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Edição de Domingo, 4 de Dezembro de 2005 
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Verissimo
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Uma colméia no armário
Luiz Fernando Veríssimo
ESCRITOR
Voltamos de viagem e descobrimos abelhas instaladas dentro de um armário da nossa casa. Ninguém sabe como a colméia começou, e por que escolheram logo o interior de um armário, sem nada que interesse a abelhas, para se estabelecerem. O fato é que a colônia está lá. Desenvolveu-se com rapidez. Estivemos fora menos de um mês e não havia abelhas no armário quando viajamos. Em menos de um mês elas ocuparam seu espaço e estabeleceram um perímetro defensivo, só ultrapassado com o risco de ferroadas. Estamos com parte da casa ocupada por uma força inimiga, portanto. Daqui a pouco vem um apicultor aqui ver o que pode ser feito contra os invasores. Foi recomendado pelos bombeiros como a solução pacífica, pois se eles viessem seria para matar. O apicultor, presumivelmente, adotará a colméia e a levará com ele, ou saberá como persuadi-las a abandonar sua posição por bem. Sei pouco sobre abelhas mas uma vez li que elas se comunicam através da dança. Quando uma localiza uma fonte promissora de néctar, por exemplo, volta para a colméia e transmite as exatas coordenadas do seu achado com passos e requebros. Imagino que uma abelha precursora tenha examinado o nosso armário e voltado para a sua turma com uma avaliação coreografada favorável: o bairro é bom, o local parece aprazível, há privacidade... E PS (pequeno sapateado): os donos estão fora.

Há uma metáfora aí, em algum lugar. Tem que haver, senão eu não consigo terminar esta crônica. Fora as abelhas que não estavam lá, nada mudou muito na nossa ausência. Nenhuma forma nova tomou vida no país como uma colméia dentro do armário. As CPIs continuam - entre bocejos, me dizem - e o cassa-não-cassa do Zé Dirceu, que poderia se encaminhar para um confronto entre poderes da República, com possíveis trocas de bengaladas, acabou no Congresso mesmo, com uma cassação tão previsível que não pode ser chamada de novidade. Continuava o cerco ao Palocci mas com o que parecia ser um consenso de que ele não pode e não deve cair, não importa o que seja provado.Entre o moralismo suicida e a hipocrisia, ficaram com o mais sensato.

Novidade mesmo é a solução para a questão agrária no Brasil a que chegaram na CPI da Terra. Segundo o relatório final da comissão, dominada por ruralistas: ser sem terra pode, o que não pode é querer terra, porque aí é crime. E ainda falam que as CPIs não estão dando resultados práticos... Mais uma prova de que a verdadeira história do Brasil não acontece em espaços abertos, onde só há barulho e encenação. Acontece na moita.

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