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Edição de Quinta-Feira, 24 de Novembro de 2005 
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Opinião
Opinião
Saneamento

Até que, afinal, lembraram-se as autoridades de que o saneamento básico na capital e demais cidades do estado é coisa importante - coisa muito importante. O Ministério das Cidades vem de anunciar parte do programa de saneamento básico de inúmeros centros urbanos do estado, com ênfase em algumas urbes do interior. No mesmo programa figura o também indispensável projeto de suplementação e reforço do sistema de provimento d'água, nos pontos onde os respectivos elos se acham enfraquecidos.

  Pernambuco conseguiu enquadrar 25 projetos nas linhas do saneamento básico e do provimento d'água, com os quais serão gastos a preços atuais R$ 163 milhões, sob o título "Saneamento para Todos". O mais ambicioso dos projetos eleitos pela autoridade federal é a integração ao sistema Gurjaú da adutora de Pirapama, com dispêndios calculados de R$ 37,5 milhões. A obra vai possibilitar a oferta adicional de 1.000 lts./s de água destinada a garantir o abastecimento dos novos empreendimentos industriais da área de Suape, a exemploda refinaria General Abreu e Lima e das fábricas previstas para o Pólo de Poliéster. A refinaria por si só demandará um terço da programada suplementação da oferta d'água na área.

  O segundo projeto em relevância, ao custo aproximado de R$ 22 milhões, atenderá à demanda da área compreendida pelo Pólo de Confecções do Agreste. Far-se-á o esgotamento sanitário sobretudo em Santa Cruz do Capibaribe e Toritama. Prevêem-se obras de igual índole - esgotamento sanitário - para Bom Conselho, Ipojuca, Ouricuri, Passira, São Bento do Una, Sertânia, Surubim e Trindade, mas, para estas localidades, os recursos financeiros não foram ainda destacados.

  O terceiro ramo da nova família de projetos atinentes a tão relevantes serviços que se correlacionam à salubridade das grandes massas da população do estado diz com o aumento da capacidade da captação de água subterrânea na faixa litorânea adjacente ao Recife e em Belmonte e Tacaratu. Neste caso, serão diretamente beneficiadas as cidades de Abreu e Lima, Igarassu, Olinda,Paulista e pequena faixa do Recife. Poderão ainda integrar esse lote de serviços as cidades de Flores e Manari. Além das obras sob a supervisão direta da Compesa, inscreveram-se junto ao Ministério das Cidades, também, os municípios de Jaboatão dos Guararapes e Ipojuca.

  É um alívio constatar que a adução da água e o esgotamento sanitário em Pernambuco vão ganhar o impulso, que já demorava. Não têm sido poucas as cobranças nesse sentido, sobretudo no que diz respeito ao saneamento básico. Porque o esgotamento sanitário anda debaixo do chão, sem ser visto, enquanto outras obras e serviços, cujo exemplo mais saliente é a energia elétrica, são enxergados mesmo à distância de léguas, fica-se com as iniciativas que servem de mostruário e se abandonam aquelas que, embora façam o bem das populações sobretudo as mais empobrecidas e rendam benefícios sem conta como é contribuir para a melhoria dos padrões de salubridade, escon dem-se atrás do seu peculiar anonimato. O esgotamento sanitário medica populações inteirassem ser médico e cura sem ser remédio, ele arreda milheiro de espécies daninhas que vivem de transmitir moléstias infecciosas.

  É assim com ponderada alegria que registramos o reinício das obras do esgotamento sanitário em várias partes do estado.


O Diario e a Academia Pernambucana de Letras

Waldenio Porto
PRESIDENTE DA ACADEMIA PERNAMBUCANA DE LETRAS

Os povos são marcados, assim como os indivíduos, por características próprias e um caráter que lhes define a personalidade. Se a cor dos olhos e dos cabelos, da pele, os traços da face, a compleição e o ânimo particularizam as pessoas, as instituições modelam, por seu lado, a fisionomia nacional. Sim, as instituições. Uma decorrência da História. Chegam e se firmam para armarem a tenda e manterem as linhas definidoras do espírito sócio-emotivo-cultural das gentes.

  Em Pernambuco avulta, como remanescente e responsável pela memória nossa, o Diario de Pernambuco, velho de 180 anos e ainda com a juventude de seu ideário inicial. Que juntou os tipos móveis, de chumbo e antimônio, dos caixilhos dos fatos cotidianos, para a revelação fidedigna da nossa História corrente, assinalando fatos corriqueiros da nossa índole e episódios decisivos, definitivos, para a nossa nacionalidade pernambucana. O Diario de Pernambuco, é uma testemunha convalidante e insuspeita do nosso legado para a posteridade. É o jornal mais antigo em língua portuguesa e o terceiro do mundo, logo após o Times, de Londres, e o Guardian. Justo motivo para as comemorações ruidosas que celebram sua idade. Ocasião para amostrar o brilho dos feitos e da participação de suas folhas na construção de um tempo novo. O "rubro veio" do nosso hino está todinho ali, como certidão autenticada de Pernambuco.

