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Arquitetura com um toque de humanização
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Acácio Gil Borsoi, após 56 anos de carreira, ainda mantém seus ideais de tentar transformar o mundo dos mais carentes |
Cristina Sobreira Especial para o DIARIO |
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"Arquitetura é uma forma que lhe toca o coração". A frase do arquiteto carioca Acácio Gil Borsoi, 81 anos, evidencia a grandiosidade do valor que ele dá a sua profissão. Preocupado com o bem-estar da população mais carente, desde a época de estudante da Escola de Belas Artes da Universidade do Brasil, no Rio de Janeiro, Borsoi foi pioneiro na implantação de uma nova concepção de moradia popular em Pernambuco, no primeiro governo de Miguel Arraes, na década de 60. Por conta de sua preocupação social, foi preso político durante a ditadura militar, em 1964. Era só o início de uma carreira de respeito numa terra adotada pelo lado esquerdo do peito.
 Aos 81 anos, em plena atividade, acácio borsoi divide trabalho com a filha Roberta. Foto: Hélder Tavares/especial para o DIARIO. | Antes de mergulhar em seu antigo sonho de "transformar um pouco o mundo dos mais humildes", Borsoi havia projetado o Museu de Arte Moderna do Recife (1955), o Fórum de Teresina (1972), a Assembléia Legislativa do Piauí (1984), o Centro Administrativo de Uberlândia (1990), além dos projetos de restauração do Teatro 4 de Setembro, em Teresina, e do Teatro Artur de Azevedo e do Palácio dos Leões, em São Luís do Maranhão.
Com 56 anos de carreira, ele diz que a inspiração surgiu desde cedo. Filho de um desenhista-arquiteto, ele começou a trabalhar com o pai. "Eu ajudava nos desenhos. Ele fez obras importantes no Rio de Janeiro como o Palácio Guanabara, a Biblioteca Nacional, o Corpo de Bombeiros e a Confeitaria Colombo, que hoje é tombada como patrimônio histórico", conta. Ainda como estudante trabalhou com profissionais de renome como Affonso Reidy e Alcides da Rocha Miranda. Depois de formado, foi para o Patrimônio Histórico onde conviveu com os arquitetos Lúcio Costa e Rodrigo de Melo Franco.
Mas foi no Recife que colocou em prática suas propostas de habitação popular apoiada na autogestão. "Fui preso durante a ditadura só porque fui o primeiro arquiteto a se preocupar com habitação popular. As pessoas não respeitam os valores humanos dos mais pobres", contesta.
Por indicação do antigo professor Lucas Mayhofer, Borsoi chegou à capital pernambucana, em 1951, para lecionar na UFPE. Lá deu aulas durante 28 anos. "Consegui que a nossa escola da UFPE não separasse arquitetura do centro de belas artes. Para ser arquiteto é preciso ter sensibilidade, percepção para as coisas ligadas à emoção, ao espírito", afirma.
Sonho - Ao desenhar os seus ideais, em 1963, Borsoi aceitou o convite do presidente da Liga Social Contra o Mocambo (LSCM), o arquiteto Gildo Guerra, para ser o diretor de engenharia e arquitetura do então órgão do governo de Miguel Arraes, especializado em favelas. Nesse mesmo ano, 800 famílias invadiram uma área pertencente ao governo federal. "Eu e o Gildo fomos lá e oferecemos uma solução: o projeto Cajueiro Seco. A nossa proposta era diferente porque não era assistencialista", relata.
O núcleo de Cajueiro Seco foi implantado em uma área próxima ao terreno invadido (onde ocorreu a Batalha dos Guararapes). Foram construídos sanitários, uma escola, lavanderia comum, ruas, quadras, mas, além disso, o núcleo possuía um centro de trabalho comunitário. "Havia umapreocupação com o trabalho, com a renda, porque a favela não é a causa da pobreza. A causa é a falta de dinheiro", acredita. Com o golpe militar de 1964 todo o trabalho foi destruído. Em protesto, Borsoi pediu demissão da UFPE. "Você não pode fazer nada sem liberdade", diz.
Mas mesmo assim continuou a construir sonhos. Após esse episódio, desenvolveu diversos projetos de conjuntos habitacionais no Nordeste para o Banco Nacional de Habitação, extinto BNH. Foram cerca de 35 mil casas. Em 1968, fundou o escritório Borsoi Arquitetos Associados onde desenvolve até hoje projetos residenciais, administrativos e comerciais. Borsoi teve seu trabalho social reconhecido até mesmo fora do Brasil. Em 1998, um projeto de socialização numa favela no Rio de Janeiro foi premiado pela União Internacional dos Arquitetos, em Bucareste, na Romênia. O trabalho foi o único da América do Sul. Uma prova de que arquitetura e humanização podem caminhar juntas. Essa semente, deverá ser perpetuada por meio de três filhos arquitetos e netos. Uma nova geração.
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