Aos nove anos de idade, Joseane da Silva Gomes perdeu a visão depois de levar uma pedrada nos olhos durante uma brincadeira com um amigo de infância em Sítio Lério, zona rural de Surubim, no Agreste do Estado. Depois de quase uma década afastada dos estudos e isolada em casa, ela afirma ter saído da escuridão; não aquela provocada pela deficiência visual e sim pela falta de conhecimento.
 Sala de Biologia é um dos espaços temáticos criados no educandário para melhorar o aproveitamento escolar dos alunos. Fotos: Ricardo Fernandes. | Aconselhada pelo irmão, ela matriculou-se na Escola Estadual Severino Farias, onde voltou a "ler" através do tato, e aos 23 anos já sonha em ajudar outros estudantes com deficiência visual aperfeiçoando computadores ao método Braile. Joseane está entre os 2,5 mil alunos da instituição, que este ano figura entre os seis finalistas do Prêmio Gestão Escolar Destaque Brasil, concedido às melhores unidades de ensino público do País.
Em suma, uma iniciativa instalada desde 1987 numa escola pública do Agreste, cuja importância para a região é inversamente proporcional aos holofotes da mídia que custam em iluminar a escola. O problema deve ser resolvido ainda este ano, quando uma equipe do Canal Futura vai realizar uma filmagem das aulas em Surubim, cujas imagens serão exibidas em rede nacional e durante a cerimônia de entrega do prêmio, no dia 24 de novembro, em Gramado, no Rio Grande do Sul.
 Aulas são traduzidas diariamente na linguagem de sinais para os alunos surdos. | O segredo está em três projetos relativamente simples, criativos e igualmente eficazes, que vêm fazendo a diferença no rendimento dos alunos. O primeiro deles é o carro-chefe da escola e tem em Joseane uma das beneficiadas. Ao invés de reunir quase 50 alunos portadores de deficiência auditiva ou visual em turmas específicas, a diretoria da escola resolveu integrá-los gradativamente às salas regulares com o apoio de professores capacitados.
Após cinco anos de aperfeiçoamento das aulas com alunos especiais, pessoas que nunca tinham estudado por falta de condições financeiras tiveram acesso ao mundo do ensino através de métodos específicos de aprendizagem. A gestora da escola, Edjane Ribeiro dos Santos, ressalta que a integração resultou em cenas difíceis de ver até mesmo nas melhores escolas particulares. "O preconceito é um tema que os alunos superaram na prática, convivendo no recreio e em sala de aula com estudantes cegos ou surdos. Hoje a harmonia é total", revela, referindo-se a casos como o de Bruno Rafael Vasconcelos, 14, e Eudja Carla de Lima, 11. Eles se comunicam sem problema, mesmo com a deficiência auditiva de Bruno, que sonha ser engenheiro mecânico. "A gente arrumou um jeito de se comunicar. Às vezes até a professora chama nossa atenção", confessa Eudja, que faz parte da mesma turma de 5ª série de Bruno.
Na escola estadual Severino Farias, em Surubim, todas as salas são separadas por disciplinas e os alunos têm duas aulas por dia
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