Catende - Na praça do Coração Eucarístico, no alto de Catende, município da Zona da Mata Sul localizado a 142 km do Recife, dona Nenê vende espetinhos de carne e frango por apenas R$ 0,50 e, nessa noite em particular, a da sexta passada, quase não dá conta dos fregueses. "Nunca fui num cinema, mas o daqui fechou tá pra mais de 20 anos", diz à reportagem do Diario. Mesmo assim, ela entende que luz acesa não combina com filmes e, em vez da iluminação normal, colocou uma vela para poder funcionar. Dona Nenê e seus clientes eram alguns personagens dos mais de dois mil que se prostraram diante da tela armada pelo projeto Cine Sesi Cultural para ver Lisbela e o prisioneiro.
Quando o longa de Guel Arraes começa, às 20h30, tem muita gente sentada nas cadeiras, outros tantos no chão e gente em pé como o aposentado Moisés Faustino. "Rapaz, eu já vi esse filme na televisão, mas tô aqui pra ver de novo porque é bem melhor. E amanhã eu chego mais cedo pra pegar um lugar nas cadeiras", diz. Ele vem só porque sua esposa é "crente", porém perto de seu Moisés está Simone Andréia e seus dois filhos, Mateus e Maísa, que brincam perto de outras crianças e também prestam atenção às peripécias de Leléu (Selton Mello) e às brincadeiras metalinguísticas que Guel utiliza para apresentar sua mocinha Lisbela (Débora Falabella).
É justo nas cidades que não possuem mais uma sala de exibição que o Cine Sesi Cultural, concebido pela publicitária Lina Rosa e abraçado pelo Sesi desde 2002, arma sua estrutura. Durante um fim de semana, exibe três curtas e três longas, divulga por meio de carros de som e rádios comunitárias e altera a rotina da comunidade. "Nessas quatro edições, visitamos 64 municípios em Pernambuco. Estamos também no segundo ano em Alagoas e Paraíba e no primeiro em Sergipe", comenta Lina. "Gosto de dizer que o objetivo do projeto é que ele um dia não exista mais", acrescenta.
Ela fala assim porque já observou uma demanda em todos os lugares visitados pela caravana. Está na hora da Retomada do cinema nacional, celebrada com um crescente número de produções anuais, ser acompanhada por um renascer das salas, ou pela interiorização destas.
Este foi o último final de semana da temporada 2005 do Cine Sesi Cultural em Pernambuco - e vale dizer que o projeto já atingiu um milhão de espectadores desde o início. (Luciana Veras)
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