Temos feito reiteradas referências ao fato de que o nosso país se vem notabilizando pela produção de desperdícios. Somos pródigos em desperdícios, quando deveríamos ser aí os indivíduos mais avaros do mundo. Desperdiçamos o máximo concebível num sem-número de atividades, na construção civil, quando o cenário é a cidade grande, na colheita, no transporte e na distribuição de alimentos, o que é ainda mais triste. Neste último particular, o Fundo das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) imagina que o Brasil joga no lixo, por ano, coisa de 26 milhões de toneladas de comida. Se devidamente administrada, a enorme quantidade de comida desperdiçada daria para alimentar cerca de 35 milhões de pessoas por mês.
Em dada oportunidade, tivemos ocasião se ressaltar o trabalho comunitário desenvolvido aqui no Recife pelos comerciantes de frutas e hortigranjeiros sediados na Ceasa, obra meritória que procura aproveitar alimentos em bom estado que sobram da comercialização, para que sejam distribuídos a quem deles necessita. Em toda parte, dissemina-se o costume de retirar de onde sobra, para entrega onde falta.
No Rio de Janeiro, por exemplo, instituiu-se um Banco de Alimentos há coisa de sete ou oito anos atrás. O banco se tornou, ali, uma organização não-governamental respeitada graças ao trabalho marcado pela seriedade e a constância. Não tem sido uma chuvarada, que dá e passa. Ela ostenta - e mantém - o elevado propósito de combater a sua maneira o desperdício específico de alimentos. Não surgiu pelo acordo de algumas pessoas em torno de uma meta, de algum ideal. Uma única pessoa, um idealista, acreditou sozinha na força da causa abraçada. "A gente cria a realidade à nossa volta", disse certa feita a fundadora do Banco de Alimentos, quando indagada que ocorrência ou que fato teriam determinado a iniciativa que teve. Nada de particular havia sucedido, diz a benemérita, e repetiu o indivíduo, quando quer, "cria as realidades da vida".
Outro exemplo marcante no país dessas realidades criadas do nada que se alteiam na consideração da cidadania é o que nos transmite o Serviço Social do Comércio (Sesc). Coletam-se aí sobras alimentícias de comercialização, para posterior distribuição a organizações paisanas devotadas ao combate da fome entre as camadas desfavorecidas da população. Não é de agora que o Sesc age deste modo; a benemérita entidade o faz há anos seguidos, com o que dá o quinhão do bom exemplo, para que outros o sigam em cada canto do país.
No caso do Banco de Alimentos da benfeitora carioca, temos ótimo exemplo de como até mesmo o trabalho de um só, quando bem discernido e bem posto, rende tanto ao país. Dizemos assim porque é costumeiro ver-se acusar com desdém o serviço da formiguinha isolada. Mas, ali, decorridos poucos anos de trabalho árduo e persistente, o Banco de Alimentos recolhe por mês obra de 30 toneladas de alimentos em estado de serem consumidos, beneficiando coisa de 18 mil pessoas de sua vez assistidas por 48 entidades. No rol dos doadores permanentes do Banco de Alimentos, acham-se 60 empresas, um núcleo luminoso que abrange desde pequenas empresas feireiras até gigantes da indústria alimentar. As padarias de bairro e modestos hortifrutigrangeiros se sentem grandes, e a indústria multinacional se sente pequena o bastante para orgulhar-se das companhias que tem, na tarefa que até emociona os corações sensíveis de não deixar morrer de fome quem tem tanta sede (e direito) de viver.
O Brasil joga no lixo, por ano, coisa de 26 milhões de toneladas de comida. A quantidade desperdiçada daria para alimentar cerca de 35 milhões de pessoas por mês
Frases
"A escola está quase pronta e deve ser inaugurada ainda este ano". Sérgio Gaudêncio, diretor geral do Cefet, sobre as novas instalações em Ipojuca.
"Jarbas pode ser candidato até a presidente da República, quanto mais a vice". Fernando Henrique Cardoso, ex-presidente, destacando o longo relacionamento com o governador.
