Paris - Depois que aquele avião derrubou uma fatia do Pentágono no 11/9 os romenos podiam se sentir orgulhosos. Não que tivessem qualquer coisa a ver com o atentado, ou festejassem a desgraça alheia. É que por alguns meses, até que o Pentágono voltasse à sua forma original, o palácio do governo mandado fazer pelo Ceausescu em Bucareste reinou sozinho como a maior área construída do mundo. É um monstro que domina a paisagem da cidade no fim de uma larga avenida central onde hoje é desafiado pelos gigantescos outdoors de grandes lojas: monumentalismo capitalista contra monumentalismo comunista, grifes globalizadas contra um símbolo de megalomania autoritária, os ícones coloridos do mercado contra o estado cinzento feito arquitetura - no fim duas formas de omnipresença, só que uma desmoralizada. De certa maneira a Romênia é isso, o convívio evidente de novos tempos com velhos, com uma longa convalescênciada que ainda não terminou.
Uma das razões para estarmos em Bucareste era o relançamento de um livro do meupai traduzido em romeno, desta vez sem cortes. No tempo do Ceausencu o livro tinha sido censurado. Não há mais censura, mas comentava-se lá que a Romênia fora um dos países escolhidos pelos americanos para o seu programa de terceirização da tortura em suspeitos de terrorismo porque seu aparato de segurança não perdera a mão. Fomos recebidos num clube de escritores, um prédio remanescente do melhor período da cidade, entre as duas grandes guerras, um pouco dilapidado, mas ainda magnífico, e onde, cercado por alguns solícitos tipos literários também algo dilapidados, me senti numa novela do Graham Greene, desconfiando de algum mal-entendido. Nos contaram que uma certa dissidência era permitida pelo regime comunista entre os escritores, mas que todas as conversas no restaurante do clube eram gravadas.
Sim, passamos pelo que resta do castelo de Vlad, o Impalador, suposto protótipo de Drácula (na frente do qual há um inevitável Hotel Drácula) e que é um herói nacional, pois impalava turcos mais do que a quaisquer outros. E mais não fizemos porque, se não faltou simpatia e gentilezas dos nossos anfitriões - não menos do embaixador do Brasil na Romênia e sua esposa, Tadeu e Magali Valadares, que nos hospedaram - faltou tempo. Saí convencido de que são precisos alguns séculos para explorar a Romênia.
Um outro monstro arquitetônico que não esqueceremos é a base construída pelos alemães para os seus submarinos durante a Segunda Guerra Mundial, em Saint-Nazaire, na França, onde também nos levou a literatura. Algumas reuniões do encontro de escritores de que participei se realizaram dentro do imenso ancoradouro de cimento, e era estranho falar de criação literária, metáforas etc. dentro daquele monumento à engenharia de sobrevivência, à pura funcionalidade guerreira. A cidade de Saint-Nazaire foi arrasada pelos aliados. A base de submarinos ficou intacta. É, por isto, uma das edificações mais antigas da cidade. De alguma maneira, uma metáfora para a irrelevância da literatura.
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