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Edição de Terça-Feira, 15 de Novembro de 2005 
Economia | Miriam Leitão
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ECONOMIA
Miriam Leitão
Falta do árbitro
e-mail: paneco@oglobo.com.br
Presidentes arbitram em momentos de conflito insanável entre os seus ministros. Quanto mais rápida e clara for a decisão, mais rapidamente o problema se resolve. O que o presidente Lula fez desde que eclodiu essa crise não respeita a dinâmica natural do poder. Por isso é que a crise ainda não se resolveu. Se depender do ministro Antonio Palocci ele fica até sua ida ao Senado, mas há uma velha lei do poder: não existe ministro da Fazenda fraco. O ministro Antonio Palocci se enfraqueceu com o ataque da Dilma Rousseff. Lula deveria ter demitido um dos dois, porque essa ambigüidade é insustentável. Palavras podem até dar uma sobrevida ao ministro, mas não desfazem o mal feito.

  O ministro José Dirceu foi, a seu tempo, mais forte do que Dilma Rousseff hoje. Comandou o partido na vitória de Lula da Silva, fez parte da gênese do partido e era líder da força hegemônica. Dilma Rousseff era do PDT, passou para o PT há poucos anos.

  Há quem pondere que as críticas feitas por José Dirceu à política econômica não derrubaram Palocci, por que as da Dilma derrubariam? Há duas diferenças. As críticas de José Dirceu nunca foram tão explícitas, e Palocci estava forte. Dilma não soltou apenas uma palavra errada; fez todo um arrazoado totalmente estrangeiro à política econômica e o fez de forma reiterada a não deixar dúvidas de que sua idéia é outra. Por ser recém-chegada ao Partido dos Trabalhadores, não pode ter agido unicamente por sua cabeça e impulso. O PT pode ter mudado em muitas coisas, mas não em certas hierarquias e ritos de poder. O apoio que recebeu de Ricardo Berzoini mostra que não foi o caso de uma palavra mais forte inadvertidamente usada. Não é o "rudimentar" usado em vez de incipiente; foi uma tentativa deliberada de criar uma ponte para um discurso econômico mais palatável que, no ano que vem, atraia de volta militantes decepcionados e eleitores ariscos. Para criar essa ponte era preciso dinamitar a proposta de ajuste fiscal de longo prazo, mas atingiu-se em cheio o ministro da Fazenda.

  Antonio Palocci não poderia ser atacado de dentro, porque já é atacado de fora. Está no seu momento de maior fragilidade, incansavelmente investigado pelos procuradores de Ribeirão Preto, acossado por ex-amigos duvidosos como Rogério Buratti e Vladimir Poleto, e ameaçado pela aproximação das CPIs. Até agora se beneficiou dos bons modos da oposição, disposta a protegê-lo e à economia. Mas por que a oposição permaneceria protegendo alguém que é sangrado por seus próprios companheiros? Afinal, oposição é oposição.

  O que vai ser decidido nos próximos dias é se Palocci sai agora ou sai mais tarde, porque a informação passada pelo ataque da ministra Dilma e pela hesitação de Lula nas primeiras cem horas após o ataque foi a de que o ministro está definhando. O presidente deu uma bronca nos dois, exibindo sua visão rudimentar de administração de conflitos, e depois soltou uma nota. Tudo insuficiente. Qualquer declaração forte a ser feita agora não resolve coisa alguma. O presidente Lula tem uma noção muito ruim sobre oportunidade dos gestos.

  O mercado financeiro tem sido incapaz de ver a profundidade da crise, desde que ela eclodiu. Segue, em manada, certas simplificações grosseiras. Quando o ex-deputado Roberto Jefferson iniciou a atual temporada de tormentos, o mercado achou que a economia estava blindada; depois, quando Palocci recebeu o primeiro balaço, achou que bastava trocar por Murilo Portugal; hoje acha que pode haver um acordo entre PSDB e PT para reduzir a intensidade da crise.

  O mercado cometeu erros seqüenciais de análise. A economia já foi atingida. Este ano o crescimento se apequenou e este poderia ter sido o melhor ano do governo Lula. A esperada melhora na classificação de risco foi apenas uma tímida mudança de sinal, mas não um verdadeiro upgrade. O ano que vem, que seria tranqüilo, começará sob intensa incerteza. Tudo isso mostra que a blindagem, na qual o mercado acreditou, não existe. O que atenuou até agora o efeito da crise é o excesso de liquidez internacional e a melhora em alguns indicadores brasileiros. Mas se o sinal virar, todos os erros entrarão na balança, ao mesmo tempo.

  Murilo Portugal é estrangeiro no PT. Se houver uma reunião do diretório para discutir economia, ele nem pode ir: não tem carteirinha. Não é a pessoa adequada para o último ano de um governo em crise e com uma política econômica que continua sendo um item de incandescente controvérsia. Imagine o cenário: dois ministros fortes brigam, um sai e é substituído por outro muito mais fraco e que tem a missão de manter a política que originou o conflito. Isso não faz sentido. Se for para tentar manter alguns pontos da política, a melhor pessoa seria o ministro Paulo Bernardo. Se for para fazer uma mudança gradual, é o senador Aloizio Mercadante. Suas convicções econômicas são conhecidas e divergem das do ministro Palocci. Mas Mercadante conseguiu ficar fora do foco da crise e adotou uma postura discreta, tentando não se contaminar com a crise do PT; pode achar que não é sensato ir para o centro do palco. Outro na linhamudança para a campanha pode ser Ciro Gomes, que já ocupou o cargo. Palocci saindo, a política econômica muda. Mais dia, menos dia. O que assumir dirá que vai manter, mas o governo vai tentar mudá-la aos poucos na tentativa de ganhar a eleição do ano que vem. Isso se o governo chegar até lá.

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