O secretário-geral da Presidência da República, o mineiro Luís Dulci, é o ministro mais discreto a ocupar uma posição estratégica no Palácio do Planalto. Fundador do PT e ex-deputado federal, faz parte do núcleo de colaboradores do presidente Lula com acesso direto ao presidente e tem assento na coordenação política do governo.
Nesta entrevista ao Correio, Dulci afirma que o governo não vai ceder à lógica da oposição e pretende manter o rumo da busca do crescimento com melhor distribuição de renda para o povo, investindo na geração de emprego, na educação e no combate à pobreza. "A melhor estratégia para um governo popular e mostrar seus resultados e submetê-lo à análise da sociedade", afirma.
Ex-militante do Movimento de Emancipação do Proletariado (MEP), nos tempos de estudantes na UFRJ, Dulci foi dirigente sindical e secretário da Cultura da Prefeitura de Belo Horizonte. Dirigente petista que acompanhou toda a trajetória do PT, trabalhou na coordenação da campanha de Lula em 2002 - juntamente com JoséDirceu e Antônio Palocci - e hoje tem um papel fundamental na construção do discurso político do governo.
Com a cassação José Dirceu, a situação política do governo no Congresso tende a melhorar?
É evidente que José Dirceu foi cassado injustamente, sem nenhuma evidência de irregularidade. Na verdade, as oposições lançaram tantos ataques e acusações falsas nos últimos meses, que elas precisavam cassar o deputado José Dirceu, mesmo sem provas, para dar uma aparência de credibilidade às denúncias feitas. Considero danoso para a democracia brasileira um deputado que teve mais de 500 mil votos tenha sido cassado por motivação exclusivamente eleitoral.
O clima político vai arrefecer ou a luta contra a oposição continuará intensa até as eleições de 2006?
As oposições anteciparam artificialmente a disputa eleitoral e impuseram um tratamento à questão de José Dirceu de acordo com a lógica eleitoral, e não jurídica, como deveria ser. Então, eu até gostaria que as oposições tivessem maior sensatez e fizessem o trabalho de oposição, que é legítimo, sem forçar a mão para tratar de assuntos que serão naturalmente tratados noprocesso eleitoral antes da hora. Infelizmente, não acredito que isso aconteça. A análise da economia, dos programas sociais e da política externa está sendo feita pela oposição de acordo com uma lógica mesquinhamente eleitoral. Temo que não haja uma mudança de qualidade e que o injusto sacrifício de José Dirceu seja em vão.
O presidente Lula manteve uma certa distância do caso e não se empenhou diretamente neste processo?
A máquina pública não poderia ser usada para interferir numa decisão autônoma do Legislativo. Mas o presidente declarou diversas vezes, de forma enfática que discordava do modo como o processo estava sendo conduzido. Ele teve uma posição muito clara em defesa do Dirceu. Gradativamente, vai ficar claro que Dirceu foi vítima de uma injustiça.
A crise política causou estrago na popularidade do presidente. Como o governo pretende recuperar-se para as eleições de 2006?
Todo governo deve ser avaliado pelos seus resultados e não pelos ataques da oposição. O governo Lula tem resultados extraordinários para mostrar ao país. Os dados da Pnad divulgados na semana passada comprovam que o presidente está cumprindo seus principais compromissos, como fazer o país crescer, gerar empregos, distribuir renda. Só em 2004, o presidente Lula reduziu a pobreza no Brasil em 8%. A Pnad também revela que em menos de três anos de governo já são 3,8 milhões de novos empregos. O governo FHC, nos seus oito anos, teve uma média mensal de 8 mil empregos, contra 104 mil do governo Lula. É com isso que nós vamos nos apresentar. A melhor estratégia eleitoral para um governo popular é mostrar seus resultados e submetê-los a análise da sociedade. Quanto mais informarmos à sociedade, maiores serão nossas chances.
Por que, então, o governo não consegue passar para a população as suas realizações?
