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Edição de Sexta-Feira, 30 de Setembro de 2005 
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Opinião
Opinião
Fonte copiosa

Prefeituras pernambucanas que mais recebem influência do avanço do turismo entre nós se acham cada vez mais arregimentadas no sentido de melhorar, por todos os modos possíveis, as condições locais que possam satisfazer e, pois, atrair cada vez maior número de turistas em visita ao Estado. É felizmente geral a preocupação dos edis. Hoje, os empreendimentos hoteleiros e de recreação que se instalaram nas praias ao sul do Recife chegam a ficar em primeiro lugar na arrecadação municipal do Imposto Sobre Serviços (ISS), circunstância que apenas surpreende aqueles que costumavam duvidar do turismo como fonte copiosa de empregos e, sobretudo, de rendas.

  O que mencionamos de avanço é tão apreciável que a contabilidade hoteleira registrará, daqui a quatro anos, nos empreendimentos a que nos referimos, um número maior de leitos do que a própria estatística dos hotéis da Capital do Estado. Inúmeros desses empreendimentos plantados à beira da praia se localizam a menos de meia hora, ou menos, do Aeroporto dos Guararapes, que se constituiu, por sua vez, na porta principal por onde chegam os visitantes da Região Metropolitana do Recife. Hotéis e resorts instalados segundo as conveniências e os padrões internacionais estão a recrutar a toda hora a mão-de-obra necessária a operar os elegantes empreendimentos costeiros.

  Por isso que os edis do Cabo de Santo Agostinho e Ipojuca, dentre outros, têm-se lançado ao trabalho de formar, com a brevidade necessária, o pessoal jovem ou maduro que demonstre possuir aptidão para a diversidade em que se apresenta o serviço turístico. Necessitam de receptivos e guias turísticos no mínimo bilingues para o atendimento da clientela dos hotéis e agências de turismo, cujo número não pára de crescer. É grande, de fato, a demanda de atendentes, camareiras, garçons, sem falar nos jangadeiros e bugueiros - nova profissão surgida nos arraiais do turismo costeiro. Os municípios em apreço estão a formar, pelo menos, duas turmas por ano desse pessoal recrutado pela nova e próspera economia do turismo.

  Tudo irá água abaixo, caso o País não estabeleça e implante uma política nacional abrangente do turismo caboclo. Espanha e França, na Europa, recebem por ano 30 a 35 milhões de turistas de forma sustentada, enquanto, na América Latina, o México é o campeão, porque tem recebido, em média, cada exercício, cerca de 11 milhões de visitantes. O Brasil mal ganha 20% disso, ou seja, não tem sido capaz de superar um quinto a um quarto do desempenho dos mexicanos. É exato que o México faz fronteira com os Estados Unidos, circunstância que dá ao intercâmbio turístico com os mexicanos um favorecimento especial. Ainda assim, é bastante significativa a distância que se registra entre o turismo estrangeiro no México e o observado no Brasil.

  Claro, existem inúmeras concausas a determinar a sorte magra que nos tem cabido na partilha do turismo mundial. Não é a falta de belas cidades, nem de apreciáveis monumentos históricos. Não é o folclore que deixe de atrair a gente de fora. A natureza esplande em belezas encantadoras a começar pelos cenários da Amazônia e do Pantanal, dentre outros. O povo é alegre, musical, acolhedor. Atrapalha-nos, além de outros aspectos, a falta de uma política decidida, coerente e duradoura em prol do turismo que ultrapasse tudo quanto temos tentado fazer até agora.

  Sem isto, farão pouco pelo turismo Estados e Municípios, embora façam muito, sem desfalecimentos, o ano inteiro.


Os Coelhos do São Francisco

Carlos Cavalcante
ESCRITOR E JORNALISTA

Responsável pelo desenvolvimento do Sertão do São Francisco, hoje uma das mais ricas regiões do País, produzindo e exportando para diversos países vinhos, sucos e frutas de excelente qualidade, a Família Coelho terá a sua história contada em livro, que será lançado por este jornalista em Petrolina, Recife e Brasília.

  Com 500 páginas, e apoio do Governo do Estado, o livro tornará pública a história de uma família que tem lutado de maneira obstinada pelo desenvolvimento do Sertão do São Francisco, através de atuação nos mais diversos segmentos empresariais e políticos.

  O livro mostrará como era o Sertão do São Francisco antes do início das atividades de Clementino e Josepha Coelho, líderes da família e incomparáveis anfitriões de personalidades que visitavam a cidade de Petrolina. Vocacionado para o comércio, Clementino mostrou, durante vários anos, que o Sertão do São Francisco tinha amplas condições para tornar-se uma das regiões mais ricas do País, título que ostenta nos dias atuais.

