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Edição de Segunda-Feira, 31 de Outubro de 2005 
Viver | Paulo Coelho
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VIVER
Paulo Coelho
Três histórias sobre a condição humana
"Oh! Maria concebida sem pecado, rogai por nós que recorremos a Vós. Amém".
Os sinais de Deus

  Isabelita me conta a seguinte lenda:

  Um velho árabe analfabeto orava com tanto fervor, todas as noites, que o rico chefe de grande caravana resolveu chamá-lo:

  - Por que oras com tanta fé? Como sabes que Deus existe, quando nem ao menos sabes ler?

  - Sei ler, sim senhor. Leio tudo que o Grande Pai Celeste escreve.

  - Como assim?

  O servo humilde explicou-se:

  - Quando o senhor recebe uma carta de pessoa ausente, como reconhece quem a escreveu?

  - Pela letra.

  - Quando o senhor recebe uma jóia, como sabe quem a fez?

  - Pela marca do ourives.

  - Quando ouve passos de animais, ao redor da tenda, como sabe se foi um carneiro, um cavalo um boi?

  - Pelos rastros - respondeu o chefe, surpreendido com aquele questionário.

  O velho crente convidou-o para fora da barraca e mostrou-lhe o céu.

  - Senhor, aquelas coisas escritas lá em cima, este deserto aqui em baixo, nada disso pode ter sido desenhado ou escrito pelas mãos dos homens.

O que é divertido no homem

  Um discípuloperguntou a Hejasi:

  - Quero saber o que é que mais divertido nos seres humanos.

  Hejasi comentou:

  - Pensam sempre ao contrário: têm pressa de crescer, e depois suspiram pela infância perdida. Perdem a saúde para ter dinheiro, e logo em seguida perdem o dinheiro para ter saúde.

  "Pensam tão ansiosamente no futuro que descuidam do presente, e assim, nem vivem o presente nem o futuro.

  "Vivem como se não fossem morrer nunca, e morrem como se não tivessem jamais vivido."

Quem ainda deseja esta nota?

  Cassan Said Amer conta a história de um palestrante que começou um seminário segurando uma nota de 20 dólares e perguntando:

  - Quem deseja essa nota de 20 dólares?

  Várias mãos se levantaram, mas o palestrante pediu:

  - Antes de entregá-la, preciso fazer algo.

  Amassou-a com toda fúria, e insistiu:

  - Quem ainda quer esta nota?

  As mãos continuaram levantadas.

  - E se eu fizer isso?

  Atirou-a contra a parede, deixou-a cair no chão, ofendeu-a, pisoteou-a, e mais uma vez mostrou a nota - agora imunda e amassada. Repetiu a pergunta, e as mãos continuaram levantadas.

  - Vocês não podem jamais esquecer esta cena - comentou o palestrante. - Não importa o que eu faça com este dinheiro, ele continua sendo uma nota de 20 dólares. Muitas vezes em nossas vidas somos amassados, pisados, maltratados, ofendidos; entretanto, apesar disso, ainda valemos a mesma coisa.

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