A morte por infarto ontem, de Conceição Acioly, 55 anos, gerou comoção entre os que conviveram com a atriz antes de se mudar para São Paulo, no final dos anos 90, para defender uma dissertação de mestrado sobre teatro popular no Brasil e ensinar nas periferias paulistanas. Em sua carreira, atuou em peças como Torturas de um coração e A revolta dos brinquedos, pelo grupo do Teatro da Universidade Católica de Pernambuco, e desenvolveu um trabalho dedicado ao teatro de rua, como no grupo Ponta de Rua, de 1978 a 1985. Esteve também à frente do movimento sindical, onde contribuiu para mudanças e ganhos para a classe artística.
Valdir Coutinho, ator e diretor de teatro desde 1970 e atualmente supervisor do Espaço Passárgada, conheceu Conceição enquanto participava do Teatro Experimental de Olinda. "Ela tinha um grupo (Balança o Coreto) que fazia um pastoril na praça do Carmo, com Walmir Chagas e Samuel Campello e também animava a igreja da Boa Hora. Gostava de coisas na rua, praças, coretos palanques, seu teatro era mais um circo. Não me lembro dela como artista de palco", diz Coutinho.
Para ele, o fato de seu nome estar menos presente na mídia é devido ao forte tom de crítica de suas atuações dentro e fora dos palcos. "A gente vivia com medo do rescaldo do golpe militar, que perdurou muito tempo. Em seu deboche, na crítica, na picardia, ela estava mais sintonizada na tropicália, que era mais difícil de ser decodificada na época. Ela fazia um teatro político. Por isso não aparecia muito na mídia daqui. É muito difícil sobreviver ou ficar na história fazendo teatro de rua", afirma.
O ator e diretor Manoel Constantino, que participou do Balança o Coreto, afirma que a morte de Acioly é uma grande perda para o teatro. "Ela tinha uma atuação muito consciente de seu papel como atriz, mas também como uma pessoa que percebe a realidade. Era uma mulher muito coletiva e companheira, além de ter uma liderança muito viva", comenta Constantino. Por fazer teatro a partir de perspectivas populares, Acioly tinha um grande reconhecimento no meio teatral pernambucano. "Fazíamos um trabalho muito marcante, porque era pelo teatro que buscávamos uma postura política diante da realidade brasileira. O teatro é uma arte que incomoda muito, porque é ao vivo, e talvez por isso, naquela época, ela era muito conhecida, mas não com a dimensão que os atores deveriam ter nesse país".
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