  Josepha Coelho, reconhecida como a matriarca do Sertão do São Francisco, sabia receber como ninguém as autoridades, incluindo presidentes da República, ministros e políticos, que visitavam Petrolina. As recepções oferecidas em sua residência eram conhecidas pela mesa farta e pela atenção que dispensavam a todos os convidados.

  Josepha Coelho era uma líder respeitada e muito aplaudida. Com muita autoridade, manteve a família unida e coesa ao lado do filho mais velho e conhecido nacionalmente, o ex-governador e ex-senador Nilo Coelho, já falecido. Político destemido, competente e íntegro, Nilo Coelho tem seu nome incluído na história da política brasileira.

  Entre outros filhos conhecidos do casal Clementino e Josepha Coelho, além de Nilo Coelho, estão Osvaldo Coelho, que vem sendo reeleito para sucessivos mandatos de deputados federais; Geraldo Coelho, deputado estadual, ex-vereador e ex-prefeito de Petrolina; José Coelho, ex-prefeito de Petrolina e pai do deputado estadual Ciro Coelho, ex-vereador de Petrolina; AdalbertoCoelho, ex-vereador de Petrolina; Augusto Coelho, ex-prefeito de Petrolina e Paulo Coelho, já falecido, pai do atual prefeito de Petrolina, Fernando Bezerra Coelho.

  A todos eles, Petrolina e o Sertão do São Francisco devem o seu desenvolvimento. Isso será mostrado no livro que está sendo escrito e que irá contribuir para enfatizar a influência dos Coelhos do Sertão do São Francisco no desenvolvimento da região e do Estado.


Escola de fábrica

André Luiz de Souza Costa
ADVOGADO

Hoje, a partir das 9h, será realizada uma Audiência Pública no Plenário da Assembléia Legislativa de Pernambuco para debater o Projeto Escola de Fábrica. Instituído pela Lei Federal nº 11.180, de 23.09.2005, o Escola de Fábrica é uma política pública no âmbito do Ministério da Educação (MEC), através da Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica (Setec), integrante da política nacional para a juventude, com a finalidade de prover a formação profissional inicial e continuada a jovens de baixa renda que atendam aos requisitos definidos pelo Projeto, mediante cursos ministrados em espaços educativos específicos, instalados no âmbito de estabelecimento produtivos urbanos ou rurais.

  Inspirado nas idéias de dois programas de inclusão de jovens no mercado de trabalho que funcionam há vários anos por meio de parcerias entre fundações e empresas privadas - Projeto Pescar, da Fundação Projeto Pescar (www.projetopescar.org.br) e Programa Formare, vinculado à Fundação Iochpe (www.formare.org.br) -, o Projeto Escola de Fábrica é um dos poucos, mas importante exemplo, de política pública que nasce a partir de experiências vitoriosas obtidas pelo setor não estatal.

  O Escola de Fábrica é desenvolvido através de parcerias do MEC e do FNDE com diferentes atores relevantes no campo da educação profissional e do mundo do trabalho: a) Unidade Gestora: qualquer órgão ou entidade da administração pública direta, autárquica ou fundacional, de qualquer esfera de governo, instituição oficial de educação profissional e tecnológica, ou entidade privadas, sem fins lucrativos; b) Unidade Formadora (qualquer estabelecimento produtivo urbano ou rural): empresa, indústria, fábrica grande, média ou pequena - associada com outras -, de qualquer natureza, inclusive prestadora de serviços e empreendimento agroindustrial e rural; c) Unidade Certificadora: qualquer Instituição de Educação Profissional e Tecnológica.

  Os cursos de iniciação profissional e continuada, inseridos nos APLs - Arranjos Produtivos Locais, deverão se enquadrar em uma das áreas profissionais definidas pela Câmara de Educação Básica do Conselho Nacional de Educação (CEB/CNE) para a educação profissional: Resolução CNE/CBE nº 04/1999.

  O jovem participante deverá ter idade entre 16 e 24 anos, renda familiar mensal per capita de até um salário mínimo e meio; e estar matriculado na educação básica regular da rede pública ou na modalidade de Educação de Jovens e Adultos Presencial, prioritariamente no ensino de nível médio. Admitido no Escola de Fábrica receberá diretamente do MEC, durante o período do curso, uma bolsa-auxílio no valor de R$ 150,00. Na primeira fase do Projeto, 11.500 alunos já estão sendo beneficiados em todo o país, sendo 560 em Pernambuco.