"Quanto mais industrializada a Argentina for, mais forte será o Brasil". Néstor Kirchner, presidente da Argentina, falando sobre o crescimento dos dois países.
Bom-dia, Recife
Ronildo Maia Leite - Jornalista
Sou gente daqui mesmo, de um bocado de esquinas, camaradas. Da Imperador com a Marquês do Recife, da 1º de Março com a Diario de Pernambuco, Duque de Caxias com a do Fogo, da Penha com a nem sempre Direta, da Estreita do Rosário com a larga Guararapes, do Rangel, essa com um beco, o do Marroquim, e das lixeiras da Praia com a esquisita Carioca.
De um bocado mais, como se fossem esses cantos o canteiro de quem já se foi não volta mais: a das Flores enfeita a Frei Caneca, a Matias de Albuquerque, a Siqueira Campospos e a Ulhoa Cintra. Dá gosto parar e ficar ali a zanzar.
A Frei Vicente do Salvador desemboca num cais. Aliás, todas elas desembocam num cais: do lado de cá, o da Rua do Sol; no de lá, o de Santa Rita. O Martins de Barros espia logo dois, o do Apolo e o da Alfândega, onde há navios e marinheirosmarinheiros. E mulheres - nem tantas assim, só pro gasto. E travestis também, que, de tão lindos e puros, mais parecem alegres garotas a brincar de subir e descer no mastro dosmarujos. Que marujos, que mastros, que meninos-meninas, camaradas...
De banda, um quase beco, a Engenheiro Ubaldo Gomes de Matos espia acolá o cais do rio. Quando chega por aqui, o Capibaribe é uma esquina do porto esperando a passagem do mar. Seria esse pequeno mar dos arrecifes a principal esquina do oceano Atlântico.
Do meio-fio desse mar se vê todas as negrasgras d'Africa - todas elas netas, bisnetas, trinetas, tetranetas ou parentes distantes de Hortênsia, a negona que me criou e me ensinou a mamar. Como já disse, era ela uma negra do Castainho, sendo esse distrito de Garanhuns, uma esquina do Quilombo dos Palmares.
Descendia essa negra de Zumbi, tá se vendo. Tinha lá seus feitiços. Fui criado na esquina dos seus peitos, babando os babados da babá. Dei-lhe uma cria só. Mais desse, Garanhuns não seria o que é hoje, espécie de Suíça sertaneja - onde já se viu queijo-do-reino nas receitas de carne-de-sol com farinha-de-bolo, leite de vaca holandesa amolecendo carne seca e jabá, camaradas?
Menino de rua, orgulha-me ser o que sou, um maloqueiro, filho pagão - e de batismo tambémtambém - dessas esquinas, camaradas.
Nessa esquina de frente, a Imperador, onde hoje um banco, ficava a Jornal Pequeno. Em cima, a redação, oficinas embaixo, de lado a Portuguesa, indispensável é um bar em toda esquina. Mais à frente, o Diário da Manhã. AtraAtravessando a rua, o Bar das Condutoras. Por trás da velha Portuguesa, ficavam os botequins a dispensar as mesas e cadeiras.
Não morre, inda hoje, por aí, a geografia das esquinas. No quarteirão de cá, ficava o do Jornal do Commercio, era um colchete só e tinha de um tudo em matéria de chope, desde o Dom Pedro à Cristal. Na outra, ficava o Diario de Pernambuco, tinha o Pigalle, o Brahama, além de pés-de-escada, feito o Lero-Lero, onde se bebia pra de raiva cuspir nos reretratos retratos de Getúlio Vargas, Agamenon Magalhães e Etelvino Lins por causa de que eles eram ditadores.
Uma vez, Demócrito de Souza Filho pegou um três-por-quatro do chefe de polícia, botou na latrina e deu descarga. Dia seguinte, morreu com uma bala na testa. Isso foi em 1945. Em 64, morreram mais dois estudantes nessa mesma esquina da Pracinha com a Guararapes. A ditadura range os dentes na esquina dos quartéis pra depois avançar no descampado das praças, camaradas.
