil uma tendência à espetacularização. Com esse documentário de Katia Lund e João Moreira Salles, ocorreu mais ou menos isso: muito se falou sobre a polêmica "mesada" que Salles teria dado a Marcinho VP, traficante que mandava no morro Dona Marta, na zona sul do Rio de Janeiro, pouco se comentou sobre o filme, que é obrigatório. Notícias de uma guerra particular é uma contundente radiografia sobre o contexto singular em que se insere a capital carioca: maravilha de cidade que abriga pequenas guerras civis cotidianas, disputadas por quem, do alto dos morros que circundam o Rio, considera-se marginalizado e pelos que se arvoram a defender, deles, a sociedade. Duplo, o DVD resgata o documentário Santa Marta: duas semanas no morro, realizado por Eduardo Coutinho em 1987, e, no segundo disco, apresenta a íntegra de várias entrevistas.
Notícias de uma guerra particular ( 1998/1999). De Katia Lund e João Moreira Salles. 56 min. R$ 46,90.
JUSTIÇA
Justiça descortina a rotina do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro através de um olhar que mira tanto os que ali trabalham e convivem como os que por lá estão apenas de passagem. Em entrevista ao Diario no ano passado, o autor, pesquisador e crítico Jean-Claude Bernardet se referiu ao filme de Maria Augusta Ramos como um exemplo de documentário que foge do formato "pergunta-resposta" e lança questões pertinentes sobre o funcionamento do Judiciário num país como o Brasil. Ainda, a diretora explora os silêncios e a câmera como observadora, perdida no ambiente inóspito de salas esbranquiçadas e diálogos entre réus e juízes. O DVD é duplo, com o filme no primeiro disco, e vários itens no segundo: entrevistas, depoimentos dos personagens utilizados pela diretora, uma conversa com a própria Maria Augusta, o debate realizado na pré-estréia e as audiências adicionais.
Justiça (Brasil/Holanda, 2004). De Maria Augusta Ramos. 107 min. R$ 55,90.
A BATALHA DE ARGEL
O filme é politizado, forte e engajado como poucos hoje em dia. Recriação ficcional dos eventos que catalisaram a guerra da Argélia, então uma colônia francesa em busca de independência em meados da década de 50, A batalha de Argel é filmado com a urgência do documentário, como se as estratégias usadas pelo exército francês e pela Frente de Libertação Nacional (FLN), lados antagônicos desse conflito campal, houvessem sido registradas por um Jean Rouch, pai do cinéma vérite, o cinema verdade. Entre 1954 e 1957, o movimento de franceses e argelinos é visto por meio de vários personagens, que despertam no público a vontade de ir além e saber mais da emancipação de uma colônia. Entre os extras, um documentário sobre Pontecorvo e diversas entrevistas.
A batalha de Argel (La bataille d'Alger, Argélia/Itália, 1966). De Gillo Pontecorvo. Brahim Haggiag, Saadi Yacef. 121 min. R$ 63,90.
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