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Um crítico à (boa) moda antiga
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LIVRO // Reações Psicóticas reúne uma pequena amostra da força corrosiva dos textos de Laster Bangs, uma lenda do jornalismo musical |
RENATO L DA EQUIPE DO DIARIO |
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O maior crítico de rock de todos os tempos. O melhor escritor americano da segunda metade do século 20. O mais isso e aquilo. É assim, cercado de hipérboles, que Lester Bangs desembarca no Brasil. Semana passada, a editora Conrad colocou nas livrarias Reações Psicóticas, um resumo da coletânea Psychotic Reactions and Carburetor Dung, lançada no mercado ianque há quase 20 anos. O volume inaugura a Coleção Iê Iê Iê, dedicada à obra de grandes críticos de música até hoje inéditos em português.
A maneira mais comum de apresentar Lester Bangs aos que o desconhecem é através de Quase Famosos, de Cameron Crowe. Ele - interpretado por Philip Seymour Hoffman - é o jornalista cult que ensina o jovem protagonista a ser duro e implacável com os superstars. Sucesso de bilheteria, o filme só fez aumentar a lenda que já cercava seu nome, a tal ponto que, hoje, é preciso sangue frio para não cair na mistificação e no exagero.
Lester Bangs nasceu na Califórnia em 1948 e morreu em 82, vítima de overdose de medicamentos durante um tratamento para se livrar do alcoolismo. Sua carreira de crítico começa no final dos anos 60, quando passa a colaborar em veículos da pequena (Rolling Stone, Village Voice, Creem...) e grande (Playboy, NME...) imprensa. Influenciado por Jack Kerouac, Burroughs e outros mentores da geração Beat, ele forjou um estilo onde acidez e romantismo conviviam sem estranheza.
Para entender o impacto que a escrita de Bangs causou, é preciso situá-lo no tempo e no espaço. Seu auge no jornalismo coincidiu com o período de maior poder da indústria do disco, a década de 70, firmemente ancorado num padrão que disfarçava a mediocridade sob a pompa pseudo-sofisticada e grandiloqüente do progressivo (Yes, Emerson Lake and Palmer...) e dos supergrupos (Led Zeppelin, Pink Floyd...). Poucos tiveram a coragem de remar contra a corrente e entre esses heróis ainda mais raros foram os que cuspiram sua raiva com o talento de Bangs.
Os textos reunidos em Reações Psicóticas oferecem uma mostra do seu poder corrosivo - e, parausar o título da coluna de Dolores aí embaixo - contraditório. Bangs incensa o Astral Weeks de Van Morrison, brinda a cafajestice de um grupo canadense, o Guess Who, ironiza a cabecice do Jethro Tull, relaciona o sucesso do Krafwerk à outra famosa invenção alemã (a anfetamina), destila adoração e ódio intenso contra Lou Reed e Iggy Pop e foge ao sentimentalismo kitsch gerado pelas mortes de Elvis Presley e John Lennon.
Nesses dias corporativos, parece impossível que um jornalista trave o diálogo chapado de Bangs e Lou Reed, com perguntas do tipo "você injetou anfeta antes do show de hoje à noite?" e gritos de "cuzão" de parte-a-parte. Mas reconhecer a delícia de passagens como essa não significa contemporizar com um hype que o próprio Lester odiaria: não, de forma alguma ele é o maior escritor americano de qualquer época. Não, copiá-lo ao pé da letra não é a saída para os aspirantes a críticos de música. Os tempos são outros, o rock é outro e precisamos de um Lester Bangs diferente para enfrentar os inimigos de agora.
Serviço
Reações Psicóticas - Lester Bangs
Editora - Conrad
Preço - R$ 19,90
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