Bem-vindos ao reino da Carençolândia. Bem-vindos, vírgula, nós todos, salvo melhor juízo, já habitamos este país imaginário.
Aqui se fala o carencês, o dialeto da necessidade. Tanto a fome de viver, automática, quanto a precisão mais desértica, o ronco da alma e da carcaça, a existência que pede água.
Nunca o reino da Carençolândia, ou seria Carencialândia, teve tantos habitantes.
É gente precisando de "um tudo".
Nem mesmo as peruas mais consumistas e endinheiradas, aquelas que enfeitam o topo da pirâmide, estão satisfeitas. Não há Lancôme que encubra as olheiras da carência profunda. Querem sempre mais e mais e mais.
As gazelas também estão numa ansiedade louca. Querem resolver a vida num bater de cílios, como se a vida tivesse jeito. Em vez de no meu apê ou no seu, elas perguntam, carentes: "No meu blog ou no seu?".
Até as crianças estão impossíveis, ansiosas, histéricas, barulhentas ao ritmo dos seus "games". Precoces, as meninas emperuam-se logo cedo; os meninos acanalham-se, fácil, fácil.
Bem-vindos ao reino da Carençolândia, anuncia a placa.
Agora mesmo alguém me pede "ATENÇÃO", no MSN, o Messenger, que substitui, no mundo virtual, aquelas antigas cadeiras que colocávamos para uma conversa na calçada. Quem passa, fala, fofoca, se queixa.
Haja carência.
Os escritores e candidatos a escritores escrevem cada vez mais, ainda bem, e carecem de leitores. Os mesmos 100 leitores, como dizia Sthendal, disputados à tapa. Ah, os escritores vagam como os fantasmas na poeira de fim de mundo da Carençolândia, como estivessem naquele livro mexicano das terras de Pedro Páramo.
Cândida, uma amiga, viciada em orientalismos tantos, espécie de "Carma-Cola", já passou por todas as religiões e correntes, todas as diversidades da yoga... agora me escreve para dizer que, mesmo com um pé na Índia, nunca conseguiu ser expatriada do reino da Carençolândia.
Estamos condenados, machos & fêmeas, a este fatídico território. Os homens, então, nunca foram tão carençolandeses. Fracos, não agüentam o tranco das mulheres mais destemidas. Arrotam macheza nos botecos e perseguem a primeira coleira possível. E nunca tiveram tanta insegurança. Como no lirismo seresteiro do brega, cantamos: "Tenho ciúme do sol, do luar, do mar/ Tenho ciúme de tudo/ Tenho ciúme até /Da roupa que tu vestes".
Bem-vindos ao reino da Carençolândia, esse golfo inevitável da existência. O pior é que a superpolação tem nos obrigado a dar alta até mesmo a alguns nativos e nativas, os carençolandeses que viram xenófobos, que se orgulham das suas dores e de suas buraqueiras d'alma. Uma gente que é só o oco, sabe?, com um caboré existencialista, chato, sartreano no último, cantando por dentro.
& Modinhas de fêmea
O estilista Valentino tem razão: comparadas às estrelas do passado, as atrizes Julia Roberts e Cameron Diaz parecem mendigas, de tão mal que se vestem. "Até calças de agasalho elas usam", espantou-se ele, conforme relato enviado de Milão por Maria do Carmo, aquele rapaz que comprei de segunda mão do jornalista Tarso de Castro.
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Para reflexão e ruminações pós almoço de fim de semana, com vocês, Antônio Maria, padrinho sentimental deste cronista: "Toda mulher, após trinta dias de felicidade sente fome e sede de desgraça. Só não irá embora se não tiver condução." Será?
l A coluna "Modos de Macho & Modinhas de Fêmea"é fornecida com exclusividade pela BR Press.
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