  O MEC já abriu novas inscrições até 30 de novembro. Pelo critério regional deverão ser aplicados 30% do total dos recursos do Projeto Escola de Fábrica nas regiões Norte e Nordeste. É uma excelente oportunidade para que os órgãos públicos estaduais e municipais, as entidades privadas sem fins lucrativos e os empresários pernambucanos participem desse exercício de solidariedade e de responsabilidade social dando oportunidade para que jovens de 16 a 24 anos estudem, iniciem sua qualificação profissional e ingressem no mundo do trabalho com dignidade e confiança.


Lutas e rendição

Nagib Jorge Neto
JORNALISTA

As bandeiras, idéias, eram símbolos de luta e síntese de sonhos. Na época pareciam eternas, inabaláveis, mas perderam força e consistência nos anos 90, do século passado, gerando perplexidade e desencanto entre as forças que defendiam mudanças, alimentavam sonhos de uma sociedade fraterna e solidária. Daí cresceu a crise de antigas posições, convicções, que aos poucos foram sendo revistas, alteradas, na tentativa de reverter a tendência de abandono das bandeiras e ideais que marcaram gerações.

  Mas a rapidez das transformações, o avanço do modelo liberal triunfante, sufocou na prática os sonhos de resistência. As lideranças de esquerda, de centro esquerda, buscaram refúgio na política, no discurso de modernização, limitado à pregação de ajustes no sistema, sem contudo gerar respostas para as distorções, seus reflexos na área do trabalho, na questão social e nas relações entre países e regiões. Tal postura resultou numa capitulação, na medida em que abandonou a crítica à economia de mercado e ao processo deglobalização.

  Nesse aspecto, sustenta o sociólogo alemão Robert Kurz, a esquerda ficou desarmada teoricamente, renegando o questionamento da economia, a autonomia relativa da política e migrando para a esperança de atuar "subversivamente" no âmbito da arte, da cultura de massas, da mídia e da comunicação. Então deixou de lado o confronto teórico com a economia capitalista, que menciona com "evidente enfado", indiferente ao fato de que "o capitalismo só esqueceu a sociedade no sentido social e zela para que nada aconteça sob o sol ao ponto de não servir ao supremo objetivo de maximização dos lucros".

  Diante da realidade, os efeitos do processo em nosso país - positivos e negativos -, avançam com base num rolo compressor que dita regras impunemente, à revelia do Estado e da sociedade. Não há reação racional da maioria da esquerda e os avanços na economia, na ordem política e na tecnologia, não contemplam e tampouco visam melhorar a geração de empregos e as relações no mercado de trabalho. Apesar dos danos,a esquerda se limita a tentar amenizar as perdas de empregos, de rendas, com as vantagens sociais compensatórias, a terceirização e o incentivo ao setor informal da economia, numa clara confissão de que no discurso vago ainda esperneia, mas na prática se ajusta ao sistema triunfante. Em suma, para não ser alijada do poder, prefere perder os anéis que resta e salvar os dedos.

  Esse quadro é visível no momento atual do País, com a crescente redução do papel do Estado, do seu poder de intervenção, que deixa a maioria da população sem defesa diante da redução de empregos e salários, do aumento das tarifas, com a conseqüente diminuição da renda e do poder aquisitivo. A isso se junta a velha política de majorar impostos, desviar recursos públicos, atingir direitos sociais, como é o caso da Reforma da Previdência, e a intenção de fazer a reforma trabalhista, liquidar as conquistas sociais, meta que os economistas da globalização consideram vital ao desenvolvimento das empresas nacionais e multinacionais.

  Apesardos perigos, dos riscos para o equilíbrio social, as forças no poder e seus aliados não sinalizam com opções de mudança, de luta por sonhos e esperanças para alterar o modelo, que não pode ser combatido com programas de assistência social e intervenções limitadas na estrutura agrária. Pior: quase não se ouve nenhuma voz discordante e, na esfera do poder, persiste uma tentativa de acomodação, de rendição, mais exatamente de abandono das lutas e ideais que ficaram órfãs.

  Então cabe lembrar que o socialista Mário Soares, ex-presidente de Portugal, que lutou contra a ditadura em seu país, reafirmou aqui suas idéias e defende no seu país a crença nos ideais de justiça social, num testemunho de que ao combater o autoritarismo não visava apenas a defesa das liberdades. Ele defendeu as transformações, as mudanças, que devem ser motivo de crença, visão realista, na medida em que o sistema liberal vigente, com todo seu arsenal teórico, suas práticas danosas, tende a se exaurir e abrir espaço para um novo modelo econômico e social.