  Ao Diario vem se juntar a Academia Pernambucana de Letras, feita da glória literária do nosso povo, expressão da criatividade desta terra e defensora perpétua da nossa identidade cultural. Há cento e cinco anos caminhamos congraçados. O ânimo e a intenção nos têm unido no mesmo propósito libertário e cultural.

  Boa parte da nossa literatura tem vertido e sido apresentada, pela vez primeira, nas páginas do Diario de Pernambuco, estandarte da inteligência e nascente de tanta vocação promissora. Que veio à luz e cresceu se alegrando com o chuvisco, prenunciador da trovoada, da chuva, do inverno e da fartura anunciante da esperança renovada, da fé em que se alicerça toda a alma sertaneja.

  A Academia Pernambucana de Letras participou da tua existência e da tua vida, como parceira ativa e emuladora dos teus ideais, Joezil Barros, preclaro e honrado diretor superintendente, co-participe das glórias deste jornal. Usando uma expressão bem matuta mas também nossa e ancestral, ainda nem sonhavas nascer, Joezil, e já o Diario de Pernambuco existia. Para confessar o povo, mostrar a sua índole e os seus pecados, noticiar e apontar o Norte da sua opinião. A penitência, a indulgência plenária e o elogio, só a História mais tarde determinaria.

  Não foram poucos nem escassos os acadêmicos da Academia Pernambucana de Letras que consorciaram as suas existências com a do Diario de Pernambuco. Assim passou a ser inapartável a vida das duas grandes instituições, mantenedoras do brilho e da grandeza das letras pernambucanas. Não bastassem Mauro Mota, Nilo Pereira, Potiguar Mattos, Gilberto Freyre, Mário Melo, Aníbal Fernandes, Leduar de Assis Rocha, Audálio Alves e inúmeros outros. Em diferentes épocas, em distintas ocasiões, mas contemporâneos do mesmo sentir. Há uma sensação de permanência e perpetuidade no velho jornal que se continua até hoje com você, Joezil Barros, digno, digníssimo sucessor dos seus ancestrais diretores do Diario de Pernambuco. A Academia Pernambucana de Letras rende o preito de homenagem e reafirma a sua parceria na vida em comum com a mais autêntica e venerável instituição jornalística do nosso país. Ao Diario de Pernambuco e a você, Joezil Barros, que se confundem na legítima e exaltada liderança da imprensa do Brasil.


Freyre e sua mitobiografia

Marco-Aurélio de Alcântara
JORNALISTA

Ronildo Maia Leite, num dos seus "Bom Dia, Recife", lembrou o espírito crítico de Aníbal Fernandes, produto direto daquele "maligno vapor pernambucano" de que falava Frei Miguel do Sacramento Lopes Gama: a mania de pôr apelidos nas personagens da província. Romildo lembrou alguns. Mas, houve inúmeros: deputado Carneiro do Rego (Mário Melo), "cospe-cospe", "não-me-toques-que-estou-de-creme", "lambedeira", "china-gordo", "copa-e-cozinha", "Ana Bolena".

  Aníbal não estava sozinho na sátira de costumes no Recife: Gilberto, Olívio Montenegro e Sylvio Rabelo acompanhavam o cronista "Z". E, desde 1923, de volta da Europa, Gilberto mantinha contacto freqüente com Aníbal e, nos anos 50, intensamente, com os outros dois e mais Antiógenes Chaves. A essa época, Freyre já havia construído a sua mitobiografia, como assinala Maria Lúcia Garcia Pallares - Burke em livro recente: Gilberto Freyre, um Vitoriano dos Trópicos (Edit. Unesp, 2005), fazendo remissão à polêmica Roberto Motta/ENF a propósito de ter sido Gilberto aluno regular ou não de Franz Boas, em Colúmbia.

  Tenho o testemunho oral de Aníbal de que Freyre divulgava, transformando e adaptando, toda teoria nova que surgisse na Europa e nos EE.UU. nas áreas de Sociologia, Antropologia e Psicologia Social. Tendo consultado a biblioteca de Gilberto, registra a biógrafa que o "jovem já demonstrava uma notável habilidade de simultaneamente consumir e transformar os conhecimentos que adquiria" (Ex: o conceito rurbano, de Giddings). Daí os mitos que criou: o de ter sido amigo de Aldous Huxley (não há sequer menção do encontro que tiveram no Recife, na biografia que Sybille Bedford escreveu sobre o autor de Brave New Word). Outro "entusiasmo" de Gilberto foi por Alfred Zimmern, de quem não freqüentou curso, mas apenas assistiu a uma aula. Freyre, segundo Pallares - Burke, freqüentou, efetivamente, dois cursos de Boas em 1921/22. Outro mito: a amizade apregoada desde os anos 20 com o crítico norte-americano H.L. Mencken, "quando na verdade só o conheceu realmente anos depois"(p. 92).

