A segunda metade do século 19 representou uma época de estabilidade para Pernambuco. Com o fim das revoltas armadas, todos os esforços voltaram-se para o desenvolvimento econômico da província. Sob o comando de Manoel Figueroa de Faria, o Diario de Pernambuco estava preparado para esta nova realidade. Em 1855, ao completar as três primeiras décadas de existência, havia conseguido resistir a 348 concorrentes, que acabaram falindo. O proprietário do Diario, no entanto, estava preparado para o mercado. O seu parque gráfico, além da impressora que produzia o jornal, contava ainda com outra máquina e seis prelos de ferro para diversas obras menores, com 150 pares de caixetas de tipos. Três estrangeiros figuravam entre os seus 72 empregados, informava o relatório que o governador José Bento da Cunha e Figueiredo enviou à Assembléia Provincial naquele ano.
 | No dia 11 de abril de 1855, o Diario dedicou metade da capa da edição do dia para noticiar a morte de Nicolau I, imperador russo e um dos homens mais influentes da Europa na primeira metade do século 19. "Não ha muito que o nome delle abalava todos os corações, com um gesto imperioso dominava o seu povo, à sua vóz curvavam-se os vassalos, marchavam os exercitos, o seu ar impunha, e o raio de sua colera estalava com medonho estampido pelos seus estados sem fim. Já nada disso existe, jaz immovel e para sempre. Aquelle que fazia empallidecer os fortes, deslumbrava os grandes, punha em confusão as nações, contra quem nasciam as levas, alistavam-se numerosos soldados, ei-lo ahi estirado e em mudez eternal".
Nicolau I, que comandou a Rússia por 30 anos, faleceu no dia 2 de março. Recebia, mais de um mês depois, o registro de sua morte no Diario. Em 1855, dentro das modificações gráficas realizadas ao longo da administração de Manoel Figueroa de Faria, também se modernizava a parte dos obituários. Publicados naseção "A Pedidos", os registros vinham acompanhados de ilustrações e até de poesias, geralmente compostas por parentes com dons artísticos que queriam comunicar à sociedade como aquele ente era querido.
 No dia 5 de março de 1855, a página 4 da edição do Diario trazia um anúncio que comunicava a mudança de endereço da empresa José Pinto de Maga lhães & C para um local mais apropriado. Os carros fúnebres seriam transferidos da rua Augusta para o "pateo do Paraizo". | Cinco anos antes, Norberto Joaquim José Guedes havia concordado em ceder o terreno para a construção do maior cemitério do Recife, o de Santo Amaro. Nas proximidades já funcionava, desde 1814, o Cemitério dos Ingleses, destinado aos súditos da coroa britânica. Em 1869, o general Abreu e Lima, chamado de "Herói das Américas" por ter lutado ao lado de Simon Bolívar, foi lá sepultado porque o bispo Francisco Cardoso Ayres vetou a entrada em Santo Amaro.
Abdalah-el-Kratif, contador de histórias
O nome exótico já era conhecido pelos leitores e, principalmente, leitoras do Diario. Abdalah-el-Kratif assinava folhetins que eram publicados nas capas do jornal durante a segunda metade dos anos 1850. O mais famoso de sua lavra foi justamente o primeiro, "A Carteira", que figurava nas edições de segunda-feira durante o ano de 1855. Abdalah era o codinome de Antonio Pedro de Figueiredo, também responsável pelos textos do "Retrospecto Semanal", um comentário sobre os episódios ocorridos nos sete dias anteriores.
De acordo com Arnoldo Jambo, autor do livro Diario de Pernambuco História e Jornal de Quinze Décadas, lançado em 1975, Antonio Pedro de Figueiredo "inaugurou, com segurança, a crítica de literatura no Recife". Para Jambo, o folhetim "A Carteira", é o ponto alto na integração do Diario no desenvolvimento literário do Nordeste. Os escritores locais tinham espaço garantido.
DATAS HISTÓRICAS
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