  Afinal, não há porque insistir na rendição, na submissão ao deus mercado, ao sistema de competição feroz e práticas de corrupção, e não acreditar numa retomada do processo de desenvolvimento voltado para o bem estar do ser humano, de milhões de homens e mulheres hoje vítimas do desemprego, da fome e da miséria na África, em partes da Ásia e em quase todas as nações da América Latina.


Idosos e sexual-idades

Amparo Caridade
PROFESSORA DA UNICAP

Certas figuras míticas ajudam a pensar a sexualidade que vivemos, em nosso ser e estar no mundo com os outros. Eros, o deus do Amor entre os gregos, representa a força poderosa que faz com que todos os seres sejam atraídos uns pelos outros. Vênus, sua mãe observava que quando Eros era criança, só crescia se estivesse em companhia de alguém que o amasse. O mito ensina com isso que "o afeto necessita de ser correspondido para desenvolver-se". Para crescer Eros busca a bela Psique, para com ela fazer sua trajetória amorosa. O mito reúne tanto a beleza encantadora de Psique que lisonjeia os sentidos, como outras dimensões que fazem mergulhar a alma num devaneio sem fim. Eros e Psique nos remetem ao universo de dores e alegrias que o amor pode reunir. Semelhante à própria vida que contém a morte, ou o prazer que contracena com a dor. No dizer de Barthes há uma "lufada de aniquilamento que atinge o sujeito apaixonado por desespero ou por excesso de satisfação". Há o doer amoroso que é um abismo perigoso sim, um momento de hipnose, mas há também uma doçura abissal.

  Cumprimento os amigos nesta Semana do Idoso e tenho a certeza de que, pela bagagem de experiência vivida entenderão esse mais além do corpo a que me refiro. O olhar veiculado sobre a sexualidade é, em geral, endereçado ao corpo, à performance, aos genitais.Um olhar consumista. A discursividade induz a pensá-la magicamente satisfatória ñem corpos sarados, jovens e responsivosá. Felicidade fácil. Como se sexualidade tivesse idade ou se resumisse ao corpo e seus feitos. Mas ela situa-se num entrelace entre o real do corpo, o simbólico da linguagem e o imaginário da cultura onde estamos inseridos. Nessa triangulação, a linguagem e a cultura têm inclusive o poder de subverter a ordem que é estabelecida pelo biológico. Assim é que podemos fazer sexo, não apenas como quem tem fome, mas como quem faz poesia com os olhos, com o corpo, as mãos, os braços, abraços e entrelaces possíveis. Posso fazer sexo como quem encontra e saboreia a alma do outro, não apenas um corpo consumível.O corpo é o lugar onde se expressa o prazer que é sentido dentro de cada um, mas no ser humano o corpo todo é erógeno. Eros nos habita por inteiro e por toda a vida. Como habita também o mundo, a filosofia, a arte, a poética, a literatura. Por isso temos uma imensa capacidade de experimentar prazeres plurais. Um bom papo, uma taça de vinho, uma boa música, um por de sol, uma boa leitura podem não ter a marca estonteante do orgasmo, mas contêm sim, a filigrana do prazer que faz sentido, que não se apaga da memória, que ressoa no corpo e na experiência de vida. A sexualidade mais bonita se ensaia nesse arrodeio de prazeres que cercam o corpo desejante. O sentido eletriza a mão que acaricia alguém que desejamos. Dele se exige que entre no jogo e responda com amor.

  O termo sexualidade é aplicado aos seres humanos justamente porque envolve o corpo e dimensões especiais como a espiritualidade, a arte, a metanóia, a transcendência. Esses aspectos são compreendidos como sendo elevadores da experiência humana de viver o prazer. A sexualidade em nós tem a potencialidade de fazer-se palavra, gesto, olhar, mistério, sedução, ternura, não apenas frenesi de um exercício sexual genital ilimitado. Corpo no corpo, urgência dos instintos, sem a magia do mistério, dos afetos e emoções, não caracteriza o que é mais sutil, profundo e agradável no sexual que podemos fazer e viver enquanto sujeitos. Na maturidade, no envelhecer esse modo de olhar e viver a sexualidade torna-se especial porque temos uma bagagem de experiência, uma capacidade de aguardar a satisfação, uma permissão para a sensibilidade demorada, saboreada, sem necessariamente ter que explodir. No envelhecer há mais caminho, mais bagagem, mais entrega, menos fazer, mais viver. Oxalá mais arte.

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