Tem outras esquinas mais e quarteirões em fila, o centro dessa minha Recife. Tinha até uma outra, a principal, chamada Esquina do Lafayette. Nela se reuniam intelectuais e jornalistas, políticos e meganhas, banqueiros namoravam bancárias. E advogados que eram também delegados de polícia prendiam em nome da lei e soltavam com cheques nominais.
Cadê a oposição?
Marcelo Pimentel - Advogado em Brasília, foi ministro do Trabalho e presidente do TST
O morto mais vivo e saudável que já conheci está ai sentado na curul presidencial partindo para um bis que a oposição, sem discurso, insiste que eleitoralmente teria ido para o Além. Vivíssimo Lula viu que não tem adversários em 2006, porque defronta-se com uma oposição anárquica que não conseguiu ver ainda que os seus pruridos de rebeldia são gritinhos de criança contrariada. Sem rumo ou candidato único viável essencial.
Quem vê esse PMDB oposicionista acha até graça na infantilidade política de suas posições. Contra um candidato que sabe falar a linguagem das classes D e C, o maior partido brasileiro não se encontra unido sequer para conseguir prorrogar uma Comissão Parlamentar de Inquérito cuja existência para a oposição é vital, pois a pizza que está sendo assada vai vulnerá-la muito mais que aos petistas.
A ligeira queda que Lula sofreu nas pesquisas no auge da campanha do mensalão já está substituída por uma nova ascensão que vai consolidando sua posição de forte candidato à reeleição, quase imbatível, estou antevendo. O povo parece acreditar que Lula não sabia de nada e que os escândalos não o atingiram.
Até as surras prometidas por algumas das melhores expressões oposicionistas, Virgílio, ACM Neto e Helena serviram para engrossar a coorte presidencial, porque infantis no todo, demonstraram que os oposicionistas não vislumbram qualquer novo campo útil ao seu proselitismo. Jamais, no meu meio século de jornalismo vi tamanho disparate.
Falar em impeachment como bandeira única é tese super ultrapassada porque inatingível.
A pobreza da campanha publicitária dos partidos de oposição demonstra que a falta de união política vai conduzindo-a ao buraco. Lá em São Paulo, isoladamente Alkmim, muito bom nome mas pouco denso, vai procurando manter-se como eventual candidato de um dos braços do contra, enquanto José Serra não diz a que vem, solidariamente colocado no alto do muro, aguardando a caravana passar.
Esperam o quê? Diariamente Lula está aí na televisão mostrando as realizações que só ele vê, em um governo que ainda não começou. Mas ele próprio sentiu que é hora de fazer algo. Contra o blá eleitoreiro se colocam os buracos nas estradas, que consomem bilhões de reais por mês nos custos do transporte; a saúde é isto que se vê o povo humilde, principal eleitorado lulista está sofrendo; as universidades faliram; a indústria está caindo de produção e a aftosa vai consumindo os ganhos da exportação. Enfim, como governo resta apenas a esmola do bolsa família que nem sequer é criação deste governo, pífia iniciativa para um país socialmente devastado.
Porém resta o êxito da política econômica, cujos resultados são evidentes, mas que na contenção de gastos tornou-se responsável pela inexistência do governo nos demais campos. O êxito inicial é também responsável agora pela corrida rumo ao evidente fracasso administrativo do governo, a tal ponto que Lula deu o grito de alerta através de outras bocas: chega, vamos construir algo de concreto, fazendo alguma coisa que o povo sinta e veja. Superávit primário é ótimo, mas governo não pode manter-se em programa de economia de cozinheira. Nunca na história da República um governo desrespeitou tanto os orçamentos votados por esse Congresso de expressão raquítica de poder que se sujeita a essa avalanche de medidas provisórias, contra as quais não reage, pela despersonalização evidente do seu comportamento. A maioria delas inconstitucionais.