O governo tem procurado informar a sociedade sobre suas ações, mas a crise política, explorada de maneira sectária pelas oposições, acabou obscurecendo todos os demais aspectos da vida brasileira. Há resultados econômicos e sociais espetaculares. O Bolsa-Família vai terminar o ano atendendo quase nove milhões de famílias. Eu viajei a Nova York com o presidente Lula e pude testemunhar que o Bolsa-Família é uma referência internacional em programas de combate à pobreza. Mas a crise política chegou num paroxismo tal que ela ocupou todo o cenário. Tem uma série de outras coisas boas e positivas para o país e que ficaram fortemente secundarizadas. Há uma saturação com o excesso de denúncias vazias, já são mais de cem, e ninguém tem a dignidade de reconhecer que aquela denúncia é falsa.
O governo pretende montar um palanque amplo em 2006 ou permanecer apenas com os aliados históricos da esquerda?
O nosso esforço será fazer de novo uma aliança de centro-esquerda, buscar o apoio das forças políticas de centro. Acreditamos que isso será possível pela força política do presidente Lula, pela legitimidade social que ele tem. Depois de seis meses de verdadeiro massacre, ele conserva importante patamar de apoio. Gostaríamos de contar com o PMDB na aliança. Acreditamos que pela tradição do PMDB, pela herança do velho MDB, pela participação no ministério, é possível a aliança com o PMDB. Em 2005, quando o governo esperava votar novas reformas e projetos no Congresso, se viu surpreendido por uma crise política.
Onde é que o presidente Lula errou?
As oposições tentaram utilizar a crise política para paralisar o país, mas não conseguiram. A crise permaneceu na esfera política. O Brasil continuou avançando no campo econômico e social. Esse era o objetivo da oposição, a partir da crise política, tentar paralisar o país. No que diz respeito as votações do Congresso, a oposição conseguiu seu objetivo. Mas em tudo aquilo que dependia do Executivo, o país continuou avançando. Eu não concordo com essa legítima pergunta. Eu não concordo com ela.
Não houve erro?
O governo soube reagir, soube ser criativo e não permitiu que a oposição, que estava apostando no quanto pior melhor, utilizasse a crise política para paralisar o país, que não parou. O país continuou crescendoe avançando. A Pnad, na ponta do lápis, comprova isso.
Mas o PIB caiu no terceiro trimestre?
Todos nós sabemos que a economia tem suas oscilações conjunturais. Mas o segundo semestre foi excelente e no quarto a economia voltará a crescer. O fundamental é que o Brasil mantenha um ciclo sustentado de crescimento e dele não vai sair. É preciso crescer com estabilidade. Não há mais espaço no mundo de hoje para crescer com inflação alta. Não devemos em hipótese alguma abrir mão do controle da inflação e da austeridade fiscal, mas devemos estar abertos a medidas sensatas que possam tornar o ritmo de crescimento mais adequado. Isso está no centro do debate. Voltando a questão anterior. Na semana passada, no meio de toda, a crise os principais líderes do PSDB como Geraldo Alckmin e FHC disseram que o Brasil estava parado. É legítimo, é um direito que eles tês. Eles confundiram realidade com desejo.
Qual vai ser o discurso, a mensagem que o governo vai utilizar em 2006 para derrotar os tucanos?
Essa preocupação deveser mais deles do que nossa. O conjunto da sociedade analisa o governo pelos resultados práticos que ele é capaz de apresentar. O governo Lula é um governo diferente e melhor que os anteriores. Isso foi comprovado pela Pnad. Quem deve estar preocupado em encontrar um discurso para disputar são as oposições. O governo vai mostrar o que fez e propor que o país continue avançando, no rumo da justiça social. Isso é um problema para as oposições, porque certamente não vão disputar as eleições com o discurso que fizeram nos últimos seis meses.
Com os programas sociais, o governo tem colhido bons resultados nas camadas de renda mais baixa. Mas na classe média, que usufrui pouco dos serviços públicos e paga muito imposto, não ocorre o mesmo. Como o governo pretende melhorar seu desempenho junto à classe média?
Uma política que beneficia setores populares, mas que atinge a classe média mais modesta, é a política de valorização do salário mínimo. Mas é verdade que a classe média perdeu muito ao longo das duas últimasdécadas. É preciso recuperar. Nós estamos fazendo isso, através de políticas públicas, como, por exemplo, o ProUni, que dobrou o número de vagas nas universidades. A classe média quer ter seu filho na universidade e muitas vezes não tem condição de pagar uma escola privada. Uma parte da classe média também se beneficiou da melhoria no serviço de saúde, de saúde bucal, por exemplo, com o programa Brasil Sorridente. Sobre a questão do Imposto de Renda, infelizmente a nossa estrutura tributária é injusta. Enviamos ao Congresso uma proposta para taxar as grandes fortunas, mas não foi aprovada.
