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Edição de Terça-Feira, 8 de Novembro de 2005 
Política | Lula muda e diz que caixa 2 é intolerável
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POLÍTICA
Lula muda e diz que caixa 2 é intolerável
Entrevista // Presidente prevê no Roda Viva que José Dirceu não escapa da cassação
Brasília - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva admitiu ontem, em entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, que o Câmara dos Deputados está condenada a cassar o mandato de seu ex-ministro, o deputado José Dirceu (PT-SP), mas ressalvou que não existem provas de que ele cometeu irregularidades. Lula desta vez condenou o uso de caixa dois: "O PT nunca poderia ter praticado coisas intoleráveis, como caixa dois. "E manteve a posição de que não sabia de nada, criticando o ex-tesoureiro do PT Delúbio Soares: "Não poderia imaginar que o PT e o Delúbio iriam terceirizar as finanças do partido."

  Lula repetiu que o caixa dois "é uma prática intolerável" e insistiu que até agora não se provou a existência do mensalão. Ele disse que o ex-deputado Roberto Jefferson (PTB-RJ) foi cassado porque não provou o pagamento de mesadas. Afirmou que nunca disse que daria um "cheque em branco" a Jefferson, insinuando que foi mal interpretado. Disse que a denúncia de que o governo cubano teria financiado a sua campanha à Presidência é uma "história inverossímil", porque Cuba "é muito miserável para emprestar dinheiro". E finalizou: "Mas tem de investigar."

  Quando foi confrontado com a hipótese de que o caixa dois do PT contribuiu para a eleição dele em 2002, Lula ficou irritado e desconcertado. Primeiro disse que "o grande imbróglio foram as eleições (municipais) de 2004". Depois, opinou que "Delúbio e (o marqueteiro) Duda Mendonça vão prestar contas disso". E completou:"Não posso responder por ele (Delúbio)."

  Questionado sobre o recebimento de dinheiro no exterior por Duda, Lula quase gaguejou e acabou propondo: "Vamos aguardar o resultado da CPI. A CPI vai nos avisar a respeito." Ele explicou que a agência de Duda foi afastada da Secom porque não era possível ter lá alguém que estava sob suspeita. O presidente terminou por defender o financiamento público de campanhas. Sobre as denúncias de que o seu filho, Fábio, foi beneficiado com a venda de parte das ações de sua empresa para a Telemar, Lula disse que o filho, "ao mesmo tempo em que não tem privilégios, não pode ser impedido de fazer um negócio." Segundo o presidente, a empresa de Fábio está fazendo programas de TV que têm um sucesso "extraordinário".

Aftosa - Ele não se fez de rogado quando foi cobrado de ter, da Europa, decretado o fim do surto de febre aftosa no mesmo dia em que surgiam três novos focos. "Tinha sido informado de que o primeiro foco foi debelado. Se surgiram novos focos, esse é outro problema", disse. Lula afirmou que os juros vão baixar "daqui a pouco". Disse que o Brasil teve 22 anos de estagnação ou crescimento medíocre, mas que no momento vive uma conjugação de fatores muito favorável. O presidente reafirmou que o governo dele não obstruiu nenhuma CPI, diferentemente de governos anteriores, e pediu cautela e investigação profunda sobre todas as denúncias contra o governo, especialmente a de que o Banco do Brasil teria financiado o suposto mensalão.

  Rebateu a idéia de que fala pouco à imprensa: "Eu falo quase todos os dias. Tem dia que me canso demim mesmo." Em um dos intervalos do programa, enquanto conversava com os entrevistadores, Lula elogiou George W. Bush. Para ele, o presidente dos EUA é "um homem sem frescura". E a principal razão para formar este juízo foi que Bush aceitou tudo o que Lula lhe ofereceu no churrasco de anteontem, na Granja do Torto. "Até uma costelinha", teria dito Lula. Ele comparou Bush com o presidentes da Venezuela, Hugo Chávez, e de Cuba, Fidel Castro, com evidente vantagem para o americano. Chávez, contou, leva na comitiva a água que bebe, enquanto Fidel faz questão de provar tudo aos poucos antes de se deliciar com um bom almoço.

Milésimo - O programa foi gravado no início da tarde de ontem, no Palácio do Planalto, e foi ao ar à noite. Foi a milésima edição do Roda Viva e a primeira entrevista dada por Lula ao programa, desde que tomou posse.

  Ao ser indagado ontem sobre a reeleição, Lula respondeu enigmaticamente e passou a impressão de que poderá não ser candidato. Relembrou que sempre foi contra a reeleição, assimcomo o PT, e garante que não mudou de posição. Depois afirmou que se decidirá entre janeiro e março do ano que vem. Lula explicou que é contra a reeleição porque a alternância no poder é boa para o País. E assegurou que só será candidato se tiver certeza de que o segundo mandato será melhor do que o primeiro e se tiver perspectiva de eleger uma maioria segura no Congresso.

  O presidente entende que "o segundo mandato nunca é melhor do que o primeiro" e citou o exemplo de Bush, que enfrenta vários problemas no segundo mandato. Ele acha que seu governo está sendo "muito bom" e, todas as vezes que teve oportunidade, desfiou uma fieira de números para comprovar a sua afirmação.
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