Um nasceu na Itália em 1933 e é cientista social e filósofo. O outro tem nacionalidade norte-americana e ganha a vida como professor de literatura. Juntos, Antonio Negri e Michael Hardt publicaram no ano 2000 o livro que é considerado a Bíblia dos que se contrapõem aos modelos vigentes da globalização. Império (ed. Record) causou polêmica com suas teses sobre o declínio do estado-nação e a configuração de uma estrutura de mando supranacional, onde as grandes potências, organismos multilaterais e ONGs exercem um poder não confinado por fronteiras territoriais.
No final de outubro, a metade italiana da dupla desembarcou no Brasil para lançar Multidão (ed. Record), uma continuação do trabalho anterior. Negri gastou muita saliva em entrevistas, debates e "eventos" sobre o conteúdo das quinhentas e tantas páginas à espera do leitor. Já livre da pena de 13 anos imposta pelo suposto envolvimento com as Brigadas Vermelhas - que motivou seu exílio por mais de uma década em Paris - suportou até uma performance regada a vinho do grupo de teatro Oficina, em São Paulo. Tudo, claro, em nome da multidão...
O material do novo livro está dividido em três partes: Guerra, Multidão e Democracia. Inicialmente, Negri e Hardt analisam o conteúdo do que chamam "generalizado estado de guerra global". Para eles, o estado de exceção agora é a regra e os conflitos não são mais limitados em termos geográficos ou temporais. A guerra transformou-se numa "relação social permanente", que determina as instâncias da vida. Tornou-se "biopoder", conceito tomado a Foucault que tem papel decisivo nas suas reflexões.
Para livrar o planeta da violência do Império, entra em cena uma espécie de super-herói coletivo, a Multidão. No capítulo dois, Negri e Hardt separam o termo de noções como povo e massa. Enquanto tais conceitos submergem as singularidades na indiferença do todo, a multidão é múltipla, capaz de manter a diversidade e, importante, agir em conjunto. Essa mágica deve-se à hegemonia qualitativa do "trabalho imaterial" - a produção de conhecimento, informação, afetos, etc - que cria redes de cooperação e comunicação e funciona dentro delas. Uma característica que contamina todas as formas de trabalho na economia pós-fordista e possibilita o projeto da Multidão, a coalizão de assalariados, migrantes, desempregados e camponeses.
Só essas quase seis bilhões de pessoas conectadas podem se contrapor à rede constituída pelas instâncias do poder dominante. Só a Multidão é capaz de resgatar o sentido verdadeiro da democracia. Esse é o tema do último capítulo, que discute "a crise da democracia na era da globalização armada" e os caminhos para recuperarmos e desenvolvermos o poder do povo para o povo. Ou da multidão para a multidão, como querem Negri e Hardt em sua obra, leitura obrigatória para os rebeldes de todo o Império.
Serviço
Multidão: Antonio Negri e Michael Hardt
Editora: Record
Preço: R$ 50,32
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