  Armstrong, seu amigo e professor na Univ. de Baylor, apresentou-o, efetivamente, aos poetas Amy Lowell e Vachel Lindsay; e Oliveira Lima introduziu-o a Isaac Goldberg, hispanista e discípulo de Santayana, e ao venezuelano Angel Cesar Rivas, seu tradutor.

  Em Portugal, já no exílio, freqüentou algumas personalidades, mas seus contactos nos meios literários lisboetas foram escassos. Pallares Burke ressalta: nessa excelente biografia intelectual de Gilberto: "... mesclando e fundindo o vivido com o desejado ou lido, o real com o imaginário, os relatos autobiográficos de Freyre... representam um desafio para o historiador, desafio tanto maior quanto mais sofisticado é o talento da figura estudada." Inegável era seu sentido de humor, a tal ponto que talvez tivesse aceito, já perto do fim, estes versos de Mario Sá-Carneiro como epitáfio: "Quando eu morrer batam em latas / rompam aos saltos e aos pinotes / façam estalar no ar chicotes / chamam palhaços e acrobatas" .


Pernambuco e França: velhos amigos

Ina Melo
VICE-PRESIDENTE DA ASSOCIAÇÃO PERNAMBUCANA DE ESTAGIÁRIOS NA FRANÇA (APEF)

Remonta a séculos passados a amizade entre a França e Pernambuco. A formação dos jovens de famílias abastadas desde o Império, ocorria quase sempre em países europeus, e em especial na capital do mundo: Paris. Muitos dos nossos homens ilustres, políticos, intelectuais e por que não os "Bons Vivants" circularam pelo eixo Lisboa-Paris-Londres. Neles se encontravam brasileiros tanto do norte como do sul. De Pernambuco, desde a colonização até meados do século passado, era quase obrigatório as famílias ricas, mandarem os filhos aprimorar sua educação em Paris, berço das artes e das letras. É lamentável que a própria França tenha se afastado do Nordeste brasileiro. Hoje as missões técnicas e culturais estão voltadas para o sul do país.

  A Associação Pernambucana de Estagiários na França (Apef), fundada em 25 de novembro de 1975, pelo dinâmico cônsul geral da França, M. Gaston Le Paudert, teve seu período áureo de 1975, no início das suas atividades, até 1995 e somos reconhecidamente gratos a alguns diplomatas que por aqui passaram, todos eles interessados em incrementar o intercâmbio cultural técnico e científico entrenossos países amigos. Eles acreditavam na Apef, que era composta por grupos da elite intelectual e política do Estado,formada por professores universitários, médicos, advogados, escritores, poetas e políticos, todos com o mesmo objetivo: dar continuidade aos laços de amizade com a França, e incentivar os novos estagiários que retornavam ao Recife. Até hoje, somos um grupo coeso de francófilos que, apesar de muitos terem deixado as lides universitárias, continuam unidos no amor à França e na divulgação de sua cultura e tecnologia.

  No período de 1976 a 1985, várias foram as Missões francesas que passaram em Recife. Chesf, DER, Celpe e Telpe, tiveram muitos dos seus engenheiros estagiando na França, como também a Polícia Técnica e professores das universidades. A Apef, teve no seu quadro de sócios, nomes ilustres, como do prof. Renato Ramos de Farias, advogado João Bezerra de Alencar e do ex-governadorMiguel Arraes de Alencar, todos de saudosa memória. A Ubifrance, órgão do governo francês, com sede em Paris, envia todos os anos, para divulgar a tecnologia francesa, técnicos das mais diversas áreas para realizarem seminários, palestras, conferências, em São Paulo, Rio de Janeiro, Paraná, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Brasília e Pernambuco. As nossas congêneres radicadas nos outros estados, recebem das autoridades diplomáticas e comerciais francesas, apoio e incentivo. Infelizmente, o mesmo não acontece com a Apef. Estamos limitados ao apoio da Ubifrance, o que muito nos honra, pois pela terceira vez, Pernambuco foi o estado escolhido para representar o Brasil na importante reunião que se realiza anualmente num país da América do Sul. Neste ano, o presidente da Apef, eng. Carlos Henrique Mariz, estará na Capital da Colômbia, Bogotá, mostrando o que é o nosso Estado e o trabalho desenvolvido pela Associação.

  A Ubifrance, tem um projeto da maior importância, que é transformar a Apef, em Associação Nordestina, para que estagiários de outros estados, que retornam de seus estudos, possam dar continuidade aos laços de amizade com o país amigo, a França. Precisamos integrar ao nosso quadro os recém-chegados estagiários e para isso, os convidamos para se afiliarem à Apef e fortalecê-la com novas idéias. Posso falar de cátedra, pois acompanho a Associação desde a sua Fundação, ocupando a presidência por três períodos e meu interesse e dos associados é ver a Apef continuar na luta para manter acessa a chama do entusiasmo. Viva a Apef pelos seus 30 anos de amor à França.

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