Brasília - O adiamento da decisão do STF ao recurso protocolado por Dirceu caiu como uma bomba no Congresso no início da noite ontem e abriu a mais séria crise entre o Legislativo e o Judiciário na era Lula. Logo depois da decisão, o vice-presidente da Câmara, José Thomaz Nonô (PFL-AL), subiu à tribuna da Câmara e pregou a não obediência à decisão do Supremo, argumentando que se tratava de uma interferência indevida de um poder em outro. "É um insulto, uma vergonha, um abastardamento do Poder, um ato de servilismo que esta Casa não pode nem deve aceitar", afirmou Nonô. "Esta Casa está se abaixando demais e quem muito se abaixa expõe parte de sua anatomia aos olhos de terceiros".
Aplaudido, Nonô prosseguiu, insistindo na necessidade de a Câmara dar continuidade ao processo contra José Dirceu. "Temos de tocar o processo. Se o Supremo achar ruim, que intervenha na Câmara. Só na ditadura militar. Penso que abrimos um precedente grave se aceitarmos isso de maneira dócil. Todos seguirão o mesmo rumo", discursouo pefelista.
Na condição de promotor que é, Nonô disse respeitar "a ordem jurídica de meu País, mas não abro mão das prerrogativas que o povo me deu". "Os deputados têm de zelar pela sua casa. Pondero a vossas excelências que vejam bem o que estamos fazendo e permitindo que o Supremo repouse no conceito mais abstrato que é o de definir o decoro parlamentar. Não há STF, não há ministro Jobim (Nelson Jobim, presidente do STF) capaz de definir isso. Conclamo os deputados a se unirem na defesa da Casa, da independência do poder, sob pena de terminarmos essa legislatura como bedel, subúrbio do Poder Judiciário".
Presidente do Conselho de Ética, Ricardo Izar (PTB-SP), tomou o microfone do plenário e reclamou da ingerência do STF nos trabalhos do Conselho de Ética, que estão sendo conduzidos desde o início da crise do mensalão, há cinco meses. "O Poder Judiciário não sabe como funciona aqui. Estamos há cinco meses no processo e o Supremo vem dizer que houve cerceamento de defesa. Eu não aceito isso", afirmou Izar. Líder do PSDB na Câmara, Alberto Goldman (SP), também fez coro.
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