Seis meses dividem a estréia de Cidade baixa na Un certain regard, em Cannes, do seu lançamento nacional, que se dá hoje. Nesse hiato, prêmios, reconhecimento e expectativa. Se o panorama mudou, e Sérgio Machado agora apresenta seu segundo longa respaldado pelo troféu de melhor brasileiro no Festival do Rio 2005, a avaliação do Diario permanece: Cidade baixa, visto pela reportagem na França, na primeira exibição para a imprensa, é um dos mais felizes produtos da retomada e, sem dúvida, uma das melhores ficções do ano.
Porque nele há verdade, verossimilhança, gás e suor na apropriação da parte mais suja, menos turística, de Salvador, as áreas não utilizadas na publicidade do governo, os locais onde habitam, enfim, os genuínos espécimes de qualquer metrópole. Deco (Lázaro Ramos) e Naldinho (Wagner Moura), os amigos-parceiros que nos primeiros instantes safam-se, não sem violência, de uma confusão numa briga de galo, conhecem e se apaixonam-se por Karinna (Alice Braga), uma prostituta a quem dão carona.
Ergue-se um triângulo amoroso que Machado nunca julga, ou ao qual atribui valores morais. Os personagens são guiados pelos instintos, pelos sentimentos que lhes invadem o estômago, pelas pulsões sexuais e pelos ritos de amizade. Na construção da narrativa, o diretor libera os atores, que se devotam e atingem um nível raro de entrega e comprometimento, e se liberta de convenções. Na fotografia, ora pipocam as luzes da boate onde o trio, com os deleites e traições intrínsecos, cristaliza-se, ora a luz natural, sem rebatedores, sem filtros, de uma Salvador de calçadas imundas, onde é possível encontrar dois homens brigando por uma mulher e uma amizade corrompida.
Onde a terra acaba, o documentário que Sérgio Machado realizou sobre Limite e Mário Peixoto, já permitia antever a sensibilidade do diretor. Cidade baixa, por sua vez, amplifica essa qualidade e a distorce; aqui, Sérgio é sensível o bastante para dessensibilizar sua platéia contra quaisquer noções preconcebidas, e colocá-la aberta, com a epiderme escancarada para as inúmeras sensações emanadas daquela paisagem da carne, do sexo e do amor. (Luciana Veras)
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