Os maiores espetáculos podem estar nas coisas mais simples, como mostrou o Festival de Circo do Brasil na edição deste ano ao valorizar a tradição para mostrar como a força movedora da arte circense está em sua essência. Dentre as atrações do evento nesse fim de semana, o símbolo máximo dessa lógica foi o circo Gran Fele, da Espanha, cujo maior mérito é transmitir sinceridade e precisão em suas peças, emocionando e divertindo por fazer bem feito, com elementos mínimos, aqueles números que todo mundo já viu.
O malabarista do Gran Fele, por exemplo, não corre grandes riscos e nem desafia as leis da gravidade de maneira inacreditável. Jogando com apenas três bolas, seus movimentos são comuns, mas talvez mesmo assim ele seja um dos maiores artistas que já pisaram no Recife nessa especialidade. Acompanhado por uma mulher contorcionista, o espanhol esbanjou ritmo e harmonia, parecendo um bailarino ao acompanhar com perfeição o andamento da música-tema de O Fantasma da Ópera numa versão jazzística.
Os palhaços do Gran Fele também repetem esquetes abestalhadas que todo mundo já conhece. Mas o melhor comediante é aquele que faz todo mundo rir das coisas mais previsíveis. As feições dos atores mais velhos já eram engraçadas por si, com expressões faciais exageradas na medida certa, sem falar no timing perfeito (a gag do cospe-cospe é impagável).
Sábado à noite, no Terminal Marítimo, antes do Gran Fele, se apresentaram o grupo italiano Giuliari Del Diavolo (bastante minimalista, com um ar meio místico) e o carioca Intrépida Trupe (com um número de trapézio interessante por fazer do corpo uma extensão das cordas e barras de apoio, se concentrando na precisão dos movimentos, mas que precisa melhorar a harmonia e a sincronia com a música para desenvolver seu valor coreográfico). Durante o dia, as atrações de rua empolgaram mais as crianças, tanto no Parque da Jaqueira (Palhaço Tomate, da Argentina, um mímico especialista em bexigas infláveis) quanto no Sítio da Trindade (Grupo Amarillo, com palhaços brasileiros e argentinos cheios de personalidade, mas se restringindo a fazer uma combinação entre coisas conhecidas).
A magia do circo, de fato, encanta crianças e adultos. A afirmação é clichê, mas bastou uma olhada nos rostos do público que compareceu à Lona de Casa Forte no sábado para constatar que a frase procede. Nas arquibancadas lotadas, a platéia se amontoava para assistir aos números. A noite foi aberta com a apresentação de Caleidoscópio, número de trapézio da dupla carioca Teatro Anônimo. Os movimentos das artistas perfeitamente sincronizados lembram mesmo o objeto do título. Um belíssimo espetáculo.
O circo Xiclo da Argentina fez a apresentação mais longa da noite (cerca de uma hora e meia). Artistas completos, os membros da trupe fazem um pouco de tudo, equilíbrio, força, trapézio, malabares e mágica. Além de realizar as acrobacias, os clowns se revezam na execução da trilha sonora ao vivo. Um espetáculo interessante que, no entanto, poderia ser mais curto.
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