Passada a crise entre os ministros Palocci e Dilma em torno do ajuste fiscal, como fica posta no governo a questão da taxa de juros e do superávit primário?
O governo adotou uma política econômica que trouxe bons resultados. E é inovadora, ao contrário do que dizem os tucanos. Por muitos anos houve um impasse na estratégia de desenvolvimento. De um lado, os que defendiam crescimento com inflação; do outro, os que abriam mão de crescer para não prejudicar a estabilidade monetária. Nossa política econômica conseguiu uma nova equação: crescimento com estabilidade. Evidente que isso tem oscilações conjunturais, mas o rumo estratégico está assegurado. Não há ninguém no governo que queira abrir mão do controle inflacionário ou adotar atitudes demagógicas quanto à taxa de juros para crescer de maneira artificial. Vamos continuar com essa estratégia. No ano que vem, estão dadas as condições para um crescimento superior ao de 2004 e ao de 2005. Desta vez, o crescimento é com geração de emprego, ao contrário do período neoliberal, com surtos de crescimento sem geração de emprego e renda. Eu sou favorável, como disse o presidente, a fazer ajustes, levando em conta os benefícios que a equipe econômica trouxe ao país.
Mas o PT municiou a oposição com a história do caixa 2?
O que se foi comprovado nessa crise política foi o financiamento irregular de campanha. Nenhuma outra coisa foi provada. O fato objetivo que gerou a crise política foi o financiamento irregular de campanha, o chamado caixa 2. Que atinge o conjunto dos partidos mas teve um impacto mais forte sobre o PT. O erro foi reconhecido pelo PT. Tem alguns partidos que não reconheceram. A sociedade sabe que essa é uma prática, infelizmente, generalizada, e que deve ser combatida. É inadmissível e deve ser enfrentada com a adoção do financiamento público de campanha e prestação de contas rigorosa e transparente. O PT não pode justificar os erros porque outros partidos já cometeram, pelo contrário. Daí a crise que o PT sofreu. Fomos o partido que mais sofreu e que mais se incomodou com o caixa 2. O que me parece um bom sinal. Há partidos que tratam como se fosse uma rotina. O fato do PT ter sofrido tanto, eu considero um bom sinal, sinal de que o partido está vivo, reagiu a comportamentos irregulares.
Quem traiu o presidente?
Eu suponho que as pessoas que tiveram comportamento irregular, que foram afastadas do partido. Não as pessoas que a oposição diz que tiveram.
O PT deve se manter à esquerda do governo ou ser a sua principal base de sustentação?
Deve ser e está sendo a principal base de sustentação junto com os demais partidos da base.
É possível conciliar a cautela do governo na área econômica com o desejo do PT de apresentar um programa econômico mais agressivo para as eleições de 2006?
O programa de governo de Lula para um possível segundo mandato não pode ser uma mera repetição do anterior. O país vive de sonhos, de projetos, de horizontes ampliados. O nosso programa deve ser de consolidação das enormes conquistas econômicas e sociais. Agora, é da condição humana conquistar algo e querer mais, ir mais longe. Temos que ter novos objetivos, sem abrir mão da estabilidade. Eu percebo na sociedade respeito pela prudência que o presidente Lula consegue combinar na condução da política econômica. Não tanto tempo assim do populismo cambial de FHC. Aqueles que se apresentavam como gente equilibrada, madura, fizeram o populismo cambial. Aquela coisa absurda da paridade entre real e dólar, gerando um prejuízo enorme para o país. Desembarcar daquela aventura teve um custo alto. É claro que em janeiro de 2003 Lula queria baixar os juros de uma tacada só, mas se tivesse feito isso, cinco meses depois os juros tinha estourado. O presidente tem muitos resultados positivos para mostrar. Mas o seu principal trunfo seja a seriedade com que ele está conduzindo a economia.
"Temo que não haja uma mudança de qualidade e que o injusto sacrifício de Dirceu seja em vão"" O PT não pode justificar os erros porque outros partidos já cometeram, pelo contrário"
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