Espere a oposição e verá que perdeu seu prazo e Lula vai agora entrar em um período de realizações. O descumprimento do orçamento federal, figura sinistra de sua administração, vai ser substituído por uma série de realizações concretas no plano administrativo. Contra o que vai gritar a oposição, que está perdendo sua oportunidade: contra os escândalos que a cada dia são apontados e que são tantos e sequer definitivamente apurados mas que ninguém mais suporta deles ouvir falar? As CPIs a nada chegaram. Chegarão?
A oposição não conseguiu até agora sequer o mínimo que dela se esperava: não se uniu, não vislumbrou um caminho que fale a linguagem do povo e vai ser esmagada pelo oportunismo eleitoral do Lula, que não vai mudar a política econômica, mas abrandá-la para conseguir fazer algo visível no seu último ano. Baixando os juros e irrigando a economia, vai revitalizar os setores de produção. Basta esperar para ver.
A oposição michou! Se ainda é tempo, pelo menos procure se unir, antes que o bimbalhar dos reais orçamentários acabem por devastar os seus redutos, como vem acontecendo.
Erradicar a fome
Inocêncio Oliveira - Deputado
Relatório da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), organismo da ONU, revela que cerca de seis milhões de crianças morrem a cada ano no mundo pela fraqueza de seus sistemas imunológicos, em conseqüência da fome e desnutrição. O documento foi apresentado em Roma durante a 33ª conferência bienal da FAO, ao estimar que 852 milhões de pessoas padecem da desnutrição e são vítimas de doenças infecciosas curáveis como a diarréia, o sarampo e a malária.
Reduzir a fome e a pobreza extrema até 2015 é o objetivo proclamado pelo Organismo das Nações Unidas como parte dos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, nesta alvorada de uma nova revolução tecnológica e a construção de uma sociedade global cujos bens materiais e serviços sejam compartilhados de modo mais eqüitativo ou menos injusto.
O relatório da FAO faz este parlamentar evocar a figura emblemática do médico e geógrafo pernambucano Josué de Castro, embaixador do Brasil nas Nações Unidas de 1962 a 1964e presidente desta Organização de Alimentação de Agricultura de 1952 a 1956.
Autor dos clássicos "Geografia da Fome" e "Homens e Caranguejos", traduzidos em vários países das Américas e da Europa, há mais de 50 anos o visionário Josué de Castro já preconizava um mundo sem fome. Na sua visão, a fome era um fenômeno relacionado à má distribuição de renda e à falta de justiça social, mais que uma questão meramente econômica. A imagem do "homem anfíbio", misturado aos caranguejos no mangue, traduz sua concepção de luta pela sobrevivência em meio à pobreza.
O combate eficaz para vencer a fome requer, além de investimentos públicos e privados para aumentar a produção agrícola, em termos de infra-estrutura e custeio, boa governança, estabilidade política e manutenção da paz ao invés de guerras e corridas armamentistas, acesso à educação para as crianças e melhoria das condições de vida para as mulheres gestantes, adolescentes ou idosas, o que significa políticas públicas de amparo à infância e à velhice.
Boa governança é sinônimo de justiça social. Estes são pontos de convergência com o pensamento de Josué de Castro.
Ao contrário de outros países onde a maioria da população vegeta em condições de vida abaixo da linha da pobreza, o Brasil, felizmente, não apresenta índices estarrecedores de fome ou percentuais alarmantes de miséria. É verdade que nosso País apresenta grandes bolsões de pobreza, nas periferias dos centros urbanos e no Interior. O dado positivo é que a fome, a desnutrição, os índices de mortalidade infantil e de qualidade de vida das populações registram melhorias gradativas.
Saneamento básico é condição essencial no Brasil para a evolução do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) das populações. Esta é a grande carência de que se ressentem as populações de nossas cidades. Sem saneamento básico reina a poluição, degrada-se o meio ambiente e disseminam-se as doenças nas camadas mais pobres da população.
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