Um australiano soprando um instrumento que só pode ser descrito como um cabide de vidro depois de um acidente rodoviário, do qual tirava um som que nunca se ouviu antes, acompanhado de outro australiano com um tamborim mágico que pode soar como tímpanos de uma orquestra sinfônica ou como um tamborim mesmo, dependendo do toque e da amplificação e do uso de um spray misterioso. Só os dois, seus instrumentos estranhos e sua parafernália eletrônica sobre o palco. Um pequeno finlandês entoando yoik, música lamentosa de um povo indígena de sua terra, acompanhado por dois enormes finlandeses, um tocando uma espécie de cavaquinho e outro um teclado, ambos eletrônicos, numa fascinante mistura de encantação primitiva com Phillip Glass. Vários excelentes grupos da Colômbia e da Argentina, também misturando folclore com novidade, só para nos penitenciarmos por não conhecer quase nada do que fazem nossos vizinhos. E gente nossa. Um grupo local com o nome pouco baiano de Rowney Scott Trio. Scott nos saxes, um pianista extraordinário e percussão. Vó Maria, que foi casada com o Donga e fez seu primeiro CD com 92 anos, ainda inteira e animada. O mineiro Ladston do Nascimento. A carioca Fernanda Cunha cantando Johnny Alf e Suely Costa, com Cristovão Bastos no piano. Os gaúchos Vitor Ramil, das ramilongas e outras belezas, e o Bataclan F.C., que não é Futebol Clube mas Faz de Conta, com seu roque portoalegrense. Chico Cesar com sua poesia e as cordas nordestinas do Quinteto Paraiba. E a incrível Itiberê Orquestra Família, dezenove jovens músicos liderados por Itiberê Zwarg, que há anos toca com o Hermeto Pascoal, destrinchando arranjos hermetianos como gente grande. Tudo isso e muito mais aconteceu em Salvador da Bahia na semana passada, durante mais um Mercado Cultura, uma iniciativa da organização Via Magia com apoio do estado, do município e de patrocinadores e que desde a primeira vez (este foi o seu sexto ano) conta com a colaboração do Benjamin Taubkin, que é quem garimpa e seleciona os grupos que se apresentam para programadores culturais do mundo todo, e foi o responsável pela qualidade e variedade do que vimos. E depois dos espetáculos principais íamos todos para o Pelourinho ouvir samba de roda.
Também nos levaram ao bairro da Liberdade, onde se estuda e cultua as mais puras tradições afro-brasileiras na Bahia e onde, antes de entrarmos no terreiro de Mãe Hilda, alguém gritou: "Prenderam o Beethoven?" Era apenas um cachorro, amarrado para não incomodar os visitantes, mas depois de tudo que tínhamos ouvido não nos surpreeenderia se fosse o espírito do bom Ludwig que baixara no terreiro e se recusava a ir embora sem participar do evento, nem que fosse num agogô